Rebember – “Como será que se sentem os velhos?”

Coisas de ancestrais.

Post de 2007 republicado por amor à minha tão querida e amada avó índia pataxó, Maria Theodora de Carvalho. Ela voou como pássaro e se escondeu de mim. Faz cinco anos. Ou cinco minutos. Por isso acredito em eternidade.

….

“Hoje, não sei o porquê desta amarga lembrança. Ou doce lembrança. Ou cruel lembrança… O fato é que lembrei de minha avó: uma índia pataxó que viveu serenamente por noventa e dois anos, sem perder a lucidez ou vontade de viver.

Minha vó criou-me, não que eu não tivesse famíia, mas acho que perceberam que eu precisava estar aos pés daquela índia morena, de pernas firmes, orgulho no coração, com uma boca pequena que sussurrava para mim verdades incríveis.

Ensinamentos que levarei para o resto de minha vida. Para que não fique um post melodramático e nem piegas, vou tentar transcrever para vocês alguns ensinamentos de minha vó Maria Theodora, que, de tanta teimosia, enfrentou seus deuses e decidiu partir, inventando um tombo que fraturou seu fêmur. Atrevida, a minha índia hehe.

Ela dizia:

_ “Não brigo com ninguém, jamais levantei o tom de minha voz. Mas não admito que vozes alheias interfiram em minha vida.”

_ “Trabalhei desde criança. Perdi minha índia mãe ainda criança. Até hoje sinto saudades dela, gostaria de vê-la, ao menos em sonho.”

_ “Não use roupas eróticas. Homem vai sempre entender que você não se dá ao valor.”

_ “Perdi minha gente e vim para o Rio de Janeiro. Vim com uma criança no colo (minha mãe), e mesmo fazendo fila em minha porta, eu pude perceber que homens se aproveitavam de mulher sozinha.”

_ “Casei com Olegário Silva, um capixaba que veio para o Rio como soldado aspirante a músico. Meu marido morreu oficial da polícia militar com vários diplomas, inclusive o de primeiro maestro trombonista da Orquestra Militar da Polícia do Estado da Guanabara.”

_ “Mas minha simplicidade me faz companhia. Tenho dinheiro e casas e conforto. Mas não esqueço minha mãe e a vida simples que levei nas praias de Aracajú, onde desde menina jamais voltei, nunca mais vi meus irmãos que eu tanto amei.”

_ “Perdi, ao longo de minha vida, meu marido, dois filhos, meu único irmão no Rio, meu neto e mesmo assim, quando trovoadas aparecem, me encolho em respeito à natureza. Sempre acreditei em Deus. Sempre amei Nosso Senhor Jesus Cristo, e jamais deixei de acreditar nos espíritos das matas, nos caboclos de lutas.”

_ “Mas quando me casei, não sabia escrever e nem ler. Meu marido, pacientemente me ensinou. Aprendi com boa vontade, porque precisávamos nos comunicar, além de nos amar.”

_ “Quando eu morrer, falem de mim se quiserem. Mas nunca falem que não tive orgulho de minha gente. Falem que fui humilde e jamais valorizei o dinheiro e que sempre o distribui pela minha família e amigos necessitados. Que nunca tive preconceitos. Que meu marido era uma linda mistura que reluzia pele de ébano e que por isso em minha família há brancos, morenos, índios e negros (não é uma ordem necessariamnete): somos a história do Brasil.”

_ “Que presenciei jovens de minha família fumando maconha (ops!), tomando coisas que intitulei ‘loló’ para definir a droga como um troço ruim pra se tomar.”

_”Daisy, eu te criei e te amo. És a neta preferida de minha vida. Espero que continue minha história, que não desista de ser uma mulher de fibra, caráter. Espero que nunca use roupas indecentes para encontrar seu grande amor.”

Eu precisava falar de minha índia. Um amor tão grande que é eterno.”

Não choro pelos mortos. Apenas dou-lhes a dignidade do que foram um dia.

