Só por hoje

Pequena vitória

Afastei-me

Corri

E respirei

Longe do vício

Da agonia

Da dependência

E da dor

De não viver sem tal

Prazer…

Só por hoje

Só por hoje

Sinto-me livre

Liberta do torpor

Só por hoje

Corri do amor

Respirei

Longe do vício.

Mas sei –  e como sei

Que serei fraca

Mas só por hoje

Deixa eu quieta

Sozinha

A masturbar a liberdade.

Meu vício

Sem meio

Começo

Princípio ou moral

Só por hoje

Descanso limpa

Nada de ducha

Ou risadas.

Deixa eu triste

Deixa eu limpa

Só por hoje

Minta, grite

Mas por agora

Estou bem

E não tremo

Mas é por pouco

Tempo

Só por hoje

Eu viverei sem ti.

Dói saber

Que é só por hoje

Vício

Dos vícios

Amor.

Um conto no entardecer

Foi assim…

Acordei cansada porque havia dormido demais. Lembro de ter, no dia anterior, dormido à tarde, assistindo a um filme, onde Audrey Hepburn e Henry Fonda ninaram minha solidão. Adormeci encantada com a possibilidade de alguém fazer cinema. Estava em guerra, mas a paz entrou no meu peito angustiado.

Fiquei pensando em como era mágico entrar na tela, mergulhar de olhos fechados nas paisagens. Fotografias num cenário de sonho e beleza. Guerra e Paz. Guerra interior.

Dormi com a câmera na mão, imaginando a Audrey acordando pela manhã, com suas secretárias lhe ministrando pílulas para elevar o moral, depois das de dormir. Tomei algumas bolinhas e quando vi (ou não vi), estava sonhando. Com ele. Eles todos, aliás. Todos os homens que tive. Cada um deles, um príncipe de espada em riste a rir-se da donzela drogada.

Acordei com a boca muda, sem vontade de fazer nada. Um gosto reticente, e a visão deles em minha frente, bem alí, todos em minha cama. Alí, me rodeando, querendo beijar minha saliva com gosto de run e coca (cola).

Estou num fim de tarde. É entardecer em mim, nos pássaros, e claro, não lembro ao certo com quem dormi à noite. Eu ainda tinha a câmera em minhas mãos. Portanto, ainda sonhava.

Caminho pelas ruas. Tenho a impressão de que todos conhecem meus segredos. E eu os tenho. Coleciono fatos, fotos, e muitas estórias de ficção bem aqui, dentro desta cabeça que sente o vento ondulando os cabelos castanhos, que emolduram um sensual rosto triste.

Na verdade dormi com um deles. O atual. Factual. Banal homem da vez. O namorado, o ator principal que me reduz a um simples coadjuvante na arte do amor.

Um deles. O atual, que de fato nada trouxe de diferente dos outros. Atuais são iguais, sempre.

As pílulas de Audrey Hepburn fazem efeito. Eu nada lembro. Cheiro minhas mãos e olho meus lábios no espelho da farmácia. Acho que nos beijamos. Acho que trepamos sim. Mas não me lembro. Talvez sejam tão iguais todas as vezes… Talvez eu tenha mesmo entrado naquele filme.

Peço à moça mais remédio. Até que gostei da sensação de viajar sonhando nos braços de ninguém.

Ela me olha. Estou de vestido preto, bem curto, o vento quase conta a cor de minha calcinha. Olho-me de novo e reforço o batom. O cabelo tá bonito. O vento é sexy, quando quer.

Dou um pulinho para não pisar na poça. Ele pára o carro e pergunta se estou sozinha. A obviedade da pergunta me seduz.

Outro filme, outro ator a fingir me amar. Não esqueço de ingerir rápido o remédio que me levará às telas em preto e branco. Nonsense sem vestido. A calcinha é branca.

Abro a porta do apartamento e o olho nos olhos. Sim, é o mesmo. O de sempre. Mesmo gosto amargo e sedutor. Mesmo beijo morno e gostoso. Estou louca. Estou nua de novo.

E mais uma vez farei desta noite igual, uma noite diferente, me transformando em estrela para um homem que não me diz mais nada. A câmera cai no chão e é amortecida pelo tapete persa comprado em um brechó.

Shiiii… vou dormir. Nua e leve, vou dormir. Estarei sozinha… quem está aí?

A Casa dos ventos

‘Era uma casa muito engraçada/não tinha teto/não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não/porque na casa não tinha chão…’

Todo fim de ano era aquela alegria: compras, vinhos, discussões gostosas em família. Tudo tão unido entre aqueles três.

O pai era meio louco, um liberal, comerciante jovem e bonito. Como era carioca, levava a filha desde pequena para a praia e a ensinava pegar uns jacarés, aquela prática de vir na onda sem a prancha.

A mãe, meio excêntrica, mexia com música. Letras, ela compunha letras para música.

O tempo foi passando…

Um vento, certa vez, entrou naquela casa e os três ficaram assustados. A filha rira, afinal, disse, nosso telhado não é de palha. E as paredes são de tijolos, vovô construiu esta casa! Aqui, estaremos seguros para sempre!

