O Fantasma André


Acordei no meio da madrugada. Dava para ouvir os ruídos da festa que ele fazia na sua casa. “Sua” é só maneira de dizer, já que “minha consciência”, por mais confusa ou repleta de informações obsoletas que seja, era minha.
Já havia notado um barulhinho estranho, sempre que eu estava no melhor do sono, geralmente muito feliz num sonho. Então ele começava a arrastar móveis, pôr músicas, remexer os meus velhos vestidos, minha geladeira.
No começo, eu olhava assustada para as paredes do quarto e voltava a dormir. Os cigarros me ajudavam antes. Mas esta noite…
Eu já não fumava mais. Talvez por isso mesmo me vi obrigada a olhá-lo de frente. O fantasma de minha consciência. Um clicheriano ghost.
Pareceu-me esquizofrênico. Seu nome era André. Não falava coisa com coisa. Balbuciava a respeito da minha arte. Qual arte? (Eu mal tinha paciência para tão bizarro diálogo). “Escrever! Você abandonou sua arte de escrever!”
Eu não podia crer naquilo. Estava sem escrever, uma ova! E meus roteiros para televisão? “Ilusão!” (Ainda por cima pessimista).
Estava mesmo sem paciência. E sem cigarros. Não fumo mais. O espectro insistia.
Fui ao banheiro. Olhei dentro dos meus olhos. Aos poucos, fui vendo a bagunça que ele fazia lá dentro! Meus livros mais antigos, André espalhava pelo chão. Livros que eu já não possuía fazia décadas! Bolsas de couro, camisetas personalizadas (Led Zeppelin), discos de vinil (idem); contos e mais contos que eu jogara fora no decorrer dos anos! Impressionante. Ele estava falando sério. Não era festa, afinal. Era uma revolução!
Sentei-me com má vontade e liguei o computador. Mas que o fantasma não se engraçasse, pois não queria mesmo escrever mais por aqui. Enquanto eu escrevia este texto, ele sorria, com uma calça jeans Lee e uns batons vinte e quatro horas nas mãos. Vintage e festeiro, o fantasma André.
Terminei.
Espero dormir melhor esta noite, pensei, e que André me deixasse em paz.
~~~~~~~~

Nota da autora:
– parei de fumar e voltarei a nadar e fazer musculação.
clicheriano ghost porque de tão verdadeiro parece clichê.
André porque um amigo com esse nome instigou o fantasma.
– Tudo descrito no sexto parágrafo eu realmente tive.

Anúncios