Convicções urbanas

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Aquele homem vivia de forma simples e ordinária. Falava pouco, vestia-se pobremente e comia o básico. Arroz com feijão. Um trabalho simples: Tomava conta de carros em um estacionamento classe A, em restaurante, numa rua aqui, em Copacabana.

No Morro do Tabajara, no memso bairro, ele adqüirira um até simpático sala e quarto. Tudo simples. Comum, como tudo em sua vida.

O que chamava atenção, ao menos para mim, era o fato de que este homem doava seu dinheiro para causas, digamos, simples. Colaborava com a Associação de Moradores, distribuía doces para as crianças, e dava conselhos (com poucas palavras) aos jovens que se aventuravam no tráfico.

Dificilmente ele falava com adultos. Só tinha olhos para as crianças e adolescentes.

Um dia, fiquei sabendo que aquele homem passara por grande trauma, ao perder toda a família num terrível incêndio – mulher e dois filhos – quando morava no Interior. Estado do Rio. Que estado de espírito invadiu-me neste momento. Então ele nada tinha de simples ou comum!

Um dia, munido de coragem, cheguei para ele, e olhando em seus olhos profundos, indaguei sobre sua vida. Lembro bem daquele sorriso discreto.

Sentamo-nos ao meio fio da calçada e ele como que balbuciando, ofereceu-me uma bala de hortelã. Aceitei e me pus todo ouvidos naquele instante mágico. De tudo que ele me falou na ocasião (da dor de morrer), eu poderia dizer que algumas palavras me feriram o coração. Eu até prometi voltar a conversar com ele. Um dia, porque estava indo para outas bandas.

Aprendi com ele, um escritor, sim, ele fora um jornalista, poeta… Aprendi a gostar de ler e escrever. Devo-lhe isto.

Porém, o outro conselho, em que, exaustivamente tentara incutir em minha alma, este ficou perdido no tempo. Ficou como que flutuando em minha mente, as palavras soltas, sem sentido. Eu resisti. Não houve como ouvir aquelas poucas mas profundas palavras.

Nem sei bem por que lembrei-me daquele homem tantos anos depois. Acho que por estar um lindo sol lá fora, e eu ter ganho mais um caderno, acho que quis homenageá-lo daqui. Afinal de contas, se não o ouvi quando pediu para eu sair do tráfico, ao menos aprendi a escrever.

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