Porém, o vento ficara cada vez mais forte. A mãe, entre uma estrofe e outra, suspirava. Em sua intuição, sentia que aquele era realmente um forte vento. Um ar em movimento especial, que poderia derrubar toda a estrutura da casa. E da família.

E assim, certa noite, ao ouvirem a chegada da tormenta, entreolharam-se, meio sem ter o que falar.

O vento tinha formas, cor, cheiro e até nome. Era um vento diferente, como a mãe supunha.

Ele dominava toda a casa, os habitantes, e até os animais de estimação. Todos sucumbiram aos pés daquele ser aéreo e monstruoso. Suas asas eram escuras e ele falava gírias, como viesse de alguma periferia. Seus olhos eram alucinados, esbugalhados. Vermelhos.

A mãe foi a primeira a sair correndo, cabelo ao vento, despenteada e louca. O pai, ainda acreditava numa mudança de tempo. Mas os tempos eram outros. Difíceis de mudar.

A filha adqüiriu doença rara. Já não se importava com as artes, e nem atriz queria mais ser. Peter Brook voara naquele vento, junto com seus sonhos mais belos.

Eu soube que com a proximidade do Natal, eles pensam na mãe que nunca mais voltou. Virou música, virou canto de liberdade.

Parece que pai e filha aprenderam a dominar aquele vento, ou conviver com ele.

Ainda venta naquela casa quase sem vida. Entretanto, pai e filha, valentes, não deixaram a casa cair.

Sempre, antes de dormir, pensam na mãe que virou música.

E muitas vezes não sabem, mas adormecem com melodia silenciosa em suas almas.

Talvez seja uma composição da mãe, que de longe, canta em oração pelo bem daquela casa…

Raphael e o narrador do quinto andar

Certo. Eu serei o narrador. Como todos devem saber, ser o narrador é igual a sofrer, passo-a-passo, qualquer estória contada. Ou melhor, observada.

Porém, antes, vou falar de mim. Minha personagem veio para contar um absurdo que ocorreu num certo quinto andar de um prédio ainda em construção, na praia.

Já narrei muitos casos, mas isso já faz tanto tempo. Hoje, me contento em observar pássaros e a política que em nada mudou. Rio, pensando que só mudamos de lado, quer dizer, a ditadura agora usa maquiagem democrática.

Irônico. Se irei narrar uma estória erótica que aconteceu naquele prédio, o mais indicado seria que  o narrador fosse outro, mas enfim…

Pensando bem, por que  o próprio escritor do conto não a quis contar? Aliás, o escritor geralmente se mantém do lado de fora. Sempre sobra para o narrador.

Às vezes, até acho que escritores são aberrações, porque nem sempre o que se conta é bonito ou prazeroso. Inda mais uma estória dessas. Num momento de sobrevivência à vilolência urbana, o cara quer falar de sexo!

 

Bem, de qualquer forma, serei eu a narrar. Narrar uma estória erótica, que surgiu a partir de um grito. Um simples grito de quem só queria obter orgasmos naquele tal quinto andar. Seria isso um facto anormal? Digno de virar um conto? Ou o escritor anda mesmo carente? Alguns escritores desforram nas personagens suas frustrações. E quem narra, segura o peso psicológico da situação.

O ‘meu’ escritor deve estar ficando senil. Este que resolveu analisar um grito na madrugada. Um grito de uma mulher se elevando ao êxtase.  E lá vou eu, narrar tudo o que aconteceu naquela noite de insônia. Minha, é claro.

Sou uma sexagenária. Passei dos sessenta há algum tempo. Cansei de ouvir estórias eróticas, inclusive piadinhas sobre minha idade, pois cheguei aos sessenta e nove. Quanto mau gosto. Algumas piadas deveriam passar pela censura. Nossa! O que estou dizendo?! É o sono…

Tenho lá minhas experiências, a maioria delas eróticas, confesso. O escritor não costuma errar, afinal de contas.

Assim, o que me trouxe aqui foi o Raphael.

Raphael era um rapaz atrevido que morava no mesmo andar que o meu.

Nesta noite, eu dormia tranqüila, quando fui acordada por passos no corredor. Mais parecia uma cavalaria na alvorada. Militares tomaram o poder? O engenheiro errou nos cálculos? Não, era aquele casal insaciável outra vez.

Quando jovem, fazia tudinho que fazem hoje, entretanto, tínhamos respeito à lei do silêncio, ainda mais na sacanagem.

Pensando melhor, esta estória é mesmo digna de ser contada. Sexo é, e sempre foi bom – para mim é pura terapia. Vez enquando eu faço minhas festinhas. Mas esse Raphael! Que menino ousado, um deuzinho do sexo, o sem vergonha.

Como dizia, eu acordara no meio da noite com aqueles excitados passos no corredor…

Eu, ainda menina, levava os garotos da vizinhança para uma casa abandonada na minha rua. Eu era a professora e hoje, com muito orgulho, devo admitir que muitos experimentaram sexo pela primeira vez com essa aqui, que vos narra. Mas Raphael – por que com ph não sei. Parece alfabeto dos meus tempos. O Raphael era muito bonito e suas sungas…

Perdão, parece que o espaço acabou. Sinto, mas não resisti em falar de mim.

