Sacanagem

Eu, de forma respeitosa, gostaria de saber a razão que nos leva a respeitar uma sociedade, onde cães fornicam em todas as esquinas. Pombos amam nas praças das maiores cidades; e todas as espécies sentem um certo prazer no encontro de corpos.

Não que eu esteja vivendo uma situação ídem. Isso não. Porque eu, você, todos nós, amamos e desamamos, num estalar de dedos. Também não quero fazer deste um post de reflexão. Não… não estou pensando em nada, nada além de mim e você.

Você, cavalheiro. Você, bonitão. Você, que fica neste lindo escritório, resenhando os resultados destas ridículas eleições brasileiras.

Eu, um sacro andarilho, por acaso, passo por uma cidade onde vejo todo um povo subjugado aos pés de homens brancos, com carros que até mesmo eu, confesso, senti inveja.

Um povo alegre, levantando saias e bandeiras, dívidas e saideiras. Eu vejo, cara-a-cara, a forma como o povo elege um mito.

Minto. Na verdade, eu até acho que essa estória de povo bobo é bobeira minha. Ninguém é bobo! Nada é por acaso.

Cada reino com sua sorte. Sorte minha observar a carreata dos mortos. Viva o rei!

Viva o Brasil!

Ainda é este o nome?…

Anúncios

Homofobia

Era um longo quintal. Um quintal familiar. Cada casa com um filho, cada filho com sua esposa. E cada esposa  com seus rebentos. Um quintal alegre, muito alegre.

Ele era o filho adotivo. Chegara naquela família por acaso, ainda bebê. Foi crescendo e observando todos os membros que moravam naquele quintal. Sentia-se realmente um ente querido naquele conjunto de lares. Visitava todas as casas, brincava com os netos da matriarca.

Seria uma vida prazerosa, se não fosse as visitas do filho do meio. Este ele nunca entendeu. A antipatia sempre fora recíproca.

Na casa do filho do meio, as coisas eram diferentes. Não existia a harmonia familiar que a matriarca tanto zelava.

Já rapazes, o antagonismo era realmente preocupante. Ele sabia que era adotado, e que não poderia tomar partido daquela situação. O filho do meio era gay. Os visitantes eram gays. A casa do meio era gay! Ele, simplesmente não aceitava isso.

Não entendia como a mãe, a velha matriarca, aceitava aquela situação. Dizia que todos tinham direito à escolha. Mas ele não entendia. E jamais entenderia.

Quando adolescente, olhava as meninas passando na calçada. Seu coração acelerava. Não havia nada mais excitante que o sexo oposto.

A matriarca era cristã, tão santa, mas aceitava aquilo. Na casa do meio morava a perdição. Viado que não acabava mais. Uns de vestido, outros com seios, e sempre falavam com a língua entre os dentes. Era o fim. Gente assim deveria ser atropelada nas estradas.

A situação chegara no limite. Ele, rapaz forte, de baixa estatura, era assumidamente homofóbico.

Para desgosto da mãe, a doce matriarca, ele passou a agredir o irmão de criação, e seus visitantes. E como fera, certa vez chegou mesmo a morder um viado.

A mãe, magoada com a discórdia, ficara do lado do filho biológico. Aquele filho ingrato que se travestia de mulher.

Agora, ele não só sentia-se solitário, como era desprezado pela amada matriarca daquele quintal.

Hoje, vivem civilizadamente, embora ele ainda tenha ímpetos de ‘voar’ nas bichas loucas.

O coração da matriarca ficou mais duro para ele, e ele sabia que não mais a olharia como mãe. Estava destruído seu coração.

Absurdo, mãe e filho que não se entendem mais. A matriarca, sua mãe adotiva, mal olhava para ele. Mal se preocupava se havia comido ou não.

 Hoje ele não passa  de um cão achado na rua. E, amarrado em correntes naquele quintal, vive  preso.

E preso, não correm mais risco, os da casa do meio, de serem atacados pelo cão.

Batendo asas

 

Sei quando asas batem em vão

Quando

As pernas quebradas do andarilho

Derrubam a vontade de vencer.

