Quente

Não quero me sentir assim. Jamais. Não vale a pena endurecer o coração, ou deixá-lo vivo apenas de forma orgânica, e o corpo esvair-se em ressentimentos. Prefiro ser de verdade, gente humana, que sofre e passa pelo que tem que passar. Não temer e não desejar ser temido. Encaro de frente quase tudo. Talvez não a morte nem o sol, como já disse o pensador. Entretanto, sei que é preciso ser guerreiro, levantar depois de um tombo. Alegrar-se com com um presentinho, ou um vento no final da tarde. Comer legumes, emagrecer. Depois, mais sorvete de goiaba, sem ser bicho dela. Sou da cidade grande, eufórica, ando pela cidade e não vejo os bandidos. Um amigo diria que é por causa da venda nos olhos. Mas não vejo violência, não percebo. O ser humano pode, se quiser, ver apenas o que olhar com o coração. Não permita ser de pau, ou cara de pau. Faça pulsar seu coração, lute. Ore pelas vítimas da minha cidade, mas continue se divertindo. É verão. Praia e brisa. Eu tenho sorte.

Oscar, o Pintarroxo, Wilde e novas amizades!

Parece confuso. E é mesmo. Explico, amigo. Posso te chamar de amigo? Creio que sim: se entrou aqui, parece confiável. Fica à vontade, meu camarada.
É que eu estava relendo uns contos do Wilde. Os preferidos. Para comparar as escritas, as mudanças de comportamento, mudanças ortográficas – é um livro antigo, enfim. Passei o final de semana lendo Oscar Wilde. Um pouco de Allan Poe, confesso. Releituras. Sou um pouco passado de idade. Um jovem senhor.
De Poe, deliciei-me com O gato preto – que sempre me assusta, Manuscrito encontrato numa garrafaEleonora! Mas vamos ao Wilde:
Reparou no tremor de minhas mãos, não é? Muito observador. Ando deveras meio trêmulo. Estou apaixonado por uma menina. Dezoito anos e meio, veja só!
Olha aqui, na tela do computador, esta notícia: Dois pastores evangélicos se casam. Com testemunha e tudo. Eu, bem, confesso que assustou-me a notícia. Não pela peculiaridade do casal. Mas a peculiaridade de serem, ou se dizerem pastores. Conheço as coisas pentecostais. E lá não tem benevolência com certas… opções.
Eu havia acabado de ler O amigo dedicado, do Wilde. Se não leu ainda, precisas!

Ah!… Este conto dele relata as falcatruas da amizade. Ou o que o homem supõe ser amizade. É a estória de um homem rico que explora um rapazinho humilde, em nome de sua “sincera” amizade. É triste. Muito triste. Principalmente a ingenuidade de Joãozinho que acredita cegamente nas coisas que o homem fala. Um final terrível. E o lúdico dos lúdicos: a estória é narrada por um pintarroxo, que tem como ouvintes um rato celibatário convicto e uma pata, mãe de família. Uma lindeza estes contos de Oscar Wilde.

Sim! Quando terminei a estória, olhei pela janela e fiquei imaginando se haveria no mundo amizade verdadeira. Um amigo, desses que nos ouvem caladinhos. Assim como você. Sede? Bebe água, está fresca. Como ia dizendo, foi quando deparei com a notícia dos rapazes homossexuais. Embaralhou minha cuca. Pastores? De que ovelhas serão? Serão bons amigos? E o Joãozinho me gritando: Quer ser meu amigo, como o Moleiro?…

Levantei-me e fui ao quarto pegar o livro, a fim de ler o conto para o meu visitante. Porém ele não esperou. Depois de beber água e descansar em minha varanda, ele se foi, como todo amigo faz.

Eles simplesmente se vão. Este voou, sem ouvir a estória do pintarroxo. Talvez ele não fosse amigo dos pintarroxos. Era um pardal. E não quis ser meu amigo.

nervos rompidos

mulher_sangue

Ânimo, ânimo!

Aquela voz… aquele cheiro de éter. Os olhos do médico verdes por baixo dos óculos. Ânimo! Reage!

Uma sensação incrível toma conta de mim. Era confortável me sentir nua, me deixava mais à vontade. Dava mais confiança.
Estava sedada. Sei disso porque não sentia dor. Era para sentir. Mas no lugar disso, uma sensação tão boa. Lembranças começaram a visitar-me. Meu espírito subia e descia, juntinho com minha tranquila respiração…

Estava debaixo do chuveiro. César havia me procurado a noite toda. Mas eu não quisera, não o amava mais. Eu estava muito bonita. Uma geral na pele; lifting, drenagem linfática. Estava linda e fria.

À força! Filho da puta. Doeu. Uma dor de coração. Fina e insistente.
As lágrimas quentes destoavam da ducha gelada. Lembrei de minha infância.