Ou o escritor amassa o rascunho, ou o deleta. Ou conte ele mesmo sua estória erótica do menino Raphael. Volto para meu chá. O escritor que se vire, tenho mais o que fazer. E lembrar…

Esperando e a chuva…

Distante estão as pedras do mar, tanto quanto as pessoas que passam e não percebem aquele cão jogado na chuva, a saudade em seus olhos, uma tristeza tão parecida com a minha e a sua.

Mas nós seguimos em frente, perseguindo sonhos que nem sempre vale a pena sonhar, buscando dinheiro a mais, jurando honrar dívidas e amores. Enquanto o cão só espera e espera, seu dono que se foi. Esperando uma pista, também estamos todos nós. Esperando um amor que não vem. Esperando Godot. Nada.

O cão ainda está lá, todos passam para lá e para cá. Óbvio, o cão tem fome. Como nós, num dia de chuva fina, também sentimos alguns órgãos famintos. Saciamos a  toda hora os sentidos, enquanto a alma descansa na falsa alegria de um gozo.

Epera o cão a chuva passar, o dono voltar, a comida alimentar…

Espera um afago, ou fortes mãos que o tirem debaixo daquele carro que não esperou que o sinal fechasse. Ele não esperava mesmo ser gente. De repente um sono gostoso, sem lembranças, sem fome, sem dono. Só ele e a chuva fina na porta do prédio do dono que não voltou.

Caminhando com Borges e Pessoas…

Praia do Recreio – RJ

Andei pensando – raridade he-he – e vim me deparar com um facto bastante lindo e interessante. Eu jamais parei de caminhar. Nunca consegui ficar… e jamais direi que parei. E sinto que gosto de continuar!…

Se nem as pipas pousam por vontade própria, se nem as gaivotas poderiam todas  serem chamadas de Fernão, bicho, por que eu deveria parar, por que, diabos ou cristos, eu perderia a oportunidade de estar feliz?

E, olha, aqui tem mar, aqui tem terra, tem saudades e enjôo de ser só por ser. Talvez esteja só. Normal para quem acha que é poeta. Ai, de mim toda.

Então, caminhando um pouco mais, não pelas sertanias, nem pela vila olímpica. E talvez nem por mim mesma.

Eu digo e diria que: Gente! Como é bom estar sem CPF, título de eleitor, certidão de nascimento e data de aniversário. Como é prazeroso olhar para trás e descobrir que nada há por lá. Lá, naquele lugar pra lá de locado em Deus. É esse o nome? He-he… foi mal.

Talvez um grande amor, um ente morrido. Morrido sim! Eu não levo a morte a sério. E nem a língua portuguesa, já que em tupi, eu nasci. Oh!, cara pálida!

Enfim, estou caminhando mais que Paulo Coelho, eba! Eu olho pela manhã, quase tudo que não poderia virar música e nem ‘alcorão dos abestados’. A metamorfose está estagnada, né?

Chegou pelo correio, uma promoção que ganhei! O Digestivo Cultural teve piedade de mim, e assim fui sorteada. Meu mundo coloriu nesta caminhada, onde pouso em minhas mãos, três maravilhosos livros que leio simultaneamente. Demais! Uau!

‘Por que ler Borges?’ ‘Por que ler Shakespeare?’  ‘Por que ler Dante?’

 Ha-ha-ha! Como sou (estou) feliz. Valeu Digestivo Cultural! Eu estou de quatro…

E para terminar, amados todos. Passo por uma das praias mais lindas do planeta. Minha mão está mais educada e se recupera, na medida em que volto a ser Daisy Carvalho – tendão rompido é foda!

Mas a boa nova, é que no próximo post eu vou mostrar o quão estou bronzeada e como ficou bem ter Fernando Pessoa sobre mim. Cof! Cof!

É que tatuei nas minhas costas, meu poeta maior.

Eu amo vocês. Não estou (ainda) no inferno dantesco. Mas Borges veio com Pessoa elogiar minha forma física e minha terrível mania de escrever. 😉 E, estranhamente o Digestivo mandou o meu Romeu, ai, ai…

Até a próxima,

Beijos tatuados! 😛

Semeadura

É como sentar sobre a pedra do esquecimento, pousar a cabeça nas mãos, e dormir no tempo. As folhas caem, e caem mesmo misérrimas no campo das margaridas.

Qualquer identidade desfaz a real vontade de ser mais que um ser. De poder voar. Mas as asas se quebram, e somente Ícaro poderia falar mais sobre o ar. Eu, assim como um vaso remendado, um milharal que não vingou, ouço o rulhar de aves ao redor do campo. E lá, nada poderei colher. Sou desta forma, como o espantalho a assustar meu próprio amor.

Não poderia nem mesmo ir ao fundo do poço… vai que não encontro água? Se minha saliva seca, quem mais eu poderei beijar?

São momentos, estes quase nenhum, onde a mulher se sente amada, de um jeito quase mágico. Mas se é magia, tudo pode mudar à meia noite.

 Mesmo sendo meio dia.