Estranhos Édipos

Onde estarei eu neste momento:

na modernidade de meus dias

ou vagando como Medéia

a vingar-me de um amor

destroçado pelo

mal traçado destino?

 

E tua mãe estranhamente amante

de teu corpo fino, sutilezas

de quem não pode amar

da forma que arrebata a vida

e a morte…

 

Causa úlcera saber

de tanta má virilidade

que entrega o homem

a um deus pagão

dragão sem estrelas.

 

Sorte tem a tua mãe

que não alcança

o teu desejo, a ironia

dos teus inválidos beijos.

 

Onde já se viu marcar

como cachorro

um território árido

que é meu coração

insano músculo

a desdenhar a tua tão fraca carne.

 

É possível que esqueças

esta mulher…

mas qual delas:

 

A tua amante que te lambe

em desespero cruel

ou a desgraçada mãe

que não pode copular

com o louco filho

 

Que por cima

 ainda é herege

e carrega nas mãos

a sórdida marca

de um amor desfeito,

 

Que usa na mulher

a carranca como maquilagem

que nos lábios resseca

em envenenada saliva

 

A má palavra em maldição

a inveja, a ira e o ódio

em direção ao fim

que outra anciã fanática – tua mãe

em adubo plantou

 

Em nosso promíscuo amor

amor de fel e ventania

entre louvores e gemidos

te fez render ao cúmulo

da antiga crença…

 

E castigado voltas

aos braços do demônio de seios

que embalou-te

nas redes do teu deus

que não vive

entre nós amantes…

 

Toma então, maluca mulher

toma teu filho doente de volta

e em oferenda entrega-o

à mais virgem das mortais.

 

Anuncia sua volta

e em convites dourados

a todos conclame!

 

E que a esfinge seja meu rosto

estampado em tinta borrada

eu, a prova do guerreiro

a caça do herói teu filho,

 

Eu, abatida como belzebu

por  tuas maternas lanças!

 

Pois que sou eu mesma em carne

o testemunho

de toda dor sentida

nas ruínas

do meu reino.

 

 

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Acidente pessoal

Eles estavam no bar desde as dez horas da manhã. Já passava das três. Entre cervejas e cachacinhas entremeadas com carne seca e jilós, os dois amigos iam discutindo eufóricos em maiêuticas alcoólicas.

O mais velho, já com trinta, só tinha uma perna – acidente de moto -, e o mais jovem, vinte e quatro, era adepto da maconha e da vagabundagem contemplativa.

Pernalta solta um contido arroto:

_ Caminhar tem a ver com o espírito. Não existe correr. O tombo pode machucar.

Brilho responde, olhando a vida através da bunda da garçonete:

_ Tu fala isso porque perdeu a perna, morô parceiro?

O outro ri com a boca enfarofada:

_ Por que todo maconheiro fala sem pensar, meu irmão? To falando sério, porra. É filosofia, caralho. Não lê, dá nisso…

Brilho arregala os olhos preguiçosos e se ofende:

_ Quem não gosta de ser discriminado não deve discriminar. Isso é filosofia, otário.

Pernalta:

_ Eu ter perdido a perna não faz de mim um crminoso, certo? Mas, na moral, encher a cabeça de fumaça e ficar de bobeira enchendo a cara é foda. E ainda por cima eu pagando! Com meu dinheiro suado…

Brilho:

_ Ha, ha, ha! Como, dinheiro suado? Essa grana não é do governo? Não foi por causa do acidente, parceirinho?

Pernalta se remexe na cadeira. Toma mais um copo da cerveja e responde magoado:

_ Quer dizer que perder minha perna não custou nada, né vacilão? Eu me joguei da moto só pra abocanhar o seguro? E não é do governo porra nenhuma! É particular. Do Bradesco.

O outro, aplicando colírio nos olhos ri mais ainda:

_ Já reparou que depois que você recebeu essa porra de seguro, passou a se sentir cliente vip do banco? É Bradesco no céu e Deus na terra!

_ Hei! Não seria o contrário? Deus no céu…

É interrompido:

_ Meu irmão, foda-se! Só sei que acho estranho você andar (he, he), foi mal, você ficar se sentindo porque pegou uma grana boa de seguro. Pô, tu tá aleijado, cara!

Pernalta abre a carteira e chama a garçonete:

_ To sabendo que hoje é teu aniversário. Toma aqui esse troco. Compra um presente pra você! – olha para o amigo – Essa bunda é minha, he, he.

Brilho, chateado:

_ Ainda acho que não vale a pena se foder todo pra ter dinheiro. Esse dinheiro aí tem sangue!

O amigo acidentado faz que vai levantar mas desiste irritado:

_ Agora tu exagerou, meu irmão! Vais rachar a conta?!

_ Só se eu arrancar o dedo. Como os caras da yakuza.

_ É uma piada, chincheiro?

_ Não. Uma constatação. To duro.

_ Valeu… Eu pago.

_ Desculpa aí.

_ Tranqüilo, parceiro.

_ Me faz um vale? Minha erva acabou…

Silêncio. Ambos meditam a respeito de dinheiro, estética, morte e mulheres.

Em uníssono:

_ Desce a saideira!