Meu avô era músico. Cada criança que nascia na família, ele fazia uma música. A minha era um bolerinho lindo. Sorria para um sofredor… Não conhecia a melodia, só a letra. Ele morreu antes, o meu avô… Nunca me interessei em ir à Biblioteca Nacional pegar a partitura. Um bolero…

Meu gato ficara espantado com meus gritos. A brutalidade de César era realmente repulsiva. Lembro ter caído no chão. Bum! O gatinho saíra correndo. Miaaauuu! Inclemente, me possuiu alí no chão. Eu arranhava ele, suas costas, o mordia. Parecia gostar, pois se excitava mais e mais.

Acho que tem beija flor na música. Um bolero com beija flor pode ser legal. Confesso que desconfio da qualidade. Sou ridícula. O avô era maestro.

Entretanto, música pode ser linda com uns dois ou três acordes. Música vem dos anjos. Do céu. Da alma….

Estou sedada. Estou sedada. Se…da…da. O teto é branco. Os olhos do médico são lindos. Quero eles. Agora sinto desejo. Deve ser a droga. Tento estender a mão para alcançá-lo, a sua mão. Beijá-la. Esfregá-la em meus… lábios. Estou nua. Sedada é bom, parece que vou voar. Vou…

César tornara-se asqueroso para mim. Seu hálito de uísque e charuto. Seus dólares, a cocaína. E aqueles amigos insuportáveis. Todos de olho em mim. Desejavam-me. Aliás, tudo que era de César. Mas era a César o que é de César. Só olhavam. Eu vomitava só de pensar.

Estou com quatro anos e brinco de boneca. Não, não quatro. Sim, seis anos… quase dez. Bebi uma garrafa de sinzano miniatura. Na estante do meu avô. Danço com minha boneca. O avô toca o trombone. Será que é a minha canção? Estou inocentemente bêbada. Beijo a boca da boneca e danço bolero…

Escorrego no banheiro. Sangue. Muito sangue. Cortei o pulso no vidro de bancada. Minha mão está pendurada. À César…

Um litro de sangue! Ai, meu Deus, vou morrer, né? Depois de tudo que houve. Que tristeza, morrerei assim, nua e sedada num hospital, apaixonada pelo médico de olhos verdes!

Não… não dá para ler seu nome. Quantos litros de sangue ainda tenho? Três, um pouco mais… já era meu tendão. Tendão e nervo esfacelados. Paralizada a mão. Bem me quer, mal me quer… sem mão.

Tentou suicídio?

Eu?! Logo eu, que amo a vida?

Só não amava mais o César! Cachorro, fedorento. Mau. Lobo mau…

Chapeuzinho vermelho eu era. Teatro na escola. Errei a fala. Todos riem. Ha-ha-ha!

Vou dormir. Sono. Talvez sobreviva. Não chamem o César. Quero um amante. Pode ser o senhor, doutor. Pode ser qualquer um… O bolero. Tá ouvindo, doutor? É… é lindo!…

Indicações by Dai :)

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Na minha opinião o filme é cult pela direção. Com cenário e trilha sonora apropriados aos questionamentos das décadas de 60 e 70, onde Pink Floyd é o carro chefe na trilha sonora que levou pelo menos a metade do orçamento (!)
Eu gosto de cinema canadense, principalmente falado em francês, como C.R.A.Z.Y.

Sinopse

Zac (interpretado por Émile Vallée até os oito anos e por Marc-André Grondin na idade madura) é filho do rigoroso Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx). Com a mãe, ele tem uma relação estreita; com o pai é mais complicado. Incompreendido por ambos.
Ao lado de quatro irmãos, Zac cresce sentindo desejos homossexuais, enquanto tenta lidar com a religiosidade da mãe e a intolerância do pai, entre os anos 60 a 80.
Argumentos para bons roteiros não são muitos, por isso o roteirista precisa buscar pérolas, sejam nos diálogos, na composição dos personagens, etc.
Neste filme Jean-Marc Vallée desempenha uma direção contundente no sentido de captar a tensão dos personagens quase que esteorotipados, ou melhor, são mesmo estereótipos: dos quatro irmãos Zachary, o protagonista, tem tendências ao homossexualismo, enquanto o irmão mais velho torna-se drogado, outro é intelectual e outro desportista. O desafio é saber trabalhar os tipos comuns. Arquétipos fundamentais para resolver um drama/comédia como C.R.A.Z.Y.
Por aqui o filme estreou em 2005, um ano após seu lançamento, no Canadá.
O que vale o título de cult e mais prêmios é, sem dúvidas, o trabalho de roteiro. Acho perfeito.
Não por acaso o filme levou 11 prêmios Genie (o “Oscar” canadense) e mais 19 prêmios em outros festivais.
É só conferir.