Sol com mamão

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Andei longe de casa por alguns meses. Para meu lagarto, o Pery, foram longos meses, já que o bichinho, de um ano e meio, ficara triste. Mal comia. Escondera-se no terraço da casa, seu habitat natural. Eu até duvidei, mas ele estava mesmo arredio e triste. Vejam só, um pecilotérmico sofrendo de amor e saudades.
Quando retornei de minha aventura, e eu sempre volto, quis vê-lo. Então, eu preparei uma salada de mamão com ovo batido que ele adorava. Não apareceu na hora, no entanto. Constatei, um tempo depois, que a comidinha havia desaparecido. Alguém estava com muito apetite.
Fiquei feliz, mas ainda queria vê-lo. Eu também sentia saudades, não era privilégio do Pery. Eu também tinha sentimentos. Igualmente perdia o apetite quando em tempos de saudades e separação. Eu o amava, afinal ele viera para mim ainda um bebê e dormia enroladinho debaixo do meu travesseiro. Acho que ele confundiu minha ausência com falta de amor. De alguma forma seu amor por mim havia esfriado.
Horas mais tarde subi ao terraço e dei com ele nas suas pedras, pegando seu solzinho costumeiro.
Em silêncio, me aproximei e sentei-me bem próximo. Com gestos calmos, pois verifiquei que o animal tornara-se arisco. Fiquei triste.
Passamos momentos silenciosos. Estáticos, ficamos nos fitando todo o tempo, nos avaliando. Avaliando a vida. A mágoa da separação. Medíamos o tamanho de nossas falhas, a falta de consideração por parte dos que amamos.
Ele estava crescido e lindo, porém, faltava um pedacinho de sua calda. Os lagartos, para sobrevivência, muitas vezes comem seus rabos, pois eles se regeneram.
Fiquei magoada com aquilo. Seria mais fácil ele aceitar a comida que lhe davam, ao invés de se multilar. E tudo por amor a mim.
Uma lágrima rolou em meu rosto, já que eu também sentia-me mutilada de alguma forma. Todavia, o bichinho não entenderia essas analogias. Eu não merecia perdão.
De repente ele agitou-se e se foi para dentro de uma poltrona velha, sua casa.
Fechei os olhos e pensei que por mais que estivéssemos tristes, desfrutamos naquela manhã do calor do sol.
Porque ao menos o sol, definitivamente, nascia para todos.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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6 respostas para Sol com mamão

  1. Daisy disse:

    Estive ausente, amigos, mas amei vê-los por aqui. DJABAL, PAULINHO, MARCELA E ROBSON, visitá-los-ei 😉
    Beijos!!!!

  2. Que barato!

    Esse texto daria um belo curta!

    Beijos!

  3. Marcela disse:

    Ficar sem comer da angústia mesmo , der mais atemção e comdinhas fresquinha a ele .
    bjs querida! amada!

  4. Djabal disse:

    Os pequenos animais são aqueles que despertam em nós grandes sensações de perda, de amor, e de afeto. São coisas muitas vezes esquecidas lá dentro, e ele nos diz: “Saia para pescar.” Foi o que ele fez com você. E pescou e nos deu essa confissão linda. E companhia, e culpa e o rabo dele já estará regenerado, ao vê-la novamente. Beijos.

  5. paulovilmar disse:

    Day!
    O Pery doou-se, por amor, a ponto de perder parte da cauda, já, nós, buscamos apenas o que o amor tem a nos oferecer… depois filosofamos ao sol!
    Beijos!

Sua opinião me interessa ;)

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