Renovação

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Assim como as águias, devo parar, vez por outra,  para questionar opções na vida. Repensar no tempo dos meus sonhos.

Elas, essas aves adivinadas, perdem um precioso tempo quando decidem pela renovação, ou seja, recolhidas no topo de alguma montanha, esperam com a paciência dos dias, pela misericórdia do renascimento.

Lá no alto sobrevivem em pleno sofrimento, e esperam o renascer do bico para assim arrancarem as velhas unhas. Com as novas unhas, retiram dolorosamente suas penas. Sem contar sua valentia ao violentar seu antigo bico contra a pedra, para início de sua renovação. Aí, ela se cala, e aguarda.

Assim somos nós. Talvez, menos corajosos que essas aves, mas também somos passíveis de renovação.

Doer, dói. E muito. Entretanto, se vejo pelo lado milagroso da escolha, ou seja, do direito de voltar à vida, livre de velhas e cansadas atitudes, é possível voltar a ser feliz e voar de encontro ao novo dia. Poder ser eterna depois da dor.

Águia sou eu também. Difícil é me recolher nas montanhas, arrancar o bico, retirar as unhas e depenar-me em plena solidão.

Porém,  não custa tentar. A natureza me ensina.

 Eu desejo os céus, entretanto, sou antes, discípula da águia.

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Convicções urbanas

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Aquele homem vivia de forma simples e ordinária. Falava pouco, vestia-se pobremente e comia o básico. Arroz com feijão. Um trabalho simples: Tomava conta de carros em um estacionamento classe A, em restaurante, numa rua aqui, em Copacabana.

No Morro do Tabajara, no memso bairro, ele adqüirira um até simpático sala e quarto. Tudo simples. Comum, como tudo em sua vida.

O que chamava atenção, ao menos para mim, era o fato de que este homem doava seu dinheiro para causas, digamos, simples. Colaborava com a Associação de Moradores, distribuía doces para as crianças, e dava conselhos (com poucas palavras) aos jovens que se aventuravam no tráfico.

Dificilmente ele falava com adultos. Só tinha olhos para as crianças e adolescentes.

Um dia, fiquei sabendo que aquele homem passara por grande trauma, ao perder toda a família num terrível incêndio – mulher e dois filhos – quando morava no Interior. Estado do Rio. Que estado de espírito invadiu-me neste momento. Então ele nada tinha de simples ou comum!

Um dia, munido de coragem, cheguei para ele, e olhando em seus olhos profundos, indaguei sobre sua vida. Lembro bem daquele sorriso discreto.

Sentamo-nos ao meio fio da calçada e ele como que balbuciando, ofereceu-me uma bala de hortelã. Aceitei e me pus todo ouvidos naquele instante mágico. De tudo que ele me falou na ocasião (da dor de morrer), eu poderia dizer que algumas palavras me feriram o coração. Eu até prometi voltar a conversar com ele. Um dia, porque estava indo para outas bandas.

Aprendi com ele, um escritor, sim, ele fora um jornalista, poeta… Aprendi a gostar de ler e escrever. Devo-lhe isto.

Porém, o outro conselho, em que, exaustivamente tentara incutir em minha alma, este ficou perdido no tempo. Ficou como que flutuando em minha mente, as palavras soltas, sem sentido. Eu resisti. Não houve como ouvir aquelas poucas mas profundas palavras.

Nem sei bem por que lembrei-me daquele homem tantos anos depois. Acho que por estar um lindo sol lá fora, e eu ter ganho mais um caderno, acho que quis homenageá-lo daqui. Afinal de contas, se não o ouvi quando pediu para eu sair do tráfico, ao menos aprendi a escrever.

Entretanto

beijo

Foto – Helmut Newton

O que sai da boca do homem pode contaminar,

ser um intruso comentário a esfacelar multidões e sentimentos.

Pode até alavancar guerras e destruições sem prévio aviso,

ou mesmo um suspiro de orgasmo ou sono.

O que sai da boca do homem pode causar inveja e furor,

pode dar tumor e tirar o baton.

 É possível que cale em silêncio oriundo

de um distante mundo solitário,

e até levar à morte da alma, da carne.

O que sai da boca do homem pode ser palavra de maldição,

poema sem razão, e nem ser poema…

Entretanto, um beijo bem dado salva uma vida inteira.

Sinta-se assim

gatos

Porque este é o estágio perfeito para a alma. Sinta-se uma criança, um bichinho. Erre e limpe as mãos de terra. Sorrir e cantar desafinado pode ser bom.

Sinta-se assim. Puro de sentimento, nada de inveja ou ira sem razão. Esqueça o que é feio e os inimigos. Sinta-se assim.

Seja criança de novo e viva feliz, apesar de tudo.

O que nós faríamos em 2009?

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Talvez!

Talvez, tentássemos atravessar a ponte sem amarras, ou, destruiríamos o cara que tentasse nos impedir…

Ficaríamos calados, com as luzes acesas… apagadas… e até sem luz? Melhor: ficaríamos sem luz?

Despejaríamos lixos tóxicos escondidos, e afogaríamos os bebês defeituosos? Assim, sem dó nem piedade?!

O que faríamos em dois mil e nove?

Erraríamos noves vezes nove a única verdade?

É… e qual seria esta tal verdade?

Aquela proferida e profetizada pelo padre e Raul Seixas?

Talvez (talvez), um som silábico, monossilábico

Restringindo nosso maior espírito?

Ou… talvez ficássemos na esquina, expelindo os conhecimentos, com ânsia de usar aquele sanitário, a casinha, onde seria tão bom… defecar.

Vejam, vejamos. O que faríamos, eu e você em 2009?

Desistiríamos de sexo?!

Esqueceríamos o banco e suas tarifas?

Perdoaríamos o presidente Lula? Ha–ha!

Talvez. Talvez!

Aprenderíamos latim, grego… a língua de Cristo?

Hum… pode ser que apenas nos entregássemos ao “não”.

Tudo bem… creio que ninguém ouve, assim, concretamente, a voz divina…

E as prostitutas e os ladrões desfilariam com os costureiros das fantasias…

Então, poderíamos ser homossexuais! Quebrando as regras.

Paradoxos em virada de ano? A terra gira mais rápido, é isso?

Então… o que você faria, nós faríamos neste ano novo?

Leríamos os profetas?

Acreditaríamos que o Livro foi escrito num espaço de mil e quinhentos anos?

Ha-ha-ha!

Foi.

E, lá, por um um estranho consenso, não se encontra contradições.

Que coisa chata! Um livro copilado por mais de quarenta autores, que não se contradiz!…

O que faríamos em dois mil e 9?

No mínimo, desconfiaríamos de certa sabedoria ímpar.

Mas seríamos vários e múltiplos.

Somos escritores e saberíamos reconhecer o Livro!

Acho que simplesmente continuaríamos a honrar

A fonte da inspiração.

Seríamos rebeldes, com tamanho coração? Creio que não!

Escrever é acreditar!

Haja, em dois mil e nove!

Amém!

E, Jeff também.