 

São coisas da vida, as mesmas de sempre.

Águas passadas, presentes trovoadas.

 

Não pode ser possível ser contente, atraente e só.

 

A solidão derruba mais um copo,

Uma mesma coisa é ver o barco indo

Na direção acostumada.

 

Minha busca já acabou, só brinco

Como brincava de roda

Dando voltas ao redor de mim.

 

É como estar sozinha e cercada de vozes

As vozes roucas, alegres, neuróticas

As vozes tristes, as vozes minhas.

 

Melhor remar de novo

A corredeira é certa pro náufrago.

 

Se nada tem a perder, perde-se a razão.

 

E, remando no lago escuro

Descubro que há terra à vista,

Longe dos olhos que perseguem

A alma do marujo…

 

Melhor calar as vozes

Enfrentar o inferno.

 

Faz companhia, solidão

Dançemos por toda a noite

 

E sim, poderemos gritar à vontade.

Ninguém nos ouvirá mesmo.

Nomes fatais

Herbert não confiava em ninguém. Era um homem amargurado e triste. Todos que se aproximavam dele, sentiam certo mal estar. Dificilmente sorria. Não tinha amigos.

Baby fora a mulher que o levara ao inferno. Ela, a maravilha que Herbert alcunhara como sendo a nona. A única. Baby, o anjo que salvaria a fé dele, traria sua felicidade e salvação.

Herbert fora uma criança, dessas cheias de motivos para nem virarem adultos. Pai ausente, mãe perdida, pai alcoólatra. Mãe puta.

Na infância, viu irmão caçula cair num poço e toda sua solidão se transformara em ódio do mundo. Das pessoas.

Cresceu por crescer, andando em lares adotivos e pocilgas de estrada, na juventude. As mulheres não passavam de distração, brincadeiras sexuais. Cada uma delas representava a desgraça de sua vida.

Mas quando aparecera Baby, a Baby linda, repleta de amor, plena de paixão por Herbert ele descobriu a vida, a força do verdadeiro amor. A Baby!…

Comprou as alianças e beijou sua deusa demoradamente, antes de irem para a cama comemorar. Que noite quente de amor, quanta felicidade. Herbert estava finalmente feliz.

Entretanto, Baby possuía um passado. Baby fora casada. Muitos anos, séculos, na visão de Herbert. Em cada frase pronunciada por Baby, lá vinha inserido o nome do outro. “Costume” argumentava a moça. Mas Herbert, sempre colérico de ciúmes, ia ficando cada vez mais descrente daquele amor. “Até na cama chamar seu nome?!”  E Baby sussurrava: “Costume…”

Herbert reuniu toda sua coragem e mandou Baby embora. Que ela procurasse seu passado de dor, ele só queria fazê-la feliz. Não teria a grosseria daquele homem do passado, não seria o homem que tanto magoara Baby. Mas ela não parecia entender. E ele não estaria disposto a ceder. Herbert era mesmo um descrente. Baby não seria fiel, ele pensou, chorando na despedida. Ela não seria fiel.

Anos se passaram. Herbert se tranformara no pior dos descrentes. Não tivera mais mulher. Nem para brincar de sexo.

Mas certo dia, entre uma cidade e outra, ele teve a maior experiência de sua vida.

Ao sentar-se em mesinha de restaurante, desses de estrada, ele viu Baby! A sua Baby. A bela e cruel Baby!…

Estava acompanhada de um cavalheiro. Ele ficou encolhido, olhando para a janela, temendo que ela o reconhecesse.

Em dado momento, a linda moça levantou-se para ir ao banheiro. Herbert disfarçou e reparou em como ela continuava linda! A pele brilhava, as ancas ainda rebolavam daquela forma enlouquecedora.

Avaliou o homem que ficara à mesa. Seria um novo amor?… O antigo, talvez?

“…Fósforo?…” Hein?!

Herbert saiu de seus devaneios e esticou a mão para o companheiro de Baby acender seu cigarro. Homem com jeito rude, mas Herbert não pode deixar de notar uma certa tristeza no olhar do cavalheiro.