Surtos

A minha vizinha, eu via da janela, cismou que seria uma blogueira. Intelectual. Séria e romântica.

Aprendeu com a filha a mexer na internet. Caiu no chat, no vírus, spams e tudo que tinha direito.

Começou a visitar blogs e sites. Ela queria ser lançada como uma sumidade na rede.

Fez uma lista de assuntos interessantes: música, notícias femininas, psicologia, literatura. Sim! Falaria de livros! – decidira.

Quando a filha chegasse da escola, daria a ótima notícia. A garota, mal humorada, espinhuda e reprovada no ano letivo, em português e literatura, finalmente chegou.

_ Minha filha! Tenho novidades! Vou escrever sobre literatura!

_ Mãe. Não começa. Tive um dia ruim na escola!

_ Você não está entendendo! Vou ser blogueira, já visitei um monte de blogs e sites que falam do assunto.

A adolescente olha para a mãe como se olhasse para seu pior inimigo. Não escondendo a raiva:

_ Como você pode escrever sobre livros se você não lê?!

_ Já pensei nisso também. É muito simples: Eu copio resenhas e posto em meu blog. Sua mãe é esperta, garota!

A menina pensa em voar no pescoço dela. Pondera.

_ Depois conversamos. Fui reprovada em literatua e portugês. Não li a merda do livro de Machado de Assis!

A mulher, nas nuvens, continuava:

_ Já estou decorando um monte de nomes de escritores famosos. “Machado de Assis” você disse?… É aquele português de poesias?

A menina cospe fogo.

_ Não, mãe! Esse é o Fernando Pessoa!

_ Não importa. A partir de hoje sou uma intelectual!

A filha joga a mochila no chão e começa a chorar de raiva.

A mãe, ressentida:

_ Você só pensa em seus problemas. Passei a vida inteira cuidando dessa casa, de seu pai que já morreu, e morreu tarde, o traste…

A garota não aguenta mais:

_ Mãe, foda-se se você cismou que vai deixar de ser burra! EU REPETI DE ANO!

A mulher corre para o computador, embevecida com seus projetos.

_ Pára com esses palavrões, menina! Isso não é educado!

_ Mãe, eu já tentei de tudo, mas não tem jeito. Eu realmente te odeio!

_ Filha, já ouviu falar em Platão? Cecília Meireles? Daisy Carvalho?

_ Essa última não é ecritora, meu Deus!

_ Mas eu li o blog dela!

A garota avança para o computador e o desliga:

_ Mãe, você nunca vai ser blogueira de literatura. Você sabe tanto quanto eu!

_ Errada, sou mais inteligente. Eu sempre colei e me dei bem. Seu avô jamais ficou sabendo.

A garota começa a gritar.

_ Chega! Chega! Você é burra, mãe. Sem noção. Maluca mesmo!

A mãe, olhar vago.

_ Pensando melhor… vou começar com a Bíblia. Essa eu conheço, fui criada…

_ É o apocalipse! É o fim! Socorro!

_ Filha, escute… Seu pai nunca foi corno, sabe…

Olhos arregalados:

_ Do que você está falando?!

_ Você está revoltada porque acha que matei seu pai do coração…

_ Mãe, mãe! Você surtou. Vou te internar.

Dias depois, a mulher, com um notebook, escreve seus pensamnetos, num sanatório das redondezas: “Tudo porque eu queria ser blogueira…”

Eternamente princesa

Conheceram-se aos dezoito anos, mais ou menos. Ou melhor, ela teria seus dezesseis. Estudava para ser professora. Vocação. Ele, queria ser militar. Músico. Clássico e bonito, Hugo ganhara o coração de Josephine, a princesinha professora. Ou princesa professorinha.

Casaram-se. Dois lindos filhos. A cor morena do rei, com a alva pele de Josephine resultaram em filhos de cor âmbar.

Todavia, como em toda família real, os inimigos do rei mancomunavam diabólicos planos para invadir castelos e atravessar as pontes da harmonia familiar.

