Quando o vento soprar

essa

Coisas simples
Como um relógio cansado
Que atrasa a hora da colheita
Simples como um sol negro
A despedida vem com a chuva
E memórias entrecortadas
Naquela colcha de retalhos
Estampada de rosas tristes
Ressequida de suor
Ressentida na esquina eu
Simples assim, uma flor esmagada
Pela pata do mau entendido
Sem sentidos
Calo o meu cl’amor
Só eu sou.

Dor

esta

Desejos são fragmentos de um mesmo querer, assim, sem muitas frescuras, não há como não desejar. Desejam o homem alheio, o país alheio, a mulher daquele, um sorvete, um carro novo.

Desejos são bucólicos, certeiros, errados, inofensivos, e muitas vezes mortais. Vide Shakespeare. Difícil conter alguns desejos, uns nem tanto, mas há desejos ferozes, mordazes, animalescos, assassinos.

Quem não quis matar alguém, ou algo, uma lembrança…

Desejos loucos, insanidades poéticas, desejos de se afogar por um amor, ou trepar na videira e morrer enforcado de uma vez. Desejos caninos, lobos e coelhas no mesmo pasto com vacas burras e homens maus, muito maus.

Vontade não dá e passa, é mentira, se não sacia ela mata aos poucos. Pode até esquecer, mas é difícil. Tesão ou não, desejo é desejo, é dormir com esse barulho que nem é muito e nem é por nada, é difícil como uma doença rara.

Amor é ruim, chato, limita as possibilidades de outros desejos. Um cinema cai bem, mas com quem? Maldito desejo de estar com a pessoa que rouba, como o diabo a nossa paz. Leva embora as flores do apocalipse, contradições de embriaguez de quem deseja desejar.

Desejar uma cama macia, um perdão, roupa nova, vestidos e luvas de pelica. A porrada é certa, e na hora de dormir, vira pro lado e sonha com um anjo que cospe fogo e agarra a saia com garras de dragão.

Homens que desejam e não sabem ter. Não me têm, não mais. Isso é desejo: não desejar querer mais alguém. Para isso fazer o quê? Achar outro corpo para hospedar a libido morta em escamas cintilantes. Matar um e beneficiar a outro.

Desejos matam, mas morre quem não os sacia. Morre quem não arrisca. Morre. Eu morro sempre. Vida louca. Vida minha. Vidinha.
Se não cobiço não estou viva, fim de semana, é tempo de desejar. Mas a quem vou querer nesse fim de mundo? Minha cabeça é confusa e esses tecnológicos encontros me insatisfazem.

Na insatisfação corro riscos. Há tentações em meus porões, creio que ficará difícil sair dessa sem um crime. Crime sem castigo. Eu e minha consciência nos bastamos. Na minha ou na sua (cidade)?

Necessidades

manequim

Naquele dia, acordara diferente. Senti que meus cabelos estavam mais compridos. Sentia-me mais esguia e mais suave, Até no andar; isso eu notei ao caminhar para o banheiro, pois sempre o fiz em correria, já que tenho mania de ‘prender’ aquele xixizinho da madrugada.
Olhei minhas mãos na hora de lavá-las e, nossa! Minhas mãos estavam lindas, sedosas, e as unhas haviam crescido um pouco. Notei que nelas não havia cutículas. Até ali, eu pensei, deveria ter uma explicação. Para tudo havia explicação neste mundo. Até eu olhar meu rosto no espelho, ao escovar os dentes. Falo sério, é verdade, eu nem gostaria de contar a ninguém, mas é maravilhoso, é mágico, sei lá. Meu rostinho. É, rostinho. Eu havia rejuvenescido. Porém, era de uma jovialidade além de física, e embora algumas rugas de expressão se tivessem ido, eu observei no reflexo, um rosto que provavelmente eu deixara para trás havia anos.
Perambulei encantada pela casa, e em meu quarto peguei o celular e tirei fotos de mim. Que sorriso alegre, que…
O gran finale, a hora do banho. Tirei a roupa e não cri no que vi e senti. Um corpo mais magro, pernas roliças e firmes – não que eu fosse flácida antes – entretanto, aquele não era meu corpo, mas não era mesmo. O que não significava impecilho para mim, muito pelo contrário, deveras agradou-me ensaboá-lo, e sentir um arrepiozinho daqueles.
Esperta que sou, fui lá no armário e pesquei um vestidinho que há muito não usava. Sabe como é, uns quilinhos a mais arrasam qualquer mulher solteira.
O vestido escorregou ombro abaixo como uma luva, como calda de morango na garganta. Que delliciosa sensação.
Agora, com os cabelos mais longos, escovei-os com prazer e fui andar na rua para ver se as pessoas notavam a diferença.
Lá fui eu, mais feliz que criança abrindo presentes de aniversário.
Eu não desejava que homens me olhassem com cobiça, nem que mulheres – as vizinhas – me invejassem. Só gostaria que compartilhassem comigo aquela sensação de alegria. De renovação.
Tudo deu errado.
Os homens confundiram as coisas, como sempre. E a maioria das mulheres não sabe mesmo viver sem a inveja.
Como eu gostaria que todos mudassem também. Era bom me sentir mais bonita e cheia de ânimo. Mas algumas sensações, ou as sentimos sozinhos, ou melhor não sentí-las.

