Amor, amor, quem explicará?

Era só chegar em casa e dizer “acabou, não quero mais”, porém ele precisava dela, da força, da grana, e até do sexo. A maré tava ruim, o mar sem peixe.

Entrou, pé-ante-pé. Ela já deveria estar dormindo. Foi à cozinha, tirou do freezer a lasanha de lagosta. Que louca e sofisticada. Até quando cozinhava ovos, tinha lá seu requinte. Tudo bem, ovos fritos com ameixa parecia mais coisa de quem fuma maconha e acha tudo “gostosão”.

Mas tudo que ela fazia era bom, gostoso. Até xingar , com aquele biquinho roxo de batom: “Ora, vá se foder!”. Ele ria e achava puro charme. Mesmo de pijama, cabelos alvoroçados, sem maquiagem, ela ficava atraente, o cheiro, restinho de perfume no pescoço, a minúscula calcinha por baixo da roupa.

Jogou a lasanha no microondas e sentiu uma pena danada em ter que deixá-la. Adorava suas poesias, suas surpresas. Quando trocava de carro, de guarda-roupa, a cor da parede, os móveis, os seios. Estava sempre pronta pro amor, pra uma boa cama.

Serviu mais suco de maracujá com acerola, ela pensava em tudo, o suco perfeito, embora ele preferisse massa com vinho, em dias ímpares ela não bebia, eram jantares ‘leves’, que mulher gostosa, talentosa e carinhosa.

Terminou o jantar, ela dormia como uma rainha, um sorrisinho nos lábios cor de boca – batom de dormir. Passou direto pelo quarto, escovou os dentes, se olhando no espelho “cara, tu é um babaca!”

Entrou em silêncio no quarto, no closed e pegou umas roupas. Depois de um ano de amor com uma mulher daquelas, virtuosa, atenciosa, gostosa, saborosa e inteligente…

Depositou um beijo leve naquela testa linda com cabelos espalhados, perfumados, pura seda.

Caminhou sem olhar para trás. Chorava, estava sofrendo. Iria mesmo deixá-la, que pena.

Ah, se ele não fosse gay.

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8 comentários em “Amor, amor, quem explicará?

  1. Muito bacana! Ele não precisava ser gay, porque o amor não está em nenhuma das qualidades e habilidades, né? É outra forma de passar uma rasteira na expectativa dos leitores…

    Gostei! Parabéns! Crônicas… Um livro de crônicas! Encare a possibilidade!

  2. uhu..
    Excelente desfecho.
    Nos faz ter um pouco de vontade de bater nesse cara por sair assim na surdina em vez de se tornar o “amigo gay” e continuar ao lado de uma pessoa inteligente, feliz etc, etc,
    mas como mesmo saber o que é possível?
    Na vida da gente mesmo a distância não é a melhor medida de segurnaça? O menor sofrimento?
    Ficer longe’e sempre mais fácil.

    É…
    às vezes as pessoas acabam vivendo um ano juntas sem ralmente se encontrar.

  3. Nada como a opinião de uma psicóloga 😉
    Valeu, minha amiga. Tava com saudade de você aqui no Dai. Seu blog tá uma coisa, os textos excelentes.

    Beijo, minha linda! 🙂

  4. Tão bom esse conto, Dai. Algumas escolhas são bastante difíceis, mas em algum momento é preciso deixar de se enganar, tomar uma decisão que não seja apenas cômoda. Não faz sentido voltar a considerar a homosexualidade uma doença, algo a ser tratado, expurgado da sociedade. Foi uma conquista difícil dar às pessoas o direito de exercer a sexualidade de acordo com o que desejam, vencendo hipocrisias e discriminações, que só levavam a uma situação de segredo, de fingimento, para evitar ser excluído. Porém, se alguém achar que o que sente é um problema, que faz mal a si próprio, apesar da sociedade aceitar, aí sim pode ser tratado, esse sentimento e mal estar perante a percepção de si como homosexual, não a homosexualidade.
    Melhoras pra você, minha amiga. Beijos

  5. Dabal e Paulinho (oi amor!!!)

    Estou acompanhando alguns artigos sobre gays na rede. Aqui no RJ um famigerado e evangélico deputado, Ermínio Fonseca está para ver aprovada uma lei sua que institui o gay como ‘doente’, determinando que o Estado se responsabilize pelos doentes, custeando o tratamento de recuperação aos que quiserem se tratar. Ele, o inacreditável político cristão ainda sustenta teses Darwinianas, o que eleva o gay a uma ‘raça’.
    Enquanto isso, cientistas suecos dizem ter descoberto que o homossexualismo é biológico, que em estudos de cérebro, descobriram que o cérebro do gay é semelhante ao da mulher hetero, o da lésbica, semelhante ao do homem hetero.
    No fundo é tudo preconceito. Se vocês quiserem dar uma conferida no blog Ateu graças a Deus, do B. Júnior, será um prazer apresentá-lo a vocês.

    http://ateu.wordpress.com/

    E valeu, meus amores pelas opiniões ao meu continho hehe.

    (escrevi tudo numa única janela pq a mão dói com o frio ‘absurdo’ aqui no Rio)

    Muitos beijos, meus queridos!!!

  6. Dai, my love!
    Ela é simplesmente feliz só. Quem é tudo que ele disse, é feliz por si só, pela sua própria natureza, tanto é que levou um ano para que um “gay” tomasse coragem de deixar mulher tão feliz… Ele sai perdendo!
    Beijos.

  7. Um final surpreendente. Dela, ficou a sensação de que tudo se fez, nada mais é possível. O amor se esvaiu por aquele buraquinho inevitável que se abre numa ruptura de situações, que foram firmes.
    Dele, ficou a sensação do paulatino desmonte do amor em outras sensações com outros nomes, quer um exemplo : O egoísmo de pensar em si, em deixar a vida boa, a lasanha, os sucos e a alegria; precisou do cimento da dó e da pá do gay para construir o abandono. Bjs.

Sua opinião me interessa ;)

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