Alma hipotecada

mulher

Então o pobre homem. Melhor dizendo, o coitado do homem que tudo havia perdido para o coletor de impostos, viu-se jogado na rua, rua amarga, inóspita e escura rua.
Naquele pequeno país, de setenta mil habitantes, todas as propriedades estavam sujeitas a uma espécie de hipoteca. Rico ou pobre, os proprietários submetiam-se ao todo poderoso banqueiro que atendia pelo nome de Dr. É Meu.
Com a alma moribunda, Eleanor cuspira um pouco de sangue, resíduo da agressão, porque havia resistido na hora do despejo. Olhou na sacola. De de novo conferira seu conteúdo: algumas fotos, duas carambolas, um pouco de café, carne defumada, mel e pão.
Reviveu, em pensamento, os últimos acontecimentos…

_ O senhor pode levar o que puder, em dez minutos. Aproveita que estou de bom humor. Pela lei, sairia imediatamente.
Ele juntara algumas coisas. O velho casaco do falecido amigo, ele vestira. Pobre Pedro laranjeiro. Morrera de um enfarte fulminante há duas semanas. Nem dera tempo de emprestar-lhe o dinheiro. Suando em bicas, só pensava em Anabela que dormia no andar de cima. Foi quando viveu o pior momento de sua vida.
_ Seu tempo acabou! Vai! A partir de agora, a propriedade, e tudo o que nela há, pertencem ao banqueiro!
_ Sim, senhor fiscal. Vou agora mesmo buscar minha mulher que dorme em nosso quarto.
Foi quando um frio percorrera sua espinha:
_ O senhor não entendeu, não é? TUDO o que há na casa, agora pertence ao Dr. É Meu!
_ Minha esposa…
_ Não lhe pertence mais.

Contudo, naquele país, a lei possuía algumas brechas. Neste caso, a esposa poderia reinvindicar seu marido, alegando não ser objeto e poder escolher com quem ficar. Entretanto, Anabela, linda e fresca em seus trinta anos, preferira o banqueiro.
Eleanor, numa angústia profunda, encerrara sua vida dormindo nas vielas e nos bancos da praça. E sofria muita humilhação quando via sua esposa ao lado do Dr. É Meu, ambos felizes, andando pelas ruas como dois apaixonados. Aquele homem podia ter quantas mulheres quisesse. Era a lei. Porém, apenas ele tinha essas regalias.

Noite fria. O homem, ao pegar o casaco do amigo morto, notara uns papéis que caíram do bolso interno do sobretudo. Sem interesse, pegou os documentos no chão e qual não fora sua surpresa ao notar que era um testamento. E percebera, estarrecido e atônito, que o amigo, sem herdeiros, não deixara suas riquezas para o banqueiro que a tudo herdava. Ele, o derrotado Eleanor, era o único herdeiro de toda aquela fortuna de valor incalculável. Depois do Dr. É Meu, Pedro Laranjeiro era o homem mais rico daquele pequeno país. Suas laranjas atravessavam os continentes. Não havia laranjas mais doces e suculentas que aquelas.
Feliz da vida, Eleanor correra ao cartório e imediatamente tomara posse de sua herança.

Estava na bela varanda em sua nova propriedade, quando um de seus criados contara-lhe que Anabela havia sido desprezada pelo Dr. É Meu. Vagueava pela cidade, implorando trabalho para comer e dormir.
Eleanor, coçando o queixo, olhou para o céu. Seus lábios balbuciavam palavras ininteligíveis para o criado. Quando terminara aquela espécie de oração, olhou para o serviçal:
_ Mande buscar Anabela.

Horas depois, lá estava sua linda esposa, entristecida e mal vestida. Eleanor admirava sua beleza, seus cabelos soltos, voando suavemente com a brisa da tarde.
_ Sente-se, Ana.
Ela, timidamente, atendera.
_ Por que deixou-me, no momento em que mais precisei de ti?
Rosto corado:
_ Tive medo da fome e do frio.
_ E ainda sente medo?
_ Não, pois venho padecendo há dias pelas ruas.
_ Aprendeu algo com isso?
Olhos no chão:
_ Sim… Aprendi que é inevitável passar por maus momentos na vida. Quisera tivesse sabido antes, pois não teria deixado o homem que amo, senhor.
Os olhos de Eleanor brilharam com aquelas palavras. Ele levantou-se, caminhou até ela. Pôs suas mãos em seus ombros e a fez levantar-se.
_ Eu perdôo tua traição. A tua sabedoria a redime de tua falta.

O dia nascia e o casal ainda se amava, com paixão jamais experimentada naquele reino.

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4 comentários em “Alma hipotecada

  1. Hehehe
    São variações da espécie humana. Podemos ter dois finais, Lu, mas se ele a mandasse embora, amando-a tanto, talvez ficasse infeliz para sempre por um capricho machista. Mas valeu. (Já vi que tu não perdoa, né?)
    hehehe

  2. Um de nós está mudando. Ou eu estou ficando muito duro ou você está ficando muito mole. Na minha história ele perdoava Ana e depois a mandava embora.
    Um abraço moça.

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