Já fui

Eu disse a ela: Já fui triste, impávido, louco, músico e médico.
Na verdade, falar este tipo de coisa para uma garota denota ainda uma certa loucura. Neste caso eu retiro louco porque ainda sou.
Tirei a rosa mais bonita do jardim da frente. Uma que ainda não desabrochara totalmente. Nova e jovem. Fresca como a minha menina.
Em tempo: eu também já fui jovem. Bonito e arrogante. Fiz fortuna e alguns filhos mimados. Quantos anos? Cinquentinha. Ainda bonito. Viril o suficiente. Rico, esnobe, mas ao mesmo tempo desapegado do dinheiro. Estranho e verossímel. Eu sei.
Queria dar tudo para ela. Meu dinheiro, meu conhecimento, e principalmente meu corpo.
Não tinha vinte ainda. Loucura. Eu estava apaixonado. Morreria por ela.
Depois que fiquei cego, muita coisa mudou. Passei a aceitar a mentira. Não via nada. Se me dissessem: o céu está lindo, eu cria, sem questionar o vento frio.
Ela dissera-me que era linda. Nunca a viram, os amigos, ou meus filhos. Os empregados não se atreveriam.
Dormi com ela. Uma vez só. Foi bom. Foi realmente bom. Mas depois…
Eu sabia, um médico que fica cego, é algo mais profundo do que parece. Dramático. Engraçado.
Era tudo mentira. Ela era uma mentira. Eu já não me importava com as mentiras.
Ela poderia ser menor de idade. Ela poderia ser mais velha. Ela poderia enganar-me por algum tempo. Para sempre.
A única coisa que eu não suportava, era sua ausência. Não exatamente sua ausência. Mas o fato de eu não enxergar o motivo de seu sumiço. Como eu não lia jornais, foi por pura sorte que a empregada, admirada diante da televisão, gritara em meus ouvidos: Patrão! Aquela moça que vinha aqui!… Ela… morreu!
Ela era bonita?! – foi tudo o que eu consegui dizer.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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Uma resposta para Já fui

  1. Djabal disse:

    “A memória de certa manhã.
    Linhas de Virgilio e de Frost.
    A voz de Macedônio Fernández.
    O amor ou o diálogo de uns poucos.
    Certamente são talistmãs, mas nada valem contra a sombra que não posso nomear, contra a sombra não devo nomear.”

    A mesma história, contada sobre outro cego. Achei muita semelhança.
    Bisous.

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