Vento preso entre as montanhas

no ar

O homem estava cansado daquele fardo. Seu suor era pesado e salgado. A boca ressequida desistira de beijar. Os lábios rachados já não sorriam mais. As montanhas ficaram altas para seu pasto e suas pernas. Ele rugia de madrugada e roçava pela manhã o que restara da lavoura de sua vida.
Ele era um só, mas as dores e dívidas eram várias. Sem fim. A mulher se fora, doença infernal. A moça da fazenda vizinha, também infernal, ia, às vezes, brincar com seu corpo já pouco viril.
Era deserta aquela banda da terra e a menina se fartava de um mel ralo e sem amor, desmaiando no colo daquele homem ressentido e fraco. O fazendeiro não era mais que esquálido ser sem esperança, nem céu e nem a terra o adivinhavam mais. O sol ia e vinha. Somente seu rosto curtia naqueles dias.
E lá vinha a fogosa moça, cabelo de milho e seios de pera, bolinar sua solidão. O cão, latindo espreguiçava-se. A velha Bíblia enfeitava a estante rústica no meio da sala onde ele não mais estava.
Seu quarto tinha mofo. Seu pênis tinha bolor, que a menina lambia com misericórdia e raiva.
Naquelas bandas não tinham escolha. Ele preferiria estar morto. E ela, longe, com um belo rapaz de vinte anos. Nem um, nem outro tinham opção. O morro uivava na roça e o viúvo vomitava a cachaça envelhecida. Faziam amor de olhos abertos e ela engravidou.
O bastardo filho do sol, o filho da solidão daquelas bandas abandonadas. O garoto cresce em silêncio enquanto a moça envelhecida também, costura seu arrependimento e não mais vê seu rapaz de vinte anos.
O pai, com cara de avô ainda vomita com um mato entre os dentes. Naquelas bandas, um garoto não fala e nem ouve vozes. Comem o jantar feito na lenha e o povoado uiva aquela gente maldita.
Ela dorme nua e ainda tem fogo nas ventas. Mas ele desiste do sexo que já não dá prazer. Olha o filho e depois para o céu. O cachorro late, enquanto ela escolhe o melhor terno para o homem. O enterro seria digno naquelas bandas sem funeral.

Nota – Nem sempre a vida é triste. Bom mesmo é vê-la assim.

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4 comentários em “Vento preso entre as montanhas

  1. Paulito, amigão! Fui no teu blog e não consegui postar um comment. Mas tentarei de novo. Por lá sempre vale a pena estar.
    Beijão, querido. 🙂

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