A Casa dos ventos

‘Era uma casa muito engraçada/não tinha teto/não tinha nada. Ninguém podia entrar nela não/porque na casa não tinha chão…’

Todo fim de ano era aquela alegria: compras, vinhos, discussões gostosas em família. Tudo tão unido entre aqueles três.

O pai era meio louco, um liberal, comerciante jovem e bonito. Como era carioca, levava a filha desde pequena para a praia e a ensinava pegar uns jacarés, aquela prática de vir na onda sem a prancha.

A mãe, meio excêntrica, mexia com música. Letras, ela compunha letras para música.

O tempo foi passando…

Um vento, certa vez, entrou naquela casa e os três ficaram assustados. A filha rira, afinal, disse, nosso telhado não é de palha. E as paredes são de tijolos, vovô construiu esta casa! Aqui, estaremos seguros para sempre!

Porém, o vento ficara cada vez mais forte. A mãe, entre uma estrofe e outra, suspirava. Em sua intuição, sentia que aquele era realmente um forte vento. Um ar em movimento especial, que poderia derrubar toda a estrutura da casa. E da família.

E assim, certa noite, ao ouvirem a chegada da tormenta, entreolharam-se, meio sem ter o que falar.

O vento tinha formas, cor, cheiro e até nome. Era um vento diferente, como a mãe supunha.

Ele dominava toda a casa, os habitantes, e até os animais de estimação. Todos sucumbiram aos pés daquele ser aéreo e monstruoso. Suas asas eram escuras e ele falava gírias, como viesse de alguma periferia. Seus olhos eram alucinados, esbugalhados. Vermelhos.

A mãe foi a primeira a sair correndo, cabelo ao vento, despenteada e louca. O pai, ainda acreditava numa mudança de tempo. Mas os tempos eram outros. Difíceis de mudar.

A filha adqüiriu doença rara. Já não se importava com as artes, e nem atriz queria mais ser. Peter Brook voara naquele vento, junto com seus sonhos mais belos.

Eu soube que com a proximidade do Natal, eles pensam na mãe que nunca mais voltou. Virou música, virou canto de liberdade.

Parece que pai e filha aprenderam a dominar aquele vento, ou conviver com ele.

Ainda venta naquela casa quase sem vida. Entretanto, pai e filha, valentes, não deixaram a casa cair.

Sempre, antes de dormir, pensam na mãe que virou música.

E muitas vezes não sabem, mas adormecem com melodia silenciosa em suas almas.

Talvez seja uma composição da mãe, que de longe, canta em oração pelo bem daquela casa…