Servir

servir

Inspirada no post do amigo Jhônatas, resolvo fazer umas considerações a respeito da nossa convivência. Com tantas filosofias e tantos pensamentos pela rede, vejo, através de blogs dos mais variados segmentos, que ainda nos encontramos desencontrados. A impressão que tenho é que não sabemos bem fazer uso da nossa inteligência.
Dostoievski declarou que a maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é infeliz. Por outro lado Agostinho deflagra a ignorância mais refinada é a ignorância da própria ignorância.
Ora, claro está que somos andarilhos perdidos em nós mesmos. Não quero levantar bandeiras, entretanto, é notável a decadência filosófica da humanidade. Tantas voltas para descobrir que o mundo é redondo. Uau.
O ateísmo, por exemplo, permeia pela blogosfera. Todavia, numa análise mais profunda, sem querer dar uma de antropóloga ou metida a besta, é fácil entender esta sensação de auto-suficiência com as novas ferramentas das novas linguagens com seus hipertextos e afins. Se o sujeito pode comandar, sentado em seu quarto, o seu blog, navegar mundo afora, tendo acesso a todo tipo de informação e imagens, ele se pensa uma espécie de deus. Até porque está onipresente, onisciente na net, e a salvo de qualquer violência. É seu quarto, afinal.
Mas esta sensação é momentânea, como tudo no ser humano. Já andamos por aí sem roupa e sem internet. Neste caso, levando em conta a infinitude das coisas, podemos muito bem esperar por boas novas. E elas sempre vêm.
Não é discurso religioso, nem filosofia infundada, dessas que não chegam a uma conclusão – coisa chata até. Apenas fui inspirada, talvez até por alguém mais esperto e inteligente que eu. Possivelmente, a mesma pessoa que criou os mares, os céus, não?
Bem, a idéia do texto é analisar a falsa auto-suficiência nossa de cada dia. Tem uma mensagem que diz que devemos nos servir uns aos outros. Assim, escrevendo textos sérios que levem à reflexão pacífica entre as pessoas na rede, acho que praticamos, mesmo sem querer, a vontade da sabedoria.
Oxalá.

Confissão

cama
Confissão
é uma palavra, digamos, pesada. No mínimo forte, indutora. Eu preciso confessar. Sim, a consciência pesa depois de uma traição.
Há algum tempo eu me afastei da blogosfera e até escrevi um post meio despedida. Queria dar um tempo e sentia-me esposa da blog, e neste caso, estava perdendo o fogo da paixão, então cometi adultério! Traí a blogosfera com a TV, rádio e outras mídias. Para dizer a verdade até com gente eu traí a bloguinha nossa de cada dia.
Sinto-me um tanto arrependida, entretanto, confesso estar dividida entre dois amores. Dois amantes, cada qual com seus atrativos. Beijos metálicos, ósculos elétricos.
Dizem que ter mais de um amor é errado ou, sei lá, pecado. Mas se ambos nos cobrem de alegria, diferindo apenas nos defeitos…
Um é mais calmo, dá pra passar a noite acordada com ele. Já o outro, em contrapartida, dorme cedo e nem lembra da amante sedenta. Ficar com os dois me parece loucura.
E em meio a esta crise romântica fiquei um bom tempo sozinha, pensando na invalidez dos amores fugidios.
Aos poucos esqueço-me de um, e aos poucos considero a possibilidade de me entregar de corpo e alma para o que me parece mais adequado, o que mostra verdadeiro amor por mim e que aceita meus defeitos, até porque ele tem corretor de textos. Entende minhas falhas que são tantas.
Na madrugada, enquanto vigio meus pensamentos, sinto-me vulgar por constatar minha paixão que era pouca e se apaga a cada dia. Eu menti para o outro amor, caso contrário não estaria aqui, escrevendo no meu bloguinho, como disse um leitor aí.
Leviana, faço amor com outro. Deve ser pecado, mas se há o pecado vem no pacote o perdão. Neste caso minha consciência fica aliviada. Volto para meu primeiro amor, dizem que este é inesquecível. Palavras de poetas numa era eletrônica? Pode ser. Mas aviso que a qualquer momento o barco pode mudar de rumo. Existe um flerte chegando, um terceiro prazer, possivelmente o esposo definitivo.
E ainda quero fazer cinema. Leviana demais. Pode até ser. Ao menos confesso na rede que traí, tive um amante, mas sou humana e falho, entre um beijo e outro. Mesmo eletrônicos, nossos erros são de gente. Hum, acho que isso daria um bom argumento…

