Nada

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Largara a caneta no sofá, desistindo de anotar a receita. A TV estava cansada. Era uma incrivel sexta-feira. Eu me sentia especial.
Estalei a língua, buscando o gosto do Teacher’s que havia sorvido às dez da manhã. Já eram seis horas da tarde. Almoçara um bife com salada de batatas, havia escovado os dentes e até cochilei. Todavia, eu ainda sentia aquele paladar da bebida em minha boca.
Ter bebido o uísque às dez não me espantara, já que andava tendo longas noites de insônia. Cinco horas, sinto-me ótima e acordada. Então, ter bebido aquela dose às dez, bem. Eu queria alguns gostos diferentes em minha boca.
Não era mais uma menina, e estava longe de ser uma senhora. Até pensei ser tesão. Um desejo ardente de sair pelas ruas desta sexta-feira. Mas não. Era algo inusitado, jamais sentido pelo meu corpo.
Andei pelas minhas lembranças. Procurei nos arquivos nomes de namorados, noivos, maridos, amantes. Ninguém apareceu para um drink. Um oi sequer. Não teriam valido a pena, ou eu estaria mesmo diferente?
Fui para meu blog escrever. Eu escrevia jornalísticamente sobre escatologia. Gostava de teologia, entretanto, sentia-me à beira de algo estranho. Um mundo dentro de mim despia-me daquela forma.
Foi quando mudei de idéia e detectei um desejo incontrolável tomando-me naquela sexta-feira, no final de um dia solitário.
Nada conseguira escrever, já que minha mente insistia em tirar-me toda a roupa e me fazer voar. Como se eu precisasse deixar de ser eu mesma por uns momentos. Sem roupa, sem identidade, sem regras, estatutos ou pudores. Poderia nem ser desejo sexual, mas era algo profundo.
Pensei em beber, porém, sabia que de nada adiantaria.
Havia lido à respeito de Gunnar Vingren, Samuel Nyström, Nils Kastberg, Otto Nelson, homens pentecostais escandinavos. E também deleitei-me com Shirin Ebadi, e chorei pelas mulheres muçulmanas. O apocalipse era em mim. Para mim, naquele final de dia. Eu estava sem homem.
Tropeçando no cão que não saía do meu pé, olhei em seus olhos. Lá no fundo, aquele castanho lembrou-me alguém. Um castanho claro. Os olhos de um amor que eu havia vivido. Aí está.
No mais, fui para o chuveiro, a ducha fria me poria de volta à leitura.
Mas decidira pelo uísque. Era sexta, caramba.

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