Rosecléa vai casar!

6groom

Ela estava em dúvida. Eram dois vestidos perfeitos. Um, mostrava os peitinhos, ousados eles ficavam no decote. Com vinte e sete anos, estava na hora de largar de ser besta. Mordomia era uma cidade pequena. Achar um homem, tarefa das mais difíceis. Pra transar, tinha os bêbados lá do bar do Zé Palhinha. Porém, para casar, isso era muito mais difícil.

Olhou para o outro vestido. Este mostrava as coxas. O vestido era muito bonito, entretanto, a fazia lembrar daquela noite, no matinho atrás da igreja. E lembrava-lhe também, com amargura, que ainda era meio virgem. Meio virgem.

Estavam felizes. Certos de que aquele seria o melhor momento de suas vidas. Ele, sentado. Ela, em pé. Beijos, beijos. As vozes roucas, mãos ensandecidas. Boca molhada, avidez dos amantes inocentes. Beijo, beijo.

Rosecléa sentira, na ocasião, uma espécie de desmaio. Ouvira uma voz grossa e envelhecida chamando pelo seu nome. Pensou ser a voz de Deus. Sorrira, pensando em como era abençoado seu amor. Mas a surpresa a fizera gritar. Era o Padre Neto, bisbilhoteiro como sempre. Cortara o barato daquela noite.

A menina, mui triste, fora para casa. Odiara o padre Neto, e quanto mais achava que pecava contra sua santidade, mais o odiava por fazê-la pecar.
O fato era que o fato não fora consumado. Pararam no meio do caminho. Meio amor. Meio sexo. Meio virgem.

Armandinho, anos depois. Dez, exatamente. Depois de alguns noivados fracassados e estudos na cidade grande, ele voltara.

Olharam-se no açougue. Na sorveteria. E na lanchonete. Por fim… na igreja! No batizado do sobrinho dele. Suspiros. Lembranças. Uma sensação de algo inacabado.

Começaram a se falar. Ele ia em sua casa e conversavam até tarde. Entretanto, nada de intimidades. Vinte e sete! Ele também. Precisavam se casar.

Assim, no dia do noivado, Rosecléa estava em dúvida. Qual dos dois vestidos?
Optou pelo dos peitinhos. Precisava mostrar que, apesar da idade, eles estavam lá, duros e empinados como antes. As celulites, ela pensou, com um sorrizinho indecente, ele só veria depois de casados.

Estava pronta! Faltavam alguns minutos para as nove. Horário marcado para o jantar de noivado. Dez horas. Gotas de suor na testa. O olhar dos pais inquisidores. A imagem do padre os condenando. Onze horas. Nada.

Até que bateram à porta. Só podia ser. O padre. Sempre ele! Para avisar que o rapaz, num ataque de covardia, se fora para a cidade grande. Desistira do casamento. Rosecléa olhara para o homem com um misto de ânsia de vômito e desejo incontrolável de xingá-lo. De alguma forma ela tinha culpa nesta estória. Chorou um pouco. Crises espirituais e muito desejo contido.

Subiu para seu quarto. Quando todos dormiam, ela rasgou o decote do vestido. Saiu, no meio da noite.

Depois de umas cachacinhas mineiras, olhou atentamente para um rapaz de blusa xadrez. Sorriu convidativa…
E constatou, sorridente, que não era tão ruim assim, o bar do Zé Palhinha.

And the hard
Words
I ever feared to
say
can now be
said:
I love
you.
(Bukowski)

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2 comentários em “Rosecléa vai casar!

  1. Ouvi uma história alguns dias atrás: uma menina diante de um dilema. Dois pretendentes para casamento, sem saber qual escolher, escolheu o dono do carro mais bonito. Você conteou com doçura outra história, outro dilema, que me fez sorrir, entre os peitinhos e as coxas. Restou a semi virgindade e a companhia de Charles. Ótimo, menina. Beijos do homem-aranha.

Sua opinião me interessa ;)

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