Na Lua sem Ferrari

voando

Edward estava em busca de coisas grandes para pegar nas mãos. Era um agnóstico às portas de um sonho: ser mais um felizardo a possuir uma Ferrari.
O pai, um industrial farmacêutico e médico. Mãe, uma senhora digna, culta. Edward era filho único. Dr. Master, o pai, viajava muito pelo mundo, um excelente cardiologista renomado e tudo o mais.

Jantavam, mãe e filho.
Prefiro reproduzir o diálogo que contará a história por si só.

Edward estende a mão para a bandeja de prata, afim de servir-se de salada. A austera mãe, a senhora Francisca Dornelles Master. Dois eles. Inconfundível linhagem tradicional da Urca, belo bairro carioca que hospeda um certo rei que canta emoções há décadas e não se cansa.

Edward morde o kani. Aprova e beberica o vinho branco. Faz um tremendo esforço para a mãe não notar sua ansiedade.

_ A salada está perfeita, mamãe.

Ela sorri, enquanto pigarreia discreta, com o guardanapo nos lábios. Quando limpava a garganta desta forma, era sinal de que tinha assunto sério a tratar com o filho. Ele tenta desvencilhar-se.

_ E o homem que não foi à lua, no final das contas. Eu sempre soube.
_ É sobre lua mesmo que quero falar contigo, Edward!
Armadilha perfeita. A lua!
_ Como assim? A senhora anda interessada nessas coisas de astronomia?
_ Mais ou menos. Por você viver no mundo da lua, eu ando preocupada sim.
_ Por favor, não, mãe. Hoje não. Acabei de falar com o pai e ele não vai comprar a minha Ferrari. Mesmo sendo eu o único herdeiro dessa grana toda.
_ Ah… A Ferrari vermelha. Talvez não seja mais um símbolo de requinte milionário. Até jogadores têm.
_ Porque são podres de ricos.
_ Mas falta-lhes requinte e elegância.
_ Isso não importa mais hoje em dia. Parou no tempo, dona Francisca?
_ Não me venha com bobagens. O que você sabe de pós modernidades? Consegue falar de Amstrong e viagens à lua, no jantar. E ainda emenda com Ferrari, e uma suposta herança? Como eu disse: você, Edward Master, vive confortavelmente no mundo da lua. Não precisa de uma Ferrari lá.

Silêncio. Matricídio nem pensar. Ele não iria querer ser o próximo filho apocalíptico nas páginas de jornais.

Hei, suposta herança?

_ O que houve com a nossa grana, mamãe? Ele existe, não é?
_ Claro que sim. São patrimônios sólidos. Edifícios e mais edifícios comerciais. Lojas e shoppings. A fortuna existe sim.
_ Então..
_ Fora do nosso alcance. O banco penhorou tudo. O hospital do teu pai deve mais que país de terceiro mundo!

Edward sentiu mesmo vontade de matar os pais. Mas não o faria, entretanto. Pensando bem, o dinheiro não lhe pertencia. Aquela mágoa era pela Ferrari prometida após o término da faculdade de educação física.
Olhou para a mãe:
_ Estamos duros, é isso?
A mãe termina mais uma taça de vinho.
_ Ainda pode ter um carro bom. Usado, mas em bom estado.
_ Mãe! Eu terminei a faculdade!
_ A julgar pelas notas e os trancos e barrancos… O pastor da Célia está vendendo um Monza. É seu, se você quiser.
Célia era a empregada antiga da família.

Edward não teve dúvidas de que seria capaz de matá-la naquele momento. Não pelo Monza, mas pela ousadia de irritá-lo num momento em que descobre que a faculdade fora em vão. Anos de planos para a Ferrari. Um sonho destruído por um médico lunático que colecionava selos, quadros, iates. Tudo perdido para o fisco, banco e sabe-se lá quem mais.

Levantou-se da mesa e rodeou-a até chegar ao lugar da mãe. Pousou as mãos no encosto de sua cadeira. Fechou os olhos. Acariciou aquele pescoço branquíssimo e sedoso. O perfume maravilhoso, francês como seus delicados modos. Ele estava em transe. Imagens fragmentadas de um carro vermelho, imagens de sangue, de dinheiro voando pela janela da bela mansão. Edward estava fora de si. No mundo obscuro da lua.

Olhou em volta. A sala do pastor era confortável, apesar de simples. Havia uma atmosfera de paz. Não sabia o que era. Sempre achara esse povo meio estranho.

_… E aí, meu filho, o que você fez com as mãos no pescoço de sua mãe?…

Edward imaginava o clima da lua. Aqueles buracos. Que tipo de veículo transitaria por lá, se fosse possível transitar na lua de carro? Talvez algo melhor que Ferrari.

_ E então, Edward? Como está sua mãe, neste momento? Você chegou aqui transtornado, filho.
_ Quanto custa?
_?
_ O Monzinha aí?
_ Ah!…
Jogou o dinheiro na mesa do homem e se foi, olhando para o velho carro como quem olha o carrasco antes de ser morto.

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4 comentários em “Na Lua sem Ferrari

  1. É uma pena que os sonhos sejam hoje em dia tão estreitos, até o direito de sonhar se prende à matéria. No sonho ele poderia passear pela lua inteira, sem qualquer preocupação, principalmente com um carro. Esse obscuro objeto do desejo masculino, tão manjado, aliás. Mas os dias que correm fariam desanimar Pitágoras, que exigia silêncio, respeito e mais, que todo seguidor entregasse seus bens, antes de entrar para os pitagóricos.
    Bem, isso já faz dois mil e quinhentos anos, e de lá para cá, só fazemos melhorar, melhorar e melhorar. O fato que não é novo, mas é bom…., a ausência lhe fez bem, escreve cada dia melhor. Saudades, beijos.

  2. Gostei do conto. Principalmente porque ficou com final aberto. Moça deixei uma lembrança pra ti lá no Máquina de letras. Passa lá pra pegar.
    Um abraço.

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