O rei – agora lembro o primeiro nome, Victório – que, decididamente, não tratava a esposa como rainha, mas como sua eterna princesa, fizera de tudo para protegê-la em redomas de mimos, fazendo todas as suas vontades. Todas mesmo: jóias vindas da Tailândia, batons vermelhos, e vestidos encantadores.

Não raro, cozinhava para a pedagoga, enquanto esta se recostava em almofadas bordadas à mão, sorvendo longos goles de cerveja gelada. Afinal, o país era o Brasil, apesar das descendências de ambos.

Entretanto, apesar daquele grande amor, o monarca tinha um fraco (seu maior inimigo), não podia ver um rabo de saia, fossem as camareiras, vizinhas, princesinhas filhas dos amigos, mucamas, seviçais, amigas. Pobre rei! Sofria quase que esquizofrenicamente com tanta libido. Mas… se Salomão tivera mil mulheres e concubinas, pensava o rei, uma ou outra garfada nas tenras carnes de outra mulher, não faria dele um pecador.

Aliás, sua religião estava longe, bem longe de Israel. No sangue real continha índio, branco e africano. Mediterrâneo? Um rei brasileiro e pacífico, certamente. Frango com cerveja a la D. João VI.

O casamento era perfeito, não era aparência. Isso não. Viviam realmente felizes. A princesa, que não queria ser rainha, ignorava os pulinhos do rei, por puro amor incondicional. E cada dia ficava mais linda. Virtude ser assim, tão longânima? Ao que parece, para ela fazia bem à pele.

Por mais que fossem a realeza, o rei, com seu sangue de músico percussionista, oficial de banda militar, começara a envelhercer. Com alguma tristeza, se olhava no espelho. E quando se comparava à princesa, sentia uma ponta de ciúmes. Ela continuava linda e jovem!

Cabisbaixo, pensou que morreria antes da mulher. E ela, casaria-se de novo?! A fidelidade da amada era nobre. Tudo nela era soberbo e simples. Seu andar, sua discrição. A forma como olhava, de longe, as fugidinhas do rei.

Era eterna, pensara o monarca, enquanto andava pelo pátio do palácio, com o ritmo lento dos lascivos.

Lembrou-se subtamente de Oscar Wilde, e aquela estória do Dorian Gray. Ela… ela não envelheceria, então? Triste, já velho e sem amantes, dedicava-se totalmente a ela.

Porém, numa de suas viagens à casa de campo, apaixonou-se por uma plebéia de dezoito anos. Desesperado, consultou o médico da família e este lhe receitara pílulas de revigoramento sexual. Voilá! De novo o velho rei se debatia entre o prazer e a culpa, com a gazela dos campos.

Certo dia, admirando os jardins da antiga e sóbria casa, lá para os lados das Minas Gerais, olhando o rio que passava submisso nos fundos da mansão, escutou um gritinho. Arrepiou-se, teve um pressentimento. Cansado da vida, das mentiras, das pernas, não conseguira correr. Velho demais, suspirou, caminhando entre assustado e curioso.

Ao chegar nos aposentos do casal, sua jovem princesa, de quase setenta anos (que não aparentavam de jeito nenhum), agonizava. Lágrimas nos olhos. Somente desta vez, o velho músico percebera uma certa agonia em seu olhar. Só agora o monarca percebia a real tristeza da esposa. Só assim, antes de morrer em seus braços, ela dissera, elegante e sem palavras. Por que, meu rei?

E este foi, talvez, o pior entardecer de um velho rei.

Baseado em estória real. Para Maria José (in memorian).

Manhã amputada

Agradecimentos a Jefferson.

Manhã amputada

Lúcio Cesar estava perdido em seus pensamentos. Com o queixo apoiado em uma das mãos, olhava pela vidraçaria do Museu Nacional da Magna Grécia. Não sabia por que, mas desde que acordara, não conseguia tