Tempo, um ano só

lucifer

Acabara o mundo, afinal.

Tudo, tudo; tudo aconteceu, como previsto e profetizado outrora. Aqui e no céu, fogos queimaram a todos. Uns em comemoração. Outros, queimando almas, dizimando pessoas sem dízimos. E queimavam também os cães de todas as raças. Artistas viravam fumaça numa fogueira pior e mais quente do que aquela que queimou Joana D’Arc. Leões, tigres e macacos darwinianos sorriam, ao lado de Deus. Talvez bebessem um líquido, uma espécie de drink; possivelmente meio amargo, como o nosso Campari. Porque dava para notar uma careta disfarçada, a cada golada. Em cada sorvida. Os lábios deles tentavam sorrir, afinal era feita a vontade e realizada a vontade d’Ele. Devastada a terra nostra, a linda Amazônia, e o Tibet, encontravam-se felizes lá no mais alto dos céus. Volto ao artista, que ardia resistente. Ele chamou por Lúcifer, num pedido inusitado. Não, este artista, um escritor. É, um escritor! Ele queria, num último momento infernal, ter com o cara. Já estava queimando na ira de um deus que nunca pisara num tablado. E, triste, entre Shakespeare e Isolda, o artista prometia aos seus, que queimaria cada célula de seu corpo, buscando entender tantas ‘glórias’ sem razão e poesias. Ao lado do escritor, um ladrão sorria animado, e, vez por outra, vociferava com o cenho franzido, que ele também era mais o Barrabás! E enquanto isso, uma criancinha rebelde apontava o único dedo da mão, exclamando: “Reencarnação!”

Jamais imaginara tamanha fogueira, o nosso artista. Os olhos, pretos de fuligem, viam cavalos alados, relinchando em orações. Ele estava apavorado. De verdade. Seu corpo doído, e as mãos sem canetas, tentaram conferir se aquela água quente era seu mijo. Constatou que era a única água que teria contato. Além das lágrimas negras, evidentemente. Olhou para o céu. Mas não via o céu. Eram vários céus! Uma zona maior que a Vila Mimosa, lá do Rio de Janeiro. Todavia, ainda assim, ele, o escritor, resistia. Haveria, pensou imerso em quente angustia, ele haveria de cumprir e honrar sua palavra. Falaria com Lúcifer, antes de virar pó.

Porém.

Detido nesta palavra, percebeu a tempo, que era humano demais. Falho e inconstante ele era, pensou, fechando os olhos úmidos. E também que blasfemava, por ter razão e poesia em seu ser. Pelos seus cálculos ensandecidos de calor real, achou que já passara um ano ardendo na gigantesca e dantesca fogueira. Um ano esperando ter com o Diabo. O tal do Lúcifer. Até que sua vista foi nublando. Então, ele olhou envergonhado para todos os artistas ao seu redor. Quer dizer, as cinzas deles. E mais uma vez chorou. E urinou nas coxas. Estava chegando seu fim, por fim.

Entretanto.

Outra palavra que o animava. Entretanto, eis que um vento espiritual aliviou seu curtido rosto. Um frescor último secou suas malditas águas. As últimas águas que sentia o artista. Com os olhos semi-serrados, ainda vislumbrou assustado, um anjo estranho que, com apenas a asa esquerda, soprava seu alívio, na verdade o alívio dos dois. Queriam fazer contato, pensou, um tanto esperançoso, o ex-poeta. E, num sopro quase divino sussurrou:
– És o Lúcifer, enfim, ou estarei eu, em agonia por um ano, sem comer e beber, queimando num inferno insensato?

– Sou eu – respondeu aquele anjo de asa quebrada. A direita.

– Tem certeza que não escrevo uma poesia?

– Sim. Eu tenho. – e olhando ao redor, todos os céus desfeitos, declarou: – Porque também eu, briguei por vocês. Mas creio que perdemos…

E neste exato momento, o Universo escutou, em uníssono, todas as vozes matrixianas, de todos os artistas:

– Amém!

 

 

[Este conto participou de uma rodada especial no Duelo de Escritores. Foi o mais votado, embora lá (confiram) tenham publicado ótimos textos, de belos escritores talentosos. Como não havia terminado a votação, o Jeff tá levando, merecidamente.

Obrigada, Jefferson, por ter me incentivado e feito as devidas correções no texto acima. Aliás, confiram o excelente conto com que o  Jeff participou, Bodas de papel. Vale a pena.]

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11 comentários em “Tempo, um ano só

  1. Olá pessoal! Olá Bárbara – seja bem vinda! – Desculpem aí, amigos, andei enrolada. Mas, como sempre, fico imensamente feliz com a presença e comentário de vocês! 🙂
    Um MILHÃO de beijos da amiga Dai 🙂

  2. Não há nada mais prazeroso que sua contribuição culta e erudita aqui no humilde blog.
    Amigo, estou com saudades. Hoje vou à sua ‘casa’ bater um papo gostoso, como sempre.
    E desculpe a pressa noutro dia no MSN. 🙂
    Beijos Erwin!

  3. Ars Amandi

    amar
    amar
    amar

    qual ama

    o nascituro a mama
    o incendiário a chama
    o opilado a lama

    José Paulo Paes

    Atrevo-me a escrever meus sentimentos refletidos numa poesia de Outro. Queimado ao colocar nome às coisas. Um competidor apreciavél, também foi abanado, inutilmente, pela asa esquerda do anjo caído.
    Beijos e beijos.

Sua opinião me interessa ;)

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