Manuscritos

20090315-fogo-0051

A vida, feita de instantes, não surpreende mais. Bom e mau é você que acorda às tantas e olha ao redor como se o mundo tivesse acabado. Em meio a apocalípticos arrotos, você encara um banho frio porque houve batida de carro, o poste se foi com os fios. Teus cabelos desgrenhados te deixam até mais bonito, mas nem só de beleza sobrevive tua concupiscência.
O lodo e a máscara de Veneza não mais te caem bem. Acabou o carnaval e já é junho, festa de bolos e milho, quentão é meu coração e ainda bem que tenho linda bota e botafogo não ganha, desliga esta televisão, dê descarga e vá logo!
É chegada a minha hora, desta vez eu vou escolher. Pode ser que acerte, e mesmo se eu errar, que bom errar sozinha. Meu nome é Suzana e sou escritora. Medieval, ainda creio em sacrifícios, mulher sangrando, masmorra e muitos amores. Sou bonita e falo muito entre amigos, até descobrí-los inimigos do meu ser.
Este cara aqui na minha cama é o Flávio, um homem, como podem ver, bem apanhado, magro e gentil. Mas não é o meu homem. Aliás, nunca é.
Preciso terminar um conto, pois publico no jornal Esfera, pois é, um grande jornal, porém, meu livro de ficção, “Arroubos de uma mulher sã” ainda não terminei e já gastei todo o dinheiro adiantado. Esse aí só dorme. Acabou nosso caso. Ele não me ama e eu começo a odiá-lo.
Meu nome é Cristina, Suzana é pseudônimo. Ambos são bregas, feios. Eu queria me chamar Anna. Anna Karenina eu queria ser. Mas ele me fez de vadia sem vódka e até quis me enganar com aliança e casório. Eu acho que acabamos. Ele me odeia e eu o desprezo.
Tenho várias botas e não sei qual usar no domingo. Uma de cano longo é perfeita, e cano longo tem o revólver que inventei para matar este que dorme ao meu lado. Ele me deixa e eu morro sem ele. Fez de conta que era eu uma princesa. Só que eu era mais a bruxa que enfeitiça.
Esta é outra personagem, do tal livro que não termino. Só manuscritos que eu sempre toco fogo. Meu nome é tristeza e este que dormia aqui chamava-se ladrão. De todos os meus sonhos eu sonhei escrever ladainhas, sou expert, não acham?
Meu nome é Maria, este é de batismo. Sou Maria, ele é João. João Ninguém é ele.
Eu, sou solidão. Esta cama aí vazia é minha há muito tempo, mas vou jogá-la fora. Vou viajar. Depois termino a estória. Ela não tem mesmo fim. São episódios, sou oportunista, ganho dinheiro com pseudônimos eróticos.
Pernóstico ele era. Eu sou pobre e soberba. Meu nome mesmo é Katrina, que rima com latrina, onde o joguei em pedaços de fotografia.
Esse cachorro não para de latir. O cachorro mesmo, um negro labrador, gordo e chato da vizinha. Nem digo quem ouço no rádio, aliás, computador.
Quis ser romântica, mas é MP3. É um louvor, música gospel, leveza em meu ser. Essa é outra personagem. O cara paga bem. Ele é o João Ninguém, entretanto, ama como poucos. Eu sou sonífero, ele é festa. Meu nome é ele, e ele anônimo é. O livro, eu vou conseguir… terminar.

[Para Anna Karenina]

Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo. (Tolstoi)

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12 comentários em “Manuscritos

  1. Eu chego a pensar nessa pluraridade que há em nós. A hora em que despertamos todas as personagens, adjetivando-as mediante determinado ponto de vista… Essa alteridade é sinônimo espiritual: Encarnação.

    beijos

  2. “meu amor
    teu cabelo é um reino
    onde o rei é a escuridão
    tua fronte é um vôo de flores

    tua cabeça uma selva ágil
    cheia de aves que dormem
    teus seios de abelhas brancas
    no galho que é teu corpo
    teu corpo pra mim é Abril
    cada axila aproxima a primavera

    tuas coxas alvas cavalos de um carro
    de reis
    são o ritmo de um ótimo cantor
    entre elas sempre há uma doce canção

    meu amor
    tua cabeça é um cofre
    das jóias frias da mente
    teu cabelo é um herói
    que ignora sua derrota
    teu cabelo sobre o ombro é uma tropa
    com vitórias e trombetas

    tuas pernas plantas de sonho
    cujo fruto alimenta o esquecimento

    teus lábios sátrapas em escalarte
    cujo beijo é uma união de reis
    teus pulsos
    sagrados
    são guardiões das chaves do teu sangue
    teus pés nos tornozelos são flores num vaso
    de prata

    em tua beleza o dilema das flautas

    teus olhos são a traição
    de sinos vistos por entre o incenso”

    e.e.cummings

    Ele falou por mim. Ele fala sempre. Beijos.

  3. Foi em um dia de inverno , era bem frio meu coração , não amava e nem me deixava ser amada bonita ,bons olhos. Sim enxergava bem , olhos penetrantes vivos e negros pele branca e um tom de voz intrigante aguçado com uma rouquidão no final , não conseguia amar e se achava bem inteligente e esperta pra sua idade , tinha estudado artes cênicas e cria que a levaram de onde ela podia ser quem ela era , sulapadas da vida tinha ela levado desde a infância pois nervosa a menina de cabelos crespos e ohos gritantes , malcriada e meiga , sentia arrepios mediunicos , criada com avó e bisavó , sentia medo de não ter mãe e de não ser mãe também , passaram-se as infâncias e ela se tornou uma encabulada menina desordenada , amigos de torturas , sim me torturavam me por ser diferente e me amavam por ser eu mesma e sim acabo eu com a cama esvaziada e fria , descubro eu que sou mesmo uma mulher que não consegue amar.

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