Segunda-feira – Contos cariocas

Acordou com sono e vontade de morrer. Olhou os filhos pequenos e a mulher. Dormiam no mesmo cômodo.

A caminha-sofá, aberta com os meninos a ressonar.

A mulher se mexeu e o olhou nos olhos. A pergunta era implícita. Será que consegue emprego hoje? A comida acabou. Já era.

Ele olha as pernas dela timidamente, sabendo que não tem direito ao amor. Ela está chateada e preocupada.

O mais novo tosse e ele se levanta. Agora não tem mesmo chance. A agonia já passava de um mês. E como desejava a jovem mulher. Ela era robusta, pernas grossas, a bunda mais bonita da rua, seu orgulho.

Pra que foi ter filhos? Agora ficava doido, sem amor da sua dançarina de pagode.

Abriu a tampa do vaso e despejou a frustração e o ressentimento pelos filhos.

Quando faziam amor a vida era mais alegre, ele trabalhava com gosto na obra, no que quer que fosse. Tinha sua recompensa, os beijos dela, o calor daquele corpo moreno jambo.

Ela era muito carinhosa, fazia coisas com a boca no corpo dele que qualquer homem iria para o trabalho saltando de felicidade.

Mas sem emprego, não tinha amor, não recebia os beijos, carinho nenhum.

Antes de sair de casa, olhou para ela encostada no umbral da porta. Seu coração doeu e seu órgão genital pulsou mais uma vez. Sabia que nem um beijo de boa sorte receberia. Afinal, ela já sabia que ele era um cara sem sorte.

Bateu a porta, caminhou dentro da madrugada. Na rua só ele e o jornaleiro.

Entrou no trem. Enquanto este ia enchendo de estação em estação, ele lembrou do corpo dela quentinho, e os beijos, sempre lembrava dos beijos. Era enfeitiçado por eles.

Chegou na entrevista. Uma grande construção.

_ Nome

_ Adalberto Silva

_ Cargo pretendido

_ Qualquer coisa. Aceito qualquer coisa. Faço de tudo…

E só pensava nela. Na alegria que seria aquela noite quando dissesse que conseguira o emprego.

Passou na Birosca do João Sem Perna, pagou o que devia e reabriu o crédito. Comprou cervejas, lingüiça, pães, e doces para as crianças.

Apressou os passos pensando naqueles beijos.

Ao entrar em casa, jogou as compras na mesa. Ela estava no banho e as crianças na escola.

Entrou no box com roupa e tudo.

Ela sorriu adivinhando. Estava empregado!

Beijou-o demoradamente pensando no mercado e nas coisas que iria comprar.

E ele subiu aos céus, pensando que por aqueles beijos da morena seria capaz de matar.

Gozou feliz, imaginando se o cara assaltado lembraria do rosto dele…

Anúncios

Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
Esse post foi publicado em Contos. Bookmark o link permanente.

12 respostas para Segunda-feira – Contos cariocas

  1. Daisy disse:

    Valeu Marcela. Gostei do trocadilho ‘ser e estar feliz, nem que seja por um momento de alegria’. Bacana. 😉
    Volte sempre,
    Beijos da Dai 🙂

  2. Marcela disse:

    Emocionante o cotidiano narrado com essa singelesa propria do ser humano. Apenas ser feliz estar feliz nem que seja por um momento de alegria.

  3. Daisy disse:

    Ah! Luciano… você é mesmo uma graça.
    Obrigada pelos votos e por sua visita que sempre me traz alegria. Eu adoro o que você escreve. Eu te adoro, cara.
    Beijos. 🙂

  4. L.S. Alves disse:

    Muito bom. Espero ver o seu trabalho filmado algum dia.
    Beijos moça.

  5. Daisy disse:

    Agora sim… seu blog vale muito a pena ser divulgado. Poucos escrevem tão bem na rede. Eu me deleito.

  6. Lucky Luciano disse:

    Replay para o link…
    Que conto legal, a pobreza clássica das amistosas favelas dos anos 50…he,he,he…A foto tb é demais…
    Bjs!!

  7. Daisy disse:

    … E o Rio continua lindo 🙂
    Beijo Lucky.

  8. Lucky Luciano disse:

    Que conto legal, a pobreza clássica das amistosas favelas dos anos 50…he,he,he…A foto tb é demais…

  9. Djabal disse:

    Não. Não é a única. É uma delas apenas. Misteriosa e Gozosa. Grande semana, menina. Bjs.

  10. Dai :) disse:

    Quem sabe não seja a única…
    Em nome do amor, atos, dos mais delicados aos mais bárbaros são cometidos. O estímulo é real, mas e o amor, será mesmo uma invenção nossa estimulada por uma solidão cativa na alma?
    De qualquer forma eu acho que tudo gira em torno da paixão. Seja por que for.
    Bom dia! Boa semana, querido.

  11. Djabal disse:

    “A vida é um mistério, dizia o velho Gould, citando um outro pintor holandês, e o amor é o mistério que há dentro do mistério.” Tirei essa frase do Livro dos Peixes do australiano Richard Flanagan. Uma história de um prisioneiro na Tasmânia que morreu numa tentativa de fuga em 1831. E é sobre o amor também. Olha que coisa maluca e inexplicável essa minha analogia. Mas tenho certeza que é a minha realidade. Beijos.

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s