Um conto no entardecer

Foi assim…

Acordei cansada porque havia dormido demais. Lembro de ter, no dia anterior, dormido à tarde, assistindo a um filme, onde Audrey Hepburn e Henry Fonda ninaram minha solidão. Adormeci encantada com a possibilidade de alguém fazer cinema. Estava em guerra, mas a paz entrou no meu peito angustiado.

Fiquei pensando em como era mágico entrar na tela, mergulhar de olhos fechados nas paisagens. Fotografias num cenário de sonho e beleza. Guerra e Paz. Guerra interior.

Dormi com a câmera na mão, imaginando a Audrey acordando pela manhã, com suas secretárias lhe ministrando pílulas para elevar o moral, depois das de dormir. Tomei algumas bolinhas e quando vi (ou não vi), estava sonhando. Com ele. Eles todos, aliás. Todos os homens que tive. Cada um deles, um príncipe de espada em riste a rir-se da donzela drogada.

Acordei com a boca muda, sem vontade de fazer nada. Um gosto reticente, e a visão deles em minha frente, bem alí, todos em minha cama. Alí, me rodeando, querendo beijar minha saliva com gosto de run e coca (cola).

Estou num fim de tarde. É entardecer em mim, nos pássaros, e claro, não lembro ao certo com quem dormi à noite. Eu ainda tinha a câmera em minhas mãos. Portanto, ainda sonhava.

Caminho pelas ruas. Tenho a impressão de que todos conhecem meus segredos. E eu os tenho. Coleciono fatos, fotos, e muitas estórias de ficção bem aqui, dentro desta cabeça que sente o vento ondulando os cabelos castanhos, que emolduram um sensual rosto triste.

Na verdade dormi com um deles. O atual. Factual. Banal homem da vez. O namorado, o ator principal que me reduz a um simples coadjuvante na arte do amor.

Um deles. O atual, que de fato nada trouxe de diferente dos outros. Atuais são iguais, sempre.

As pílulas de Audrey Hepburn fazem efeito. Eu nada lembro. Cheiro minhas mãos e olho meus lábios no espelho da farmácia. Acho que nos beijamos. Acho que trepamos sim. Mas não me lembro. Talvez sejam tão iguais todas as vezes… Talvez eu tenha mesmo entrado naquele filme.

Peço à moça mais remédio. Até que gostei da sensação de viajar sonhando nos braços de ninguém.

Ela me olha. Estou de vestido preto, bem curto, o vento quase conta a cor de minha calcinha. Olho-me de novo e reforço o batom. O cabelo tá bonito. O vento é sexy, quando quer.

Dou um pulinho para não pisar na poça. Ele pára o carro e pergunta se estou sozinha. A obviedade da pergunta me seduz.

Outro filme, outro ator a fingir me amar. Não esqueço de ingerir rápido o remédio que me levará às telas em preto e branco. Nonsense sem vestido. A calcinha é branca.

Abro a porta do apartamento e o olho nos olhos. Sim, é o mesmo. O de sempre. Mesmo gosto amargo e sedutor. Mesmo beijo morno e gostoso. Estou louca. Estou nua de novo.

E mais uma vez farei desta noite igual, uma noite diferente, me transformando em estrela para um homem que não me diz mais nada. A câmera cai no chão e é amortecida pelo tapete persa comprado em um brechó.

Shiiii… vou dormir. Nua e leve, vou dormir. Estarei sozinha… quem está aí?

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8 comentários em “Um conto no entardecer

  1. Ñão é à toa que você escolhe a Hepburn. Seus contos têm a delicadeza inata dela. Uma atriz além da beleza que é inegável, ela possui um gestual todo próprio, elegante e inesquecível. Assim como sua escrita. Delicada, com calcinhas, espectadores, estado de espírito e perícia. Uma Beleza. Beijos.

  2. Diego Viana, oiiiiii!
    Além de ser imenso prazer tê-lo aqui, aproveito para dizer que o seu é um dos melhores sítios da rede. Grande contista.
    Vou atualizar, claro. Obrigada pela visita e comentário.
    Beijo querido 🙂

  3. Beto Júnior,
    Você, co-autor de alguns contos no blog da dai, é sempre bem vindo por aqui…
    Como assim “a seduz de forma ‘anormal'” hehehe.
    Beijos 🙂

  4. Dai, que conto delicioso. Daqueles que dá pra ler, reler e depois ler de novo!

    PS: Para Ler Sem Olhar está com um link antigo aí ao lado. Só pra avisar…

  5. Ao mesmo tempo que ela quer ser possuída por aquele que chega e a seduz de uma forma anormal, quer continuar na ilusão de um dia estar com ele (realmente).
    Muito bom.
    Continue com esses maravilhosos contos, Dai.
    One big kiss. 😉

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