A menina e o lobo

Naquela rua as casas eram todas iguais. Mesma cor cinzenta de concreto gasto e umas pequenas árvores ressecadas à frente, no quintalzinho de terra batida.

Era um município perdido entre duas cidades, ao leste de um Estado que misturava culturas de vários continentes.

Ella era uma menina franzina, pernas longas, de pés e mãos grandes para sua altura. Os cabelos viviam desgrenhados em mal trançados rabos. Paradoxalmente possuía seios enormes para sua idade e compleição física. Eram de fato lindos seios. Usava sempre vestidos curtos, e quem olhasse mais detidamente para esta menina de dezesseis anos, veria um brilho angustiado de mulher que procura em cada canto um homem especial para amar.

Caçula de quatro irmãos homens, era difícil para ela desvencilhar-se dos argutos olhos impiedosos daqueles bichos selvagens.

Certo dia aparecera no bairro um misterioso homem só. Ele carregava uma espécie de mochila nas costas e usava barbas. Tinha um belo corpo, forte e espadaúdo. Lembrava um ator de cinema americano, daqueles de queixo largo e sorriso encantador. Quando o viu, Ella pensou que ele poderia muito bem ser um personagem daqueles antigos filmes de western. 

Teria uns  quarenta anos, se muito. Mas era de uma jovialidade excitante, pois para uma menina daquela idade, um homem maduro era um deus, uma fonte de prazer.

A menina suspirou enquanto se acariciava  nas águas do riacho que passava nos fundos de seu quintal. Imaginou-se nos braços do forasteiro e estremeceu, antegozando os momentos que certamente passaria com ele.

Daria um jeito de ludibriar os irmãos e entregaria-se para aquele lobo  bronzeado de viagens, com olhos de um verde folha seca que a deixara em estado lastimável de desejo incontido.

Nada que fazia tirava o estranho de sua mente. Derrubava pratos, falava sozinha, chegara mesmo a manchar as roupas do pai no tanque, o que irritara profundamente sua submissa mãe holandesa.

Numa noite, depois de passar o dia ouvindo cantos das cotovias e rabiscando elegias em seu quarto, Ella resolvera que procuraria o homem de queixo largo e faria com ele o mais sublime amor que a terra já presenciara.

 Usou seu melhor vestido de fustão e saiu pela porta dos fundos, escarnecendo dos irmãos que dormiam cansados de carpir suas vidas insignificantes.

Chegou ao pequeno porão onde o forasteiro se abrigara e entrou, determinada a ser possuída naquela noite de elipse.

Ele abriu os olhos de súbito e entendeu o que se passava alí. Meninas eram mesmo fogosas naquela idade, principalmente sendo camponesas, inocentes. Ele excitou-se e fez a vontade da carne.

Mas o que o homem não sabia, era que a camponesa de seios fartos fora seguida pelo irmão mais velho, que de posse de uma garrucha vingou a virgindade perdida da pobre e inocente irmã.

Porém, numa escura noite semanas depois do acontecido, a menina-mulher, carregando em seu ventre o fruto do pecado, deixou a cidade para trás, não sem antes vingar seu amor.

E todos comentam até hoje que seu irmão mais velho, bêbado, havia, por engano,  comido o veneno posto para os ratos do quintal.

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