Absurdos universalmente cariocas

Já era o quarto ou décimo conhaque. Sem contar as tantas long neck goela abaixo, numa esfusiante alegria mentirosa que só a cerveja trazia. As risadas acabrunhadas que saíam da boca de um homem triste. E dor nos dedos, de tanto rodar aquelas malditas chapinhas.

Olhou para a garota de programa. Disse que estava pagando hora extra, que ela escutasse o resto da estória. Ele preferira uma ouvinte a uma sinistra noitada de enlaces carnais. Sexo, dizia, nem sempre lhe era necessário. Não era um cão. Ao menos, não um que não pensasse, e sofresse por amor. É isso mesmo, ele continuou, estou pagando para ser ouvido. Pagando mico porque não sei se falei mesmo com Deus ontem. Você nem precisa analisar ou tentar adivinhar. Apenas ouça. Caladinha. Sem sorrisos condescendentes, sem ironias. Sem blasfêmeas porque pode ter sido mesmo uma experiência sobrenatural.

Onde eu estava mesmo? Hum… Sim, eu havia chegado em casa tarde da noite, depois que minha mulher dissera que estaria apaixonada por outro, e se foi, sem maiores explicações… O quê? Mais uma long? Tá bem, tá bem! Mas ouça com atenção. Sabe quem é Deus, né? Não? Bem, tudo bem. Eu também não sei. Não por incredulidade, mas, francamente.

Eu nem sei o que é genética, física quântica. Esses fenômenos da criação genial me distanciam de Deus. Micro-universos, um sem fim de galáxias. Quem sou eu, certo? Mais conhaque, meu chapa! Manda ver!

Então, eu chegara bêbado em casa. Não sabia se queria vomitar ou cagar. As duas coisas não dava. Assim começou minha agonia. Sou um homem limpo e não conseguia me imaginar vomitando na pia, enquanto a coisa me borrava nas calças. Chorei copiosamente, olhando-me no espelho. Eu via uma cara vermelha, uma imagem safada rindo de mim. Eu estava horrível, cara!

Meu cigarro acabou de novo. Garçom! Um Hollywood vermelho. Será que alguém ainda se orgulha de consumir coisas vermelhas? É política, bobinha! Você até que é bonitinha… Por que entrou nessa de prostituição? Volta a estudar, porra! Bem, eu nada tenho a ver com sua vida. Foi só uma sugestão. Onde eu parei? Ah… acendeu, obrigado, menina.

Resolvi que sentaria no vaso. Se vomitasse, seria no chão. Eu limparia tudo depois. Seria fácil, se não fosse a descoberta de que eu simplesmente não conseguia levantar-me daquele maldito vaso sanitário. Ou seria vaso sanatório? Eu estaria louco? Precisava me limpar e não tinha papel. Jornal de ontem. Nada! Olhei para o lado. Então eu a vi…

Por que você se coça enquanto eu falo, garota? Quer mais dinheiro? Um presente, sei lá! Dou um batom. D’O Boticário. Sei que vocês gostam…

Eu vi a Bíblia da minha mulher sobre a banqueta que deixávamos no canto do banheiro. Era como um revisteiro, entende? Revisteiro… de revistas! Ah! Então. Passou pela minha cabeça, eu confesso. Ocorreu-me usar aquelas folhas fininhas como papel higiênico. Ei, não precisa fazer esta cara! Aliás, eu estou pagando pelos seus ouvidos e só. Toma, bebe conhaque, talvez você sinta menos culpa. Batom rosa. Combina com sua idade. Deve ter uns vinte, não? Deveria ter pudor sobre isso também. Chega desta estória.

Se Deus existia ou não não era a questão. Ele existia sim, concluía com olhos vermelhos e brilhantes. Eu é que sou um vermezinho ignorante, portanto não tenho obrigação de entender o cara que criou isso tudo. Entretanto, o que chamou minha atenção, foi a atenção que Ele me dispensou naquele vaso.

Quanto custa o batom? Vinte pagam? Toma cem pelo seu silêncio. Bons ouvidos, garota. Estuda para ser terapeuta, psiquiatra. Com essa falsa concentração você vai longe. Pigarro. Ela, já relaxada de conhaque e com o dinheiro, fala, como se falasse sozinha. E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro, com enfeites de prostituta e astuto coração. Quê? Ela olhou para ele e riu: Provérbios de Salomão, 7, 10. A putinha era inteligente. Sabedoria ou ex-crente? Voilá!

Ela levantou-se e andou em direção à porta de saída. Ele pensava se fora mesmo Deus que o tirara do vaso e o limpara no chuveiro. Apenas acordara na cama. Limpinho. Gritou para a garota se ela concordava que fora Deus naquele banheiro. Ela joga os cabelos para trás e dá mais um daqueles sorrisos soberbos. Não, não foi Deus. Foi sua mulher! Tá.

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