Domingo

homem
Domingo é um bom dia. Distração. E até, muitas vezes, um dia de pura comunhão com nada. Ou não. Quem seria eu para profetizar este dia bom.
Domingo é antigo, Raul se entediava por ter que dar pipocas aos macacos. Darwin? Ah, chega desse papo.
Domingo, às vezes pode ser bom. Deveria ser bom, se não fossem esses erros que cometemos nos dias que antecedem este dia.
Domingo é bom, folga, preguiça, jantinha rápida e nenhuma vontade de estar com ele.
Passei um domingo bom. Passei, antes, por ele. É, na verdade, um péssimo dia, se você estiver com homens. Não confie em homens.
Arrependo-me, pois poderia ter passado este dia confiando num beija-flor, numa formiga. Entretanto, estupidamente, pensei em homem, ao invés de resgatar a natureza que não tarda a acabar.
Não confiemos nos homens. Aos domingos menos ainda. Os homens mentem. São hipócritas e não merecem, nem céu, nem inferno. Os homens mentem. Não confiem neles.
Domingo não existe mais. Pena ver as igrejas debatendo-se, num momento em que não há mais homens de confiança. Não, não confiem nos homens.
Tente as borboletas, as gaivoras, corsas. Focas? Experimente qualquer coisa diferente de homens. Até as tartarugas são honestas, mesmo minhocas se prestam a algo. Mas não creiam nos homens.
Não há diabo a nos irar. Nem Deus a errar ou envergonhar-se da criação. É certo que o erro, nós os cometemos. Traimos a nós mesmos. Não creiam em si mesmos. Não acreditem nos homens.
Um bom domingo seria bom sem estar pensando em outrem. Sem estar com vontade de matar a criação. Por que eu tenho como vizinho um homem? Por que não um gato? Uma abelha? Baleia seria pedir demais…
Não peço, exijo: não quero homem por perto. Sobrevivo sem ele, nem quero ser humana mais.
Um domingo seria bom sem falsas palavras, caso tivéssemos coragem de dizer a verdade a respeito de nós mesmos. Não devemos crer na gente. O povo mente. Teu marido mente. Tua esposa mente.
Um bom domingo seria estar só, em meio a pipocas, esquecendo-se da humanidade, e assistindo várias vezes aquele mesmo filme.
Domingo que nada!
Homens nada valem, afinal. Não confie na humanidade. O homem errou sempre. Mentiu sempre.
Quem dera ser uma simples borboleta, ou um leão dos bons.
Provavelmente adestrariam-me, porque homem não presta. É puro veneno que matou baleias e esperanças.
Domingo só é bom se for de mentira. Não procure a verdade, ela não te libertará.
Antes, te mostrará quão falso é o homem. Não acreditem nos homens. Seja um beija-flor. De preferência se for domingo.

Asas que ferem

ok

Dorme o pássaro, escondido nas asas da mãe;
Acordam a ira e o prazer da vingança
Esperando o fim das coisas
Que não acabam, e perduram no pássaro duro pela manhã.
Serão insetos ao anoitecer que
Entre aranhas nas paredes um doido em metamorfose
Preferiu morrer a ver a nova luz do sol.
Nos Estados Unidos elegem nova mídia
Anti-Cristo no governo e café da manhã
Com pássaro engaiolado nas cobertas da lendária mãe.
Para que ler jornal, ou fazer poemas?
Versículos que não me dizem
Onde anda o pássaro ferido, o cantador
De mentiras…
Esquadrinho meu corpo
Talvez o coração. E vejo solitária sensação
De fim das coisas que não se vão.
Impróprio lembrar de suas asas.
Inútil fustigar ira ou prazer.
Dorme às seis da tarde, mas comigo não vê
O amanhecer das coisas que não se acabam.