Os antigos já veneravam o equilíbrio salutar de corpo e alma. Horas e horas meditando em busca do Nirvana, da paz celestial ou quem sabe, da unificação com o Pai.

Acontece que Tião Sem Fé era um cara taciturno e obtuso. Em sua ignorância afirmava, sem muita explicação, aos quatro ventos, que Deus não existia. Tá. Muitos são os ateus, os incrédulos. Mas Tião também não acreditava no diabo, em mulher, amizade, oportunidade, macumba. Nem em mentira ele conseguia crer porque, para contrariar dizia a todos que o tal deslavado mentiroso poderia estar falando a verdade, e aí?

Assim, Sem Fé tornou-se um excluído social. Andava sozinho e morava numa casinha bem distante. Esnobava os outros por ter saúde de ferro. Robusto, em quarenta anos de vida jamais ficara doente.

Até que certa vez caiu de cama, com mal desconhecido até pelo médico da cidade. Curandeiros, padres e pastores imploravam visita mas saíam frustrados. Nada. Sem Fé, cada vez mais verde e magro fora então desenganado por todos. O povo já fazia fila para ver pela janela, o homem que secava, minguava por ter sido um herege.

Porém, numa ensolarada manhã de setembro, flores caíram do carramanchão na janela de Tião. Sobrevivera ao inverno mas agonizava naquela cama de faquir.

Mas no segundo dia da estação florida, eis que Tião Sem Fé levantou-se da cama ao ouvir batidas na porta. Ele mesmo surpreso, pois já não andava fazia tempo. O lugar era um misto de sepulcro, quarto e banheiro.

Uma mulher jovem e robusta. Não era bonita mas Sem Fé não deixara de observar-lhe as largas ancas. Ela trazia amor, amizade e uma carta de emprego na cidade vizinha. Toda a vila correra para conhecer a tal salvadora. Uns até beijavam-lhe as mãos. Uma santa, afirmava o povo da vila.

Já anunciavam até o casamento de Tião que engordava a olhos vistos nas cuidadosas mãos da mulher.

Entretanto, numa tarde, já início de verão, a amante aparecera triste e acabrunhada no armazém dos amigos. Todos correram em sua direção para saber qual motivo de tamanha tristeza. Tião adoecera de novo? Recaída? Morreu?!

E negando todas as perguntas, a robusta mulher contou que ao restabelecer-se totalmente, o ingrato companheiro de rara virilidade voltara a ser o Tião Sem Fé, afirmando não acreditar que ficara doente e fora salvo. Louco, a expulsara da casa, dizendo que tudo não passara de um pesadelo. Afinal, Deus não existia de jeito nenhum!

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