Dos sustos – Diego Viana

 Tenho imenso prazer em publicar este maravilhoso artigo/reflexão do amigo Diego Viana, do Para ler sem olhar. Aliás, indicadíssimo por mim.

 

“De súbito, salta a meus olhos a razão dos sustos. Refiro-me àqueles que parecem se abater sobre cada vivente de tempos em tempos, regulares como as crises sistêmicas do mercado financeiro, mas bem mais freqüentes. Esses traumas, maiores ou menores, são o mecanismo que a natureza criou para nos trazer de volta à vida, quando estamos, sem saber, há muito levando os dias como autênticos defuntos.

Explico. É um engano conceber nossa existência como um arco no tempo, embora seja nossa interpretação mais corrente: uma parábola que salta do nascimento, na maturidade atinge seu cume suave e daí vai descaindo pela velhice, até reencontrar o eixo das abscissas quando a morte nos alcança. Uma curva assim tão suave não pode representar a vida, essa que é tudo, menos suave, e tão menos viva quanto mais tranqüila e regular.

Para quem a observa com atenção, diria mesmo com carinho, a vida desvenda seu doce segredo. Ela se revela inteira, como um fractal surpreendente. Dentro do tempo que nos é reservado nesta existência, que por sinal é muito pouco, temos o dom de nascer muitas vezes, em várias direções, com intervalos que podem ser incrivelmente curtos. No fundo, em vez de uma só, levamos levamos várias vidas, um fragmento dela a cada vez. E isso faz de nós caleidoscópios pulsantes, com todas as cores e movimentos que um caleidoscópio deve ter.

Que isso implique um sem-número de pequenas mortes para cada um de nós não deveria ser causa de aflição. Quem chegou até aqui já provou sua resistência. Não sucumbiu aos muitos finais que já sofreu, nem ao medo de cada reviravolta, mesmo se chegou a pensar que não mais poderia. A última morte, aquela que atinge também a carne, arrisca perder-se no esquecimento, depois de tantos traumas e tantas primaveras.

É assim que passam os anos, é assim que se forma aquele arco que, por desatenção, tomamos pela vida de verdade. Vivemos por um tempo, depois morremos sem saber. E podemos ficar anos, muitos anos assim. Pobres zumbis, cadáveres ambulantes mas asseados, confortáveis no esquife acolchoado de certezas em que nos enterra o quotidiano.

Quanto mais rápido vier o susto, melhor e menos traumático. Quanto mais nos acomodamos na segurança, tão artificial, que se apresentava, ardilosa, como objetivo maior de qualquer vida, mais teremos de sofrer para aceitar que há muito já não vivemos e precisamos nascer de novo, com o impulso de um bom susto. Mudanças desse gênero são quase sempre muito difíceis e deixam sequelas na versão renascida do defunto.

Como ele pode vir, esse tal susto, todos sabem. Quem se flagrar em dúvida deve desconfiar. Se jamais tiver passado por um, é provavelmente porque ainda está precisando. Ainda vive como um morto e não descobriu. Quando soar o alarme, soará em alguma forma inusitada, imprevisível, sorrateira. Eventos físicos e óbvios, talvez, como a experiência de quase ser atropelado, ou se cortar profundamente com uma faca de cozinha ao fatiar tomates. Mas podem sobrevir ainda os superlativos do padecer moral: separações, traições, desilusões.

Venha como vier, o susto é um novo parto. Acordamos para um mundo que tínhamos esquecido, isto é, acordamos para a vida. Descobrimos o quanto éramos mortos, quão idênticos eram nossos dias, como o são os dias da matéria inerte que fatalmente nos tornaremos. Somos atingidos, reagimos. Sentimos o sangue que corria em nossos vasos sem que déssemos por ele. É para isso que tomamos sustos, é por isso que desabam nossos universos.

Porque sofremos, podemos fruir. Eis um decassílabo que resume a existência.”

7 comentários em “Dos sustos – Diego Viana

  1. Diego,
    As coisas da vida são mesmo assim. Quando a mensagem vem de um profundo sentimento humano, ela se propaga. E vira filosofia. Foi um prazer, amigo.
    Beijo

  2. Oi Daisy! Vim agradecer pela menção. O curioso é que escrevi esse texto sem lá muita confiança e nem divulguei para os amigos. Engraçado, não?
    Beijos!

  3. Diego Viana escreve muito. Excelente citação.

    Daisy, queria saber a sua opinião sobre Blindness do Fernando Meirelles. Que tal uma postagem? Obrigado pelo cometário gentil lá no meu mundo.

  4. Claro que vale a pena. É que sinto falta de nossos papinhos 😉
    Beijo pra ti e sua noiva Marcela. 🙂
    Obrigada, visitante hehehe…

  5. quase

    Se ocupação matasse tava durinho.
    Mas como estou muito bem acompanhado tem sido uma estadia prazerosa apesar de pirante.
    Fazer duas edições de jornal por semana, namorar a minha noiva e arrumar um tepo para viver o resto da vida não é fácil ou rápido.
    Mas vale a pena

  6. Amigo Diego. Prudentemente, o mercado financeiro nao ocila tanto quanto a vida. Uma parabola da existencia humana.
    Que brinca com nossas mentes.
    Morte, vida, afliçao, desilusao, encontramos na vida. Que tentamos driblar no nosso cotidiano, de morte e renascimento.
    Como noite e dia. Sempre brigando no firmamento.
    Todos eventos sorrateiros, que sempre nos mostram algo na nossa vida.
    Beijos.

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