Este, calmamente soltando baforada, olhou diretamente nos olhos de Herbert:

_ Companheiro, mulher nasceu pra pisotear o coração do homem. Esta morena que está comigo, é a razão da minha vida. Eu a conheci há três anos. Sou louco por ela, mas ela não me ama. Em cada frase que pronuncia…

O homem abaixou a cabeça, mais uma baforada.

_… ela fala o nome do único homem que amou.

Olha nos olhos do ouvinte:

_ Herbert. Sempre o odiável Herbert…

Nos bastidores…

Esta é indecente porque o sujeito falava de todas as mulheres com quem saía.

Era um desses caras bobos que se acham o talento cômico em pessoa.

Toda vez que estava com uma mulher, fazia piadinhas sobre os peitos – se grandes, ‘que melões’, quando pequenos ‘ai, que limõezinhos’. E ainda comentava que tinha mania de contar piadinhas sem graça enquanto transava. A mulherada ria pra não perder a chance de entrar para a Globo.

O mais patético era o Don Juan falsete adorar falar de suas conquistas: ‘você pode não acreditar, mas já peguei várias gatinhas da Malhação, sou técnico de luz, cê sabe… mulher na Globo é que não falta. Até Vera Fisher já deu molinho…’ Técnico de luz’?

Um cara franzino e desprovido de grandes atrativos, sei não. Acho que o segredo era ele possuir um carrão e ser gastador, mas dizem as más línguas que o importado era de um ator gay lá da emissora.

A garota estava transtornada neste dia. Perto do Projac tem um barzinho onde a galera bebe todas.

A garota estava muito irritada. A amiga, modelo dublé de atriz figuração:

_ Coitado… por que esta raiva?
_ ‘Coitado’? O idiota me levou cem dólares!
_ E não vai pagar, né?
_Um babaca! Babaca!
_Você vai?
_Não…
_ Se mudar de idéia, o enterro é às quatro, no Jardim da Saudade…

Dizem que o velório ficou vazio.

Primavera

Difícil, muitas vezes, ou nunca, você estar querendo curtir suas férias, ficar de bobeira.

 Talvez, fazendo poucas coisas, como amar e ser amado…

E cismar que vai se casar.

Há, neste contexto, muitas probabilidades de se casar mesmo.

Para quem enxerga o amor como ferramenta de trabalho – o puto do poeta – pode até ser uma grande alegria, se casar com o amor da sua vida.

E neste caso, o poeta tira o dedo da aliança.

Nós dois – Germana Fecundo

NÓS DOIS 

Estamos com pensamentos e idéias diferentes…
Você sempre me confunde,
Não sei se de propósito
Ou se tudo é mesmo culpa minha
Que insisti quando você já tinha dito que não queria.

Não adianta continuarmos nisso,
Porque eu nunca vou me acostumar com essa situação.
Nunca vou me acostumar com sua ausência
E muito menos com a sua indiferença.

Eu não sou tão aberta e muito menos tenho tanta força assim;
Estou aqui outra vez chorando por você
E sempre estou esperando você ligar para mim.
Para conversarmos ou para você me chamar para sair,
Mas você não liga, você sequer me dá notícias
E nem atenção quando nos encontramos.

Desculpa, mas eu não quero assim não.
Você realmente é a pessoa que eu quero
Mas o inverso é desigual
E eu quero ser amada e querida também.
Não quero mais amar sozinha.

Vou, finalmente, deixar-te em paz
E tentar me desintoxicar de você.
E, se você ainda me quiser,
Seja rápido,
Porque quando eu te esquecer,
Eu não vou mais voltar atrás,
Vou te esquecer para valer.

[Germana Fecundo]

Ceticismo é um cara calhorda

Ceticismo entrou naquele templo, disfarçado de ovelha. Colou pelos crespos pelo corpo e comprou chiclete de melancia. Ele não queria aparecer, mas seus olhos estavam vermelhos, sua curiosidade era incontida.

Sentou na primeira fileira e observou o homem que pregava. Olhou por baixo de suas saias, e discretamente tossiu. Um pigarro. Chiclete de melancia foi um exagero. Cuspiu a goma e esta grudou no sapato daquele que pregava.

