espelho meu


como cacos no espelho
vejo que o erro deu-se
num momento de profundo corte
açoite no meio de tanto amor
morro eu, morre você
em mal traçados passos
eu durmo santa
depois de perceber
que o reflexo
fora visto em direção
mais que equivocada
suspensa em frágil linha
onde dançam lembranças
inseguras pajelanças
na sombria noite sem deus…
assim deu-se o fim.

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acabado enfim


o doce vira sal na língua azeda, cansada

enquanto açúcar esfarela garganta abaixo

entre o mel e a viagem insossa que derrama

as minhas ilusões em cada gota áspera

do bruto melado sem gosto eterno

na refinaria de minha alma.

meu coração é pulso forte

que aguarda convalescer da cama

aquela onde beijos e facadas apadrinharam

um casamento de duas afoitas borboletas.

e no arvoredo do quintal

as abelhas riem de minhas feridas

das picadas que incham minha pele

de cor dúbia – sem sangue eu sou.

sem viagem, postagem sem rumo

meu agonizado ser sem paladar

consome e lambe apenas o sumo

do dissabor daquele amor

que mutante

estrangulou a mais doce

ilusão vivida por uma borboleta

virtualmente anônima…

Onde andará o Blog da Dai :) ?

Os links do texto são convites a amigos para compartilharem minha dorzinha 😦

A vida é constituída de perdas. Nascemos só para iniciarmos um processo de deteriorização. Morrer é fato tão comum quanto se tentar explicar a morte. Mas este fenômeno em si traz consigo o benefício do acaso e do mistério.
Desde sempre, desde o início, nós, humanos, tentamos lidar com este aspecto obscuro e glorificado. O ato involuntário de desaparecer como fumaça no Cosmos, nas esquinas, em hospitais, enfim, nas curvas do destino.

Difícil aceitar a perda. Inútil perseguir o abismo que não tem fim.
Religiões, filosofias e crenças folclóricas amortecem a frustração universal da talvez única resposta sem pergunta. Porque na verdade, nenhum de nós haveremos de inquirir a ninguém algo tão abstrato que é o desaparecimento de um produto material. Físico. Vivo.
Sabemos, com envergonhada certeza que o alimento transforma-se em excremento e que lagartas tornam-se borboletas.
Também já dominamos a ridícula sabedoria de que o girino vira sapo.
No entanto, a mais sádica dúvida que existe para nós é sabermos por onde vai esta energia que mora – de graça – em nossa existência, se é que podemos continuar chamando-a de alma. Acontece o quê? Ela sai voando? É imortal? É?

Pessoalmente eu diria, e de forma triste, que o maior dos mistérios às vezes vem em minha vida para apenas motejar minha dor. Física e a não física. Completamente.
Eu frustro-me ao pensar sobre estas tarefas que não podemos cumprir. Esta missão de encontrarmos a resposta do que jamais quisemos perguntar.
Vivemos em eterna escarpa. Absolutamente sós. Sem sóis, sem nós.

Por mais que minhas elegias – pequenos poemas – que eu não quis escrever, muito menos pensar, incomodassem minha inteligência em Camões, Pessoa e Machado, ainda assim penso que divido com todos um certo sentimento solitário. Mesmo não tendo a genialidade dos helênicos, eu posso carpir cada momento meu, quando de fato choro por minha condição ínfima de gente que morre.

Ceifar minha garganta é comum porque conheço o sofrer e a dor sombria que me veste vez por outra. E ainda que fique nua temporariamente enquanto viva, eu desfaleço, supondo, antes de mais nada, que eu vim aqui sem nascer. Ou melhor dizendo, eu apareci e não sei como. Como também não arrisco dizer como desaparecerei.

Algumas faltas fazem diferença em nós. Sentimentos que não teremos mais. Coisas que não tocaremos. Gente que não veremos. Músicas que não tocam mais e esquecemos a letra… blogs onde não mais escreveremos.

A morte, que cresta minhas manhãs, que não me dá o benefício de ficar ao sol, esta mesma me mantém viva.
E pra que ouvir as cotovias e os acordes de Wagner, se sei que mais cedo ou mais tarde esquecerei de tudo, como um troço reciclável. Virarei papel? Nuvem… ou lembrança na cabeça de alguém?

É assim que me sinto com o desaparecimento de minhas palavras virtuais que se esconderam no Blog da Dai:).
Da mesma forma que os homens da hospedagem não sabem do meu retiro que chamei de blog, ninguém saberá ao certo o que é a morte.

Ou melhor, pequenas mortes como o meu blog, até dá pra saber.
Era apenas um blog. Um amontoado de palavras como este texto.
Mas o funeral queima em mim como fosse eu, Deus.

Onde foi parar o Blog da Dai :)?
Alguém tem uma idéia? 😦

The Last Temptation of Christ Porque o cinema é mentira


A última tentação de Cristo

Para a cor azul dos olhos do messias há várias teorias. Cientificamente Jesus Cristo seria moreno, cabelos pretos, olhos escuros. Porém os antigos hindus afirmam que um homem iluminado tem uma forte luz nos olhos que os clareia quando em êxtase. Nos evangelhos há descrições do filho de Deus com um intenso brilho nos olhos, ‘um brilho como os céus.’ Ok.

