Vidraças

Mais uma vez aceito o convite-desafio do Jefferson Maleski que se inspira no Duelo de Escritores. O tema da vez é Condição. É só um treino, Jeff.

 

 Olhava pela vidraça da janela da sala, enquanto a chaleira apitava, atordoando seus ouvidos. O cão labrador descansava no tapete, de olho nos peixes do aquário, já que o gato soberbamente ignorava os pequenos nadadores. De fato, o brilho das barbatanas o irritava. E sempre havia aquele prateado que voava à noite, confundindo sua felina visão.

Ele tosse e vai à cozinha. Desliga o fogo e prepara seu costumeiro chá. Volta à sala e fica estático, observando a escada. Sabia que a qualquer momento ela desceria, assustadoramente linda. A pele extremamente alva, quase não dava para ver os finos lábios, sempre descoloridos. Ouve ruídos.

Tomariam chá juntos, e ele lhe diria como fora seu dia, enquanto ela, acariciando o labrador, sorriria aquele sorriso cândido que invariavelmente o excitava até as últimas consequências. Sexo era seu maior prazer. Sexo com ela, somente com ela. Jamais suportaria dividí-la. Nem com o cão. Seu sangue fervia nas veias, as mãos tremiam, o que sempre o apavorava.

 As pernas começam a fraquejar.

Sim, ela desceria as escadas. Estaria com sua camisola negra, combinando com seus longos cabelos. Difícil distingüí-los, aquela cabeleira que mais pareciam pêlos sedosos de uma fêmea selvagem.

Voltou à sala. A lareira crepitava insana, ele pensou. O fogo ardia de forma descontrolada, ou seria ele em sua excitação?

Olhou o aquário. Andou lentamente até o rústico móvel no canto da sala. Abriu a gaveta e puxou um pacote com a comida dos peixes. Aos poucos, deixava cair os farelos e ficava absorto, olhando fixamente os bichos se aglomerarem em torno da comida.

O gato se assusta. Solta um ruído que faz sua pele arrepiar. O cão rosna incomodado. Todos olham em direção à escada. Sempre o mesmo ranger, como se os degraus tivessem vida.

Ela não está com a camisola negra, mas nua e sorridente. Um sorriso algo misterioso. Traz na mão direita a tesoura. A velha tesoura que pertencera à sua mãe. Ele treme e dá alguns passos para trás. Derruba o chá. O estalido da xícara no piso frio espanta os animais.

Ela desce todos os degraus. Quando fica diante dele, levanta a tesoura, e num único golpe corta os cabelos amarrados em laço.

Ele se ajoelha e chora, enquanto tenta catar os fios escuros sobressaindo no tapete branco. Não percebe quando ela levanta de novo a tesoura que vem em direção à sua garganta…

Neste momento o telefone toca. De má vontade ele atende:

_ Alô!…

_ Oi, cara! Ainda não saiu dessa fossa? Precisa se recuperar. Já faz dois anos… Precisa voltar a viver. Você é inocente.

Desliga o telefone. Volta à janela. Da vidraça ainda a vê correndo em direção ao bosque com as mãos sujas de sangue.

13 comentários em “Vidraças

  1. Oi Fábio,
    Muito legal vc aqui. Esta iniciativa tem mais é que se espalhar, pois vcs batem um bolão 😉 Obrigada pelo comentário.
    Abraço 🙂

  2. Nossa, que texto sufocante! Mesmo no início, na parte mais excitada e apaixonada, o texto jah é sufocante, como que demonstrando o que virá a seguir. Achei realmente muito bom, tirou meu fôlego!

    (e posso dizer em nome de todo o Duelo que estamos extremamente ohonrados em saber que os duelistas estão se espalhando internet afora!)

  3. Mas Jeff,
    Se foi você quem me deu os toques, tipo usar suspense em cada parágrafo… eu só tentei seguir seus conselhos. não seja modesto. E pode contar comigo sim, claro 🙂
    Beijo

  4. se fosse resumir seu conto em uma palavra seria ZUPT!

    é.

    vc conseguiu colocar nele tanta coisa num fôlego só que os leitores mais afoitos terão de lê-lo duas ou mais vezes para “captar” oq vc quis dizer.

    eu sou um leitor afoito.

    apesar de eu não conseguir fazer isso, gostei da sensação. e agora, vai continuar na brincadeira nos próximos desafios? conto contigo…

    1 abraço.

  5. Erwin…
    Preciso de você, sempre. E até acho que não tenho este direito. Assim que eu tiver, passo o número novo 😉
    Beijo, meu lindo amigo. Eu te adoro 🙂

  6. Olá Dai,
    Lindo trabalho, linda trama ( como sempre ).
    Não consigo ficar sem vir aqui no seu blog mais, pois, sempre tem resultados de boa literatura.
    Beijos.

  7. O drama, a culpa, o amor, a insanidade e a constância desses fatores todos agindo sobre o homem, é impressionante para aqueles que sentem e vivem. Ler sobre isso é uma dificuldade, acabamos vivendo a mesma dor. Quando deveríamos ter a placidez de um labrador mirando os peixes. Num dá. Belo o desafio e linda a resposta. Beijos.

Sua opinião me interessa ;)

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