Em cima da hora

Claudinha acordou com a certeza de que seria um dia diferente. Sua vida mudaria.

Morava sozinha. Tudo em volta era quieto demais. Arrumadinho demais, cada objeto em seu lugar:  livros, CDs, revistas de moda e decoração. Tudo, tudo organizado, cheiroso e limpo. Mas era solitária. Não agüentava mais.

Correu para o banheiro, entrou com tudo em baixo do chuveiro. Este seria o melhor banho de todos. Ele saberia hoje de sua paixão. Arriscaria, valeria a pena, claro. Ela era solteira. Ele, bem, não via aliança em seu dedo. Solteiro sim!

Lavou os cabelos com carinho. Óleos perfumados, cremes e cremes. Foi para seu quarto e usou o secador. Escolheu um verstido sexy e se maquiou.

Jogou documentos e dinheiro dentro da bolsa. As contas! Claro, as contas para pagar, o banco deveria estar vazio. Jamais as atrasava.

O telefone toca.

_ Alô! É a Claudinha sim… o quê?! Acidente?!

Desligou o telefone e correu para o hospital. Que horas da amiga ser atropelada! Recriminou a si mesma. Como se houvesse hora para isso. Um caminhão fechou o carro dela. Pobre Glória. Mas ficou estressada, tinha compromisso, o banco… tudo!

Chegou arfando no hospital – que taxi lento! Procurou o médico. Nada grave, só algumas luxações. Bem, então não era tão ruim. A família já estava chegando. A amiga ficaria bem. Voltaria depois… depois de resolver sua vida e sua paixão.

Não podia se atrasar, aquele era o dia de sua felicidade. Diria a ele que estava louquinha, muito apaixonada. Que horas são? Nossa, o banco fechava às quatro. Tinha menos de uma hora.

Correu para rua, quase ‘atropelou’ o entregador de flores. Que flores lindas. Poderia levar flores para ele. Não, melhor era ser discreta.

Atravessou a rua em alta velocidade, o sinal iria abrir. Táxi! Táxi!

Entrou e mandou o motorista ‘voar’ para o banco. Oh! não! O mesmo taxi, a tartaruga de novo. Olhou em volta e nada, nenhum outro disponível. ‘Vai moço, mete o pé!’

Mas o que é isso aí na frente? Não! É a polícia, assalto a um taxi! Merda!

Os policiais vêm em sua direção. Ah! Tudo menos isso. Pedem que ela saia. ‘Não viu nada, moça?’ ‘Tem certeza?’

Não! Não viu nada, nadinha, os caras passaram voando por eles, até rasparam a tinta no carro… ‘Posso ir?’ ‘Tenho que ir ao banco!’

Foi liberada. Meu Deus, quinze para as quatro! Corre moço, eu pago o dobro!

Chegou faltando dois minutos para fecharem o banco. Empurrou os transeuntes e rolou na roleta como louca. ‘Não, seu guarda! Tenho dois minutos!’

Correu para o caixa. Seu coração estava em festa. Não havia ninguém no guichê. Mas agora tudo bem. Ela esperaria tranqüila.

Tirou as contas da bolsa. Quando levantou a cabeça, teve um sobressalto. Quem era aquela moça pálida?

_ O rapaz que atende neste guichê… Onde está? – olhando para todos os caixas.

A moça, simpaticamente fria:

_ Zé Roberto, aquele moreno…

_ Sim, sim!… – quase urinando de nervoso.

A caixa, estendendo a mão para as contas:

_ Zé Roberto foi transferido ontem… Foi para Brasília, onde está a família.

Claudinha pagou as contas, saiu do banco triste e frustrada. Depois de meses, isso…

Como autômato fez sinal para o táxi.  E nem notou quem era o motorista.

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4 comentários em “Em cima da hora

  1. Lembrou-me as palavras de um amigo comum: William Blake.
    “As percepções do Homem não estão limitadas aos órgãos da percepção, ele apreende mais do que os sentidos (ainda que muito agudos) são capazes de descobrir”.

Sua opinião me interessa ;)

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