Fragmentos de um diário perdido na memória prostituta de Wandda

Foto de Tiago Ribeiros

 Por que seria eu feliz? Como sabe se sou mesmo feliz? Só porque canto todo o tempo Lupicínio, porque borro minha boca de vermelho e beijo o rosto de todos, vou à igreja nos batizados e compro presentes pros amigos?

Acha mesmo que sou feliz, do jeito que ando por aí a carregar pesos de chumbo de tanto ouvir problemas, usar minha boca… E desde quando cantar Lupicínio é ser feliz, hein…

… Se nem uma marchinha de carnaval eu canto até o fim! Queria ser Ângela Maria, mas a rodoviária me levou por outros caminhos e aqui estou, sequinha de tanto trepar, aturar homens insensíveis que nem conhecem Lupicínio Rodrigues. Eu hein!

Será que sou mesmo feliz, só porque alimento os pombos, os pobres e os gatos do parque? Porque ajudo com minhas palavras toscas de pouco estudo as pessoas que choram em meu ombro…

Não vejo o porquê de me achares tão feliz assim (?) Tudo bem, eu sofri demais, de onde vim tinha um pai tão bruto, mãe ausente. Me apaixonei pelo José que nada quis de mim, a não ser meu corpo, minha amiguinha aqui,  que mora entre minhas pernas. Ah! O josé que me iludiu, levando minha pureza e minha fé!…

Não creio não, que eu seja feliz… Acha que ter minha casinha, minhas plantas, meus canários de estimação e toda a coleção de Lupicínio, motivo para ser tão feliz assim?

Não, moça, eu sofri pra caramba, eu nem sabia beijar, José quem me ensinou e aqui estou eu: ninguém faz como eu um sexo oral tão profissional. Já ganhei até prêmio… Mas isso me faz mesmo feliz?

Sei não… pode ser, pode ser sim! Afinal, quem desmente que tantos homens me amaram? Quantos, bem jovens não sonham com meu corpão quentinho sobre eles? Ah! Eles me amam sim…

É amor diferente, sem compromisso, sem casar… mas é amor! Eles me amam pra cacete, isso ninguém pode negar, pode não.

Sou feliz sim, decidi, porque vejo o sol nascer nos braços de um varão, e namoro a lua de minha janela, ouvindo Lupicício.

Tenho minha família, as plantinhas, gatos e gatos… E meus canários? Lindos como os passarinhos dos meus homens. Eles me amam, eu sou feliz, sou sim! Mesmo ouvindo meu Lupe o tempo todo!…

 

 (Olha para os gatos no parque e canta Lupicío Rodrigues)

Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito                       
inda mora e é por isso que eu gosto
lá de fora, onde sei que a falsidade
não vigora
A minha casa fica lá detrás do mundo
onde eu vou em um segundo
quando começo a cantar
E o pensamento parece uma coisa à toa
Mas como é que a gente voa
quando começo a pensar                                    

10 comentários em “Fragmentos de um diário perdido na memória prostituta de Wandda

  1. Muito bom… mas quantos conseguem? Eu tento, mas às vezes me pego trapaceando. Mas é preciso estar atento.
    Beijos querido.

  2. Ser feliz é viver sem expectativas e sem apego. Ser feliz não é seguir religião, partido, hierarquia ou comando. É viver sem predar, pedrar, extorquir, abater, chutar e bater. Viver trocando experiências, conhecimentos, sentimentos, associando coisas novas, dar a sua experiência a quem pedir, dar o excesso. Vale para o amor. Não vale para egoísmo. Não aceitaremos troca. Beijos, menina.

  3. Oi Malzinho hehehe…
    Tem tudo a ver, cara. É preciso não criar perspectivas ilusórias. Assim, o que acontecer de bom é lucro. No caso da personagem, ela ter sua casa, animais, plantas e companhia de homens, está de bom tamanho, a julgar pela sua origem e seu passado.
    Você é um pensador e sabe que eu sei disso… e te adoro, meu querido.
    Beijão! 🙂

  4. Luciano,
    Eu também acho que sim. Felicidade é ponto de vista, estado de espírito. Tem gente que fica feliz em ir a velórios.
    Beijo lindinho. 🙂

  5. se vc vai sair e pensa como um otimista “o trânsito vai estar bom” e ele não está vc se decepciona, se ele estiver bom vc fica feliz… mas se vc sai de casa pensando “o trânsito vai estar uma merda” e ele está vc não se decepciona e se ele estiver bom vc fica feliz…

    não sei o q tem a ver com teu texto, mas deu vontad de escrever isso… rsrs

    bjos minha querida

  6. “…Mas ela fica feliz com tudo, pode não ser homem a razão da alegria que tem demonstrado.”

    Este trecho do teu belíssimo post, reconhece a Wandda. Foi pura sintonia.
    Cris, você arrasa porque tem equilíbrio e sensibilidade de uma verdadeira escritora.
    Eu tenho orgulho de tua presença no blog.
    Beijo, minha amiga!

  7. O que é felicidade? A que se vive ou a que se imagina? E por que é preciso ostentar alegrias, mesmo quando se está triste? A quem interessa se somos ou não felizes? Esse conto questionador põe abaixo alguns princípios padronizados a respeito da vida. Ser feliz não será algo muito subjetivo, a ponto de pensarem em alguém que se sente triste como sendo alegre e em alguém que se sente alegre como sendo triste?
    Você sempre arrasa. Beijos

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