A revolta dos corvos – parte II

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Leia a primeira parte, por favor.

A Revelação

Edgar pousou a mão no peito. Calma, Edgar, muita calma.
A xícara despedaçara-se no chão. Arrastando os cacos com os pés para um canto, o rapaz, mais calmo, respirou fundo. Um frio brilho cobriu o seu olhar.

Resolveu que desceria e o enfrentaria. Onde ele conseguira aquele Jaguar. Era antigo. Achou muito estranho, pois Joe I’kselam e sua BMW preta eram inseparáveis. Provavelmente alugara o Jaguar para impressioná-lo, pensou. O que tanto temia estava prestes a acontecer. Com a chegada daquele homem, certamente todos correriam risco de vida. E ele ainda precisava receber o detetive Dupin, pois o assassino de Violet não ficaria impune. Era um juramento!

O visitante encontrava-se no jardim generosamente coberto de tulipas, narcissus, hyacinthus, íris, lírios e amarillis. Ainda que muito bem cuidado, naquele final de tarde especialmente, parecia sem vida.

Joe I’kselam observou os passos desengonçados do serviçal. Sorriu irônico. Perguntava-se até onde iria a ousadia daquele personagem. Quase folclórico, Joe nem havia decidido por sua personalidade ao certo. Só num último momento soubera que o rapaz era gay.

Edgar diminuía a velocidade dos passos, como que um animal preparando-se para atacar. As longas unhas estavam afiadas. Mais uma vez o escritor sorriu de sua coragem. Por um momento teve ímpetos de abrir os braços , entretanto, ele estava ali com um outro objetivo. Cenho franzido.

_ Olá, Edgar! Belo jardim. Meus pulmões folgam com a natureza ao redor.

O rapaz o fita em silêncio. Aponta o banco de pedra. Sentam-se. O mordomo esfrega as mãos. Rompe o silêncio:

_ Devo supor que desististe do livro. Que outro motivo levaria um escritor a entrar no território de seus personagens?

I’kselam revira o casaco de couro. Acende um cigarro, enquanto Edgar tosse discretamente.

_ Ah, desculpe-me, Edgar. Esqueci que você não fuma. – irônico.

Edgar se recompõe:

_ Vamos direto ao assunto. O que houve, afinal? Que carro é esse? É pra fazer clima por estamos no século passado? Onde está a BMW?

Joe, sem parar de rir, olha as flores. Está encantado:

_ Como são lindas! Exatemnete como eu as imaginei… Pobre Violet. Esse jardim era para ela. Para que andasse toda manhã, e pousasse suas mãos em cada uma delas, apaixonada…- suspira e olha Edgar com as feições endurecidas – O editor condenou o projeto. O primeiro conto tá uma porcaria. Disse que para homenagear Edgar Allan Poe, tenho que ter culhão.

O mordomo ri. Mão tapando a boca.

_ Você está mesmo fracassado, escritor. Há quanto tempo não lança um livro? Espere, deixa ver. Desde a morte trágica da senhora I’kselam? Pobre escritor de romances obscuros. Sua vida virou ficção. Quem matou sua mulher? Ah! – mordaz – não foi ninguém mais que aquele teu amado carro…

_ Chega! Para personagem prestes a ser apagado, você está indo longe demais. Vim para dizer que acabou. Todos vocês morrerão. O livro está ruim. Repleto de erros primários. Confuso. A editora pulou fora. Estamos todos mortos. Nada mais faz sentido. Não sou Poe, não tenho vida nas entranhas. O vale secou. Não tenho Elenor.

O rapaz olha o escritor com certa comiseração. Um corvo pousa sobre a árvore defronte a eles.

_ Convenhamos. Antes, poderia até ser. Mas hoje, querer homenagear Edgar Allan Poe, você, com essa cabeça desequilibrada? Tem dó.

O escritor fecha os olhos, com uma tulipa na mão:

_ Este beijo em tua fronte deponho. Vou partir. E bem pode, quem parte, francamente aqui vir confessar-te que bastante razão tinhas, quando comparaste meus dias a um sonho… O que vejo, o que sou e suponho não é mais que um sonho num sonho.

O corvo solta um grunhido.

_ Gosto das poesias de Poe, – disse Edgar, por um momento baixando a guarda. Mas voltou à defensiva. Partiria para o ataque, finalmente.

_ Escritor, nada tenho contra ti, fui criado manso e amigo. Mordomo.Tu me concebeste, não sou muito satisfeito com seu pouco caso ao me compor. Porém, digo que este conto vai ser terminado. A morte de Violet não ficará impune!

Quando Joe I’kselam iria retrucar, sentiu forte pancada na cabeça. A última imagem que viu, foi a da velha senhora, tia de Violet, com um bule de chá na mão, e um sorrisinho de vitória nos lábios enrugados.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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8 respostas para A revolta dos corvos – parte II

  1. Pingback: A revolta dos corvos – parte I « A Fênix Apoplética e o Blog da Dai:)

  2. Daisy disse:

    “Lendo eu” foi uma fofice, Marcela hehehehehehe.
    Beijo, valeu, linda!

  3. Marcela disse:

    O quão humilde você , (Lendo eu,?) você escreve e muito! mas eh claro ou sua modesta está em alta ,sei lá…
    Para com isso,ou continue…

  4. Marcela disse:

    Ui! Que arrepiante ,belo.

  5. Daisy disse:

    Erwin,
    Você mora no meu coração. Sua gentileza é sem fim. Não canso de dizer o quanto me orgulho de ter um amigo do teu quilate. Um escritor de tamanho valor, lendo eu 🙂
    Beijo, meu querido.

  6. Daisy disse:

    Jeff,
    Agradeço sua boa vontade de sempre em ajudar-me. Eu faço uma espécie de curso de escrever online contigo, e o bom é que, além de ser de graça, você é uma graça (acho que não gosta desses trocadilhos estúpidos hehe)

    Beijo e valeu! 🙂

  7. Djabal disse:

    A trama começou a pegar ritmo. Mistério nos já temos, espero que tenhamos algum suspense também. A história está se cobrindo de carne sobre o esqueleto. Gostei do que li. Beijos.

  8. JLM disse:

    uau, q evolução! deu uma alma pra 1ª parte. é um recurso q já vi em outros escritos, começando pelo dom quixote, mas q sempre causa curiosidade no leitor saber oq vai acontecer numa história tão fantasiosa. mandou bem.

    qto à proposta, vou pensar com carinho oq acho do i’kselam. 😉

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