Os milagres de Walt Whitman


Milagres

Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo,

ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitman, in “Leaves of Grass”

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Esgoto


Hoje, mergulhei na alma humana meio que sem querer, ao receber uma mensagem d’uma ex-colega de faculdade que me agrediu porque recebeu um e-mail-vírus supostamente remetido por mim. Quão podrezinho pode ser o coração de uma mulher.
Bonita, trabalha na Globo (isso pode até explicar), rica, porém… O que estará faltando neste ser humano, eu me perguntei, boquiaberta, lendo e relendo tanta grosseiria. Palavrão na boca de uma senhora da sociedade? Palavrão que, vez por outra, ouço dos lábios desinformados de jovens de rua, usuários de crack. Por eles sinto compaixão. Mas por esta mulher… é mais que isso. Uma vontade de pegá-la pelos cabelos e voar com ela até um ponto onde ela (nós) possamos ver o mundo com olhos mais ternos, menos mesquinhos.
Perguntei à ela – eu respondi ao e-mail – se eu devia algo. E creio que sim, um dinheirinho emprestado, acho. Pedi que fizesse contato e me dissesse quanto era. Sabe aqueles sufocos de faculdade! Tem dia que não há grana. Eu estava dura nesta época. E ela rica, com seu carrão, presente do maridão.
Meu coração está povoado de vários sentimentos. Repulsa, pena, tristeza. Será a Globo? Ou é mito? Talvez existam pessoas assim em toda parte, quem sabe até dentro de minha casa. É o pecado original.
Possivelmente o porteiro do meu condomínio possa ser um demônio disfarçado, ou minha filha; quem sabe eu mesma não seja uma mulher má, assassina, reacionária, conservadora, racista, histérica?
Deus, não! Mate-me, antes de ser alguém que destrói a manhã de outro com um e-mail tão perverso, de baixo calão, ofensivo, trevoso.
Esta reflexão é minha resposta à sugestão exótica da Meg Santos ao insinuar que eu poderia introduzir as supostas fotos (com areia e tudo) em um esgoto de meu corpo – e ela deu o nome “vulgo”. Pobrezinha. Pobres de nós que nem sabemos como viemos parar aqui. Nem sabemos quando irá aparecer o próximo cabelo branco. Nem conhecemos tanto assim os Céus. Graças à minha ex-amiga, eu vou passar o dia pedindo a Deus que diminua nossa ignorância, o nosso egoísmo, porque as aflições da Meg não são diferentes das dos outros.
O dinheiro escraviza, nutre o ódio. Não lembro quanto lhe devo. Há anos não nos vemos, nem nos falamos.
Quanto devemos, ela e eu, todos nós a Deus pelo ar que respiramos? Pela vida de nossos filhos? Pelo alimento e pela saúde?
Que todos tenham um dia de paz, sem Megs a ferirem seus corações com palavras carregadas de crack, de rua, de ódio e soberba.
Mesmo assim, eu agradeço pela vida desta mulher. Se não fosse por ela, sobre que abóbora eu estaria falando aqui?

Porém minh’alma triste e sem um sonho
murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
como isto é pobre, insípido, enfadonho!

(Fagundes Varela)