Xadrez

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Tantas cavalgadas nas estribarias infectadas de rosas e incensos,

Palavras e promessas, e eu ali, sozinho, fumando obsecado

As escrituras em máquina de escrever a razão…

Poderia ter dado passos mais firmes, com amor. Amor.

Uma palavra, palavrinha minúscula na tecla da máquina.

A máquina do tempo erra quando eu não apago com tinta

Os fantasmagóricos embustes de um certo inimigo.

E de que lado estarei eu, homem velho, velha criatura

A despir-me na piscina azul da cor do céu?

De qualquer forma as máscaras se vão

Cada uma delas caindo e mostrando a tua face.

E quão feio é aquela que retorce em falso sorriso!

E de milagres é feita a minha estadia entre folhas de jornais,

Lá, onde a publicidade do soldado que mata criancinhas

Que afoga os incautos desiludidos em fogueira de fogo também azul,

Murmura em meu ouvido o que já não ouso ouvir.

O noivado dos amores se revigora, e eu canto e canto

Porque de um amor sincero e grande só há promessas…

Eu também prometo sair daqui, subir escadas

E te amar outra vez.

Escrever é tardio pensamento

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“Há homens que se agarram a sua opinião, não por ser verdadeira, mas simplesmente por ser sua.” (Agostinho)

Pensar antes, sofrer antes da existência. No silêncio a vida há, antes de ser. Escrever é tardio pensamento, porque muito antes do céu e da terra, a vida era, o poeta era, e heras eram.

Escrever contos, poemas, digressões, qualquer coisa existiu antes das palavras. Qualquer sentimento, soluços de dor e de alegria. Gozo e tormentas, tudo, tudo houve antes de haver em folhas de papel e telas de computador.

 Escrever vem depois do sofrer, das ilusões, se sábio ou não, não importa – escrever vem depois e antes do fim. O pensamento já era, antes de estar entre os dedos de quem escreve. É adormecido escrever, as palavras se agrupam em volta das dores e sensações tantas quantas sentir o poeta, o escritor que já existia, antes de nascer ele era.

Escrever é ato tardio porque nem havia palavras e dinossauros temeram o homem. Este homem pensava e amava, e nas cavernas desenhou seu destino insólito. E ele já era, antes mesmo de congelar. Escrever é assim, não há palavras e nem som, só nuvem como o ar, atmosfera entre galáxias, um éter eterno que vira depois, a poesia.

Escrever é tardio pensamento, não há dores nem sofrimento, apenas uma onda elétrica percorrendo o corpo, seduzindo a alma, enquanto nada em volta há. Mas já havia a fúria de pensar. E pensar já era antes de escrever. Escrever é tardio…

É estar na cadeira flutuando nas nuvens. Ora negra, ora invisível, sem inspiração. Nada disso importa. Escrever é tarde quando pensar já era, antes de ser. Pensar é não escrever. Pensar é sofrer e gozar. Da noite ou do dia. Sol ou chuva. No chão ou no céu. Não importa mais.

Escrever é tardio e às vezes falho, se não há pensamentos sem nunca ter sido. Eternidade das letras não há. Só o pensamento é, desde que já tenha sido. Um dia.

Geladas

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Que coisas podem deixar um homem constrangido diante da vida? Que dores poderiam fazer um homem chorar em sua solidão? Com César aconteceu de forma inusitada…

 

Era um final de tarde, no centro da cidade. Ele, depois do trabalho, resolvera fazer uma surpresa para Yolanda, sua esposa há vinte anos. O casamento estava meio frio, os filhos morando em São Paulo.

O Rio de Janeiro sempre quente, pensou, olhando para o céu. Entrou na Van e pagou a cara passagem. Recontou mentalmente as notas na carteira. Cem reais! Que presente comprar com essa fortuna? Depois de tantos anos…

Aconteceu que César desceu em frente à padaria de sua rua. Alguém chamou seu nome. Era o Carlito, seu melhor amigo. Aceitou tomar uma cervejinha inocente, pois o fiel colega estava precisando de um papo.

Carlito estava desempregado. Era a semana do Natal. A esposa longe, na casa da mãe. Não tinha nem o das compras. Nem arroz, nem feijão. Bacalhau? Nem pensar!

Amigos sofrem, às vezes. César puxou a carteira. Pagou as seis cervejas e entregou o restante do dinheiro ao amigo: “Vá ver sua mulher, compra alguma coisa pra ela… hic! E feliz Natal, amigão!” Depois, um longo abraço emocionado.

Dois tapinhas nas costas e subiu em seu prédio. Quando entrou, encontrou a mulher emburrada, assistindo televisão. Só então lembrou do tal presente. Deu meia volta e foi atrás do Carlito. Pediria desculpas, mas pegaria seu dinheiro de volta. Yolanda de cara feia, nem pensar. Era patológico, sabia que não aguentaria.

Tarde demais. Carlito chorava copiosamente. Acabara de pagar um agiota que o surpreendera com o dinheiro na mão.

Assim, duas mulheres ficaram sem presente. E dois homens na mesa de um bar, bebiam, em silêncio, cervejas no fiado.

Ainda Bem…

 Em princípio, não saberia encontrar a pia. E ainda que eu quisesse vomitar, não saberia onde. Se desejasse gritar, pressinto que a parede não isolaria-me do ruído. E que ruído ruge mais que o leão?

Ao invés de delirar, eu poderia, ao menos, saber de que lado é o corredor.

Nasci bem pequeno. Criança, e, Deus!, eu já tinha propensões ao vômito. Acho que fui, aí, xingado, em princípio. Dane-se! Eu desabafei.

Nem sei como separar minhas lembranças. Penso eu no meu primeiro tombo? Na primeira trepada na árvore, ou em minhas subidas nas figueiras? Creio que Jamelão entrou em extinção. Mas daria samba eterno, se não fosse a efemeridade dos deuses…

Dito foi que as criancinhas serão bem vindas. Mesmo as prostituídas? Sem hímem?

Imaginem as valas de esgotos, misturadas com músicas clássicas e louvores; imaginem Lennon nesses últimos natais… Negros e brancos, natal para todos.

Para os filhos do silêncio; para as meninas prostituídas com batons no final; para pais de família adúlteros; poetas sem livros; mulheres sem gozo; fiéis sem gozo. O mundo inteiro sem gozo. O mundo inteiro esperando desmentir a Deus. Provavelmente Satanás e seus demônios estariam assistindo Almodóvar, ou roteirizando um ser chamado solidão.

Ainda quero vomitar. Ainda sou criança. Ai!… Placentas das mães desmentem as palhas burricas. Hei, minha mãe. Bom natal, eis que boas são as nozes!

Eram tantas brincadeiras na minha infância. Brinquei de papai e mamãe. Brinquei de casinha de madeira. Brinquei de vocês. Mas meu estômago, fraco, não se compara aos barcos dos marinheiros ferozes. Piratas e santos. Santos natais! Eis que brinco de bolas transparentes de natal.

Agora, é sério, vou mesmo retirar-me de vós. Meus avós estão aí? Se tiverem, digam que não bebi.

E mesmo assim, vomitei…