Continho

Era real. Um ano, e nenhum contato. Telefone mudo, fotos perdidas. Em meio a confusas mudanças, ela queria esquecer tudo aquilo. Então, no meio da noite, ao se tocar, descobrira que já não tinha em quem pensar. A vida era mesmo misteriosa, pensou, domirndo em seguida.

Parte ll

No dia seguinte, saira feliz para trabalhar. Sentia-se livre, largada do amor escravo. Não havia mais aquela sensação de abandono. Aquela coisa enjoada e chata. Até seu chefe parecera mais belo, educado. Ah, a felicidade era engraçada, gratuita, boba. Entrou no elevador e deixou a pasta, tudo cair no chão. Aí, aquela mão peluda e perfeita recolherera suas coisas.

Parte lll

Estava apaixonada. Outra vez. Ele era representante de uma empresa que prestava serviços para a empresa em que ela era gerente de compras. Muitos contatos e vendas depois, foram morar juntos. Na casa dele. Tinha piscina e sauna.
E uma “mãe do meu filho” mal resolvida e ainda louca por ele.

Parte lV

Era meia noite. Não conseguia dormir. Dois meses de separação. Tédio, dor, sofrimento, solidão. Dor. O pior de tudo: sabia que demoraria ser feliz de novo. Mas ao menos sabia como sê-lo. Depois de amar, desamar era a melhor parte. Cadê esse sono que não vem…

Sou gay, minha mulher é puta… e meu filho é corno!

Parece mentira, ou algo aparecido. Mas o cara era realmente enfadado das coisas. A mulher, fora linda. O filho também. E ele, o patriarca… Ele era o cara!
Foi quando soube que a mulher, a mais alta e mais bonita, além de desejar um que fosse mais bonito e mais alto que o seu,… – ridículo baixinho – talvez por um estranho redescobrir, ele viu seu filho viado, e sua mulher dando para todos da Vila… e, o que parece mais válido na vida deles: depois de se sentir traído por uma que dava para todos… lembrou d’o quanto ela era ruim e fria.
Repensou a felicidade. E emprestou seu carrão para o filho babaca.
E quem, num momento assim, não quer ser gay?

Nota – Esta é uma estória verdadeira, de uma família aqui do bairro. Vivem normalmente, até porque são diferentes e não anormais. Uns dizem, à luz da Bíblia, da religião, que isto é maldição de maus espíritos que sonham acabar com o homem e sua imagem e semelhança com o Homem. Outros atribuem à desorganização da família como grupo social. Não importa se a família é pobre ou não. Neste caso, são de classe média.
Depois de escrever este texto, até certo ponto tendencioso e quase vulgar, acordei com essas reflexões na caixola. Eu, pessoalmente não ficaria muito confortável em nenhuma dessas condições, seja gay, puta, ou sei lá. Todavia, devo registrar que eles vivem bem e parecem felizes. O pai, ontem, tinha um brilhante sorriso nos lábos, enquanto o filho – que divide a noiva com a rua – também passava tranquilo em seu Santana Quantum preto. A mãe, é dessas mulheres que não aparentam, e talvez não tenha mesmo, problemas como TPM, fracassos sexuais, ou solidão frustrante própria de casamentos. Assim sendo, eles podem estar longe de serem um modelo de família organizada, entretanto, aquela felicidade é real. Ninguém pode fingir estar feliz todos os dias. E se o que valer for ser feliz, caiam aqui preconceitos e conceitos de uma sociedade hipócrita. Tenho dito.