A revolta dos corvos – parte I

meninacom corvos
Para Edgar Allan Poe, com receios.

Parte I – O homicídio

Auguste Dupin não tardaria a chegar. Entretanto, era tarde demais. Quando Edgar ligara para a polícia, achou que salvaria a vida de Violet, sua patroa, que agora sangrava como um porco no chão de madeira, no centro da aconchegante sala de estar. Três apunhaladas fatais. Abdômen, pescoço e coração.

A garganta branca, fazia com que seu cadáver tivesse algo de sobrenatural. Como se ela já fosse morta, antes de morrer. E o fraco fogo na lareira contribuía para as sinistras imagens.

Balançou os longos cabelos negros, enquanto com um chute carinhoso afastava o gato, para que este não lambesse o sangue de sua dona. Um raio rasgou o céu, as árvores dançaram ao som de Wagner que a patroa pusera na vitrola, antes de atender a porta.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Sua testa estava úmida de suor, apesar do frio. Outra vez esquecera de mandar chamar o técnico do aquecedor. Pobre Violet, suspirou Edgar, tomando o gato nas mãos, e correndo para a dispensa, um lugar adequado para trancafiá-lo, por hora.

Enquanto uns corvos batiam nas vidraças, reinvindicando o alimento que Violet lhes dava toda tarde, ela encontrava-se no segundo andar, depois de tomar três comprimidos. Valium. Normalmente seria considerado muito, quase suicídio. Contudo, neste caso, era dose normal. A patroa sempre implicava com isso, dizendo que acabaria se matando com tantos remédios. Quanta ironia, sorriu o homem, com dentes tristemente encavalados.

Subiu vagarosamente as escadas com um fumegante chá inglês, sem deixar de dar mais uma olhada para Violet. Sentiu compaixão. Observou aqueles tão bem tratados cabelos que agora, empapados de sangue perdiam o brilho ariano dos cachos. Ainda tinha o rosto de menina, apesar de já ter completado vinte e seis. O outrora alegre corpo, jazia inanimado, com as pernas levemente abertas no tapete grosso.

Mais um trovão. Falta luz, como era de se esperar. Às escuras, Edgar apalpa os consoles do corredor, no segundo andar para alcançar as velas. As lamparinas ficavam na cozinha. Não desceria todos aqueles degraus, mesmo porque ela esperava seu chá com ansiedade. E o rapaz não quereria vê-la nervosa outra vez.

Acendeu as velas num castiçal de prata com três buracos. Porém, antes, dirigiu-se ao sótão. Precisava fechar os portigos, antes que aqueles odiosos morcegos invadissem a casa. E, certamente eles não eram frugíveros. Aquelas raposas voadoras adqüiriram o hábito de beber sangue depois que a cidade, há um século, fora devastada por uma praga de gafanhotos. Os moradores sobreviveram comento carne e leite. Não tiveram boa colheita por décadas. Tempo suficiente para que os animais adaptassem seus hábitos à nova realidade. Desta forma, voavam de dia e comiam carne.

O rapaz fechou as janelas. Olhou o relógio. Com dificuldade constatou já passar das 17:00. Logo o detetive Dupin chegaria. Refletiu no que realmente deveria dizer a ele. Aquele sim, uma raposa velha. Não havia um crime que não desvendasse. Sempre escreviam sobre ele no The Spectator . O policial era cristão protestante e tinha lá suas esquisitices, todavia, não se tinha notícias de homem mais correto naquela região.

O franzino e alto mordomo não conseguia raciocinar, pois ela o gritava, desejando seu maldito chá. Quando estava prestes a entrar no quarto, empalideceu mortalmente, ao olhar pela janela. A última pessoa que ele esperava ver, acabava de estacionar o Jaguar no pátio da mansão vitoriana. Com as pernas trêmulas, abafou um grito homossexual. Seus lábios só conseguiram sussurrar socorro!

(Continua)

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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4 respostas para A revolta dos corvos – parte I

  1. Pingback: A revolta dos corvos – parte II « A Fênix Apoplética Blog da Dai:)

  2. JLM disse:

    Olá

    Tem um doido aí sorteando os dois livros do Dexter, aquele serial killer que mata serial killers. Pra saber como particpar, clique aqui.

    1 abraço

  3. Daisy disse:

    Ah, Erwin… vc sempre mata as charadas, pois eu estava em dúvida entre um e outro. Elementar, meu caro. Por isso vc lembrou do Arthur C.Doyle hehe. Mas Poe tem mais a ver com minhas coisas de cinema, pela descrição e velocidade de cenas, no que meu primeiro texto está deficiente, mas vou aprimorar.
    Muito obrigada, meu queridíssimo e mui gentil amigo.
    Um beeeijo… que dure todo final de semana 🙂

  4. Djabal disse:

    Até agora gostei do que li. Sombrio, antigo, elegante e misterioso. O clima e o ambiente lembraram-me Arthur C.Doyle também. Mas homenagear o Edgard A. Poe é uma tarefa indispensável. E você está fazendo isso, como sempre, muito bem. As descrições são gostosas de ler, e o grito homo muito mais. A curiosidade está com o botão ligado.Beijos.

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