A partir do romance homônimo de Nikos Kazatzakis (1960) nasce o roteiro espetacular do autor e o guião Paul Schrader. E para completar esta obra prima, temos aí a direção do não menos genial Martin Scorcese neste filme de 1988. Proibido em vários países por ter sido condenado pela igreja católica, só veio a ser liberado no Chile, por exemplo, 15 anos depois, em 2003.

Entretanto, cinema é a capacidade de fazer mentira. O autor do livro apenas deu asas à sua imaginação, a partir das sabidas crises de Jesus Cristo. Em muitas passagens dos evangelhos vemos a descrição do apelo do homem ao Pai – “Afasta este cálice de mim…”

O autor viajou na possibilidade de Jesus ter aberto mão de sua missão e simplesmente ter desistido de ser o messias para viver tranqüila e normalmente como qualquer mortal.

O grande desfecho é que impressiona porque aí Cristo descobre, depois de casar-se com Maria Madalena e envelhecer, o messias descobre ter sido vítima de um ardil de Satanás.

É um belo filme que se aproveita de mentira para fazer o verdadeiro cinema contemporânio e reflexivo. Talvez a igreja tenha se assustado em função de o filme poder provocar dúvidas na cabeça do homem. Mas, assim como as ditaduras militares, as igrejas, muitas vezes tropeçam em sua ignorância diante da arte. Principalmente da sétima arte.

Tecnicamente é perfeito o filme com a direção de Scorcese (indicado ao Oscar) e um Jesus Cristo na pele do excelente Willem Dafoe. Harvey Keitel como Judas deixa a desejar, não entendo o porquê. Chegou mesmo a ser agraciado com o troféu Framboesa de Ouro pela pior atuação de um ator coadjuvante. Crises religiosas internas?
Porém, Harry Dean Stanton como apóstolo Paulo é divina (ops!).

A participação de David Bowie como Pilatos é um escândalo de boa.

A trilha sonora de Peter Gabriel é um espetáculo à parte com auxílio luxuoso de percussionistas brasileiros. Indicação ao Globo de Ouro. Aqui, assiste-se ao raro casamento bem sucedido de som e imagem.

Mas Bárbara Hersley como a ardente Maria Madalena rouba muitas cenas.

Que tal assistir de novo? Uma analogia perfeita de nossas dúvidas e fraquezas na pele do Homem. O Cristo redimindo nossa pequenêz. Perfeito. Em todos os sentidos.

Cenas de uma cidade perdida


foto de Helmut Newton

Uma mulher sai de casa entupida de tranqüilizantes e anticoncepcionais. Vira a esquina e vomita o excesso dos cigarros com traçado de pinga com mel. Mas a pinga é boa, mineira como Guimarães Rosa.
Senta-se no banco lá atrás do cinema e se acaba com Godard. Suspira e vai pra casa.
Lá, senta em seu bagunçado escritório e escreve poemas e aforismos loucos pelo excesso de amor não correspondido. Que não é correspondido porque ela não o quer.
É leviana e solitária. E muito linda.

O Último Rei da Escócia – ator mandou bem!




THE LAST KING OF SCOTLAND

Para quem viu, sabe que é uma boa produção. Melhor, é uma ótima produção, principalmente pela direção sensível e equilibrada de Kevin Mac’Donald, um bem reconhecido documentarista, diga-se de passagem. E quem ainda não viu, nunca é tarde. As locadoras ainda existem.
Trata-se de uma adaptação (legal, né?) do romance homônimo de Giles Foden. E botaram mesmo pra foder (não pude evitar, sou carioca).

O filme maravilhoso é narrado pelo ponto de vista do médico escocês Dr. Carrigan (David Ashton)), um idealista e jovem médico que vai para Uganda, em busca de esperanças. Entretanto é convencido pelo ditador Idi Amin (anos 70) a ficar ao lado dele, argumentando que, desta forma, estaria ele – o jovem médico – de fato, ajudando aquele país. Uganda.

Mas, infelizmente, há choques culturais e de poderes supremos. E assim, nesta película genial, podemos mergulhar num antigo pensar, ou seja, até hoje vemos e não vemos o poderio africano. Como também não sentimos a verdadeira fome daquele quase povo.

Eu indico este filme concorrente ao Oscar, e que elevou um dos meus atores favoritos ao merecidíssimo Globo de Ouro.

Este filme emocionou-me tanto que por hoje é só. Porque ainda faltou falar da trilha sonora e da fotografia.

Parabéns vai para Forest Whitaker!!

Fala você!

Foi-se embora foice

duas-rosas.jpg

Eu, embora estática

Estarei correndo dentro de mim

Pegando um ônibus

Enquanto seco a chuva

Que

Passou pelos meus braços

Escorregadia

Deixando

Mais que água triste

Um fogo a consumir

Uma ausência que faz

Companhia até no inferno.

Ele vai pra outro lugar

Talvez lá onde as estrelas

Existem  e os céus não caem

Onde não pensará em mim

E ele d’existirá na minha sombra

Enquanto eu asso ao sol do pecado

Suas brumas encobrirão meu

Olhar

Mas ao longe, no oceano

Eu sou náufraga recuperando o ar

Para amá-lo eternamente.