Todos olharam espantados.

_ Cuspiram no Pregador! Herege!

Ceticismo levantou-se. Todos esperaram que dissesse algo em sua defesa. Ele então, calmamente, desembrulhou outro chiclete, desta vez de hortelã. Silêncio no templo. O que pregrava, com a face avermelhada, debatia-se em dúvidas: “Quem diabo seria este? O Diabo? Mas Diabo não existe!”

Ceticismo estalou uma bola com o chiclete, todos se jogaram no chão: “Tiro! Tiro!”

O que pregava, tremendo de medo, olhou para os fiéis e sentiu-se impotente. E agora?

Ceticismo riu com o canto da boca. Olhando para o Pregador, resumiu sua visita, retirando o algodão do corpo. Todos viram que ele não era uma ovelha. Sua pele era diferente, jamais precisaria tosquiar.

Curiosos, ficaram em expectativa, esperando o parecer daquele homem diferente deles.

Ceticismo, fingindo timidez, falou com sua voz rouca e profunda:

_ Vejo que aqui, impera o medo. Era só um chiclete. Só um chiclete…

E se foi, ouvindo atrás de si, alguns passos a seguí-lo.

                     ~~~~~~~~~~

 Bom final de semana, amigos! 🙂

Vida

Tudo pode parecer nostálgico, já visto e pensado. Nada é tão inédito ou original. As pessoas se parecem, as dúvidas, as de sempre, sorvetes, nem adianta inventar: chocolate!

Em termos gerais, tudo é igual como sempre foi, homens andam, correm, para depois sentarem sobre a inércia do igual. Nada de novo, o céu sem disco voador, e livros imensos, pensamentos, vírgulas e nada há mais para falar.

Será o fim do mundo, ou as coisas são mesmo assim, somos dessa forma, tão iguais? Choramos, rimos, discordamos, e filosofar pode ser o único caminho, desde que não seja único.

 Nada de novo, tanto faz, Hong Kong, Sidney, África, desertos somos nós, despatriados, e talvez nem seja o céu, limite do limite.

Nada de novo porque se repetem palavras, letras tremidas ou inventadas, tudo dará em nada, é limitado, tudo é pouco e não há como fugir de tal constatação. Arte, moderna ou não, ou nem arte sempre será, será arte, esboçar a monótona tentativa de reinventar a vida?

Sem chances, sem nada, nada de novo. Homem sem rumo, astronauta confuso… e, de certo mesmo só o poeta a olhar estrelas, viu… poeta, estrelas… palavras cansadas. Ataraxia, mumificadas reverberações. Nada muda as palavras. Certo mesmo, quem sabe, a vontade de escapar do confuso cárcere espritual. Acho que é isso.

Flores não nascem do nada, mas semente, vem de onde? Então é tudo igual, você, o girassol e o capim que a vaca pisa, estúpida criatura sem nome. E, Deus, como vacas são iguais!

Nada de novo, a não ser uma dorzinha aqui… acolá. Dores são poderosas, se multiplicam e espalham-se vaidosas a se mostrarem únicas. Mas talvez sejam as dores também bem iguais.

Nada pode ser inédito, nem novo, nada chama atenção. Que merda, melhor ser criança, ainda é. E elas são irritantemente iguais. Mas isentas de culpa. Isso faz a diferença. Sem culpa, sem limite.

Limites são o inferno que norteia nossos pensamentos. Limites enlouquecem raças, povos; e costumes são tão iguais.

Nada há de novo, nada a narrar, nem um OVNI eu vi, mas as pessoas são alienadas, alien de mim, e, eu posso jurar, as pessoas são iguais, normais, e não importa a língua, o título. Somos forçosamente iguais.

Novidade, hum… pensar que Hitler foi criança, Arnaldo Antunes e eu também.

Que mesmice ser gente.

Férias! =]

Amados leitores, amigos, amigos leitores,

A Dai está de férias, percorrendo as terras mineiras. Entre cavalos e ventos, resolvo deixar a tecnologia, um tempo de lado. Mas por pouco tempo, afinal, não fico sem internet :P, e nem sem vocês.

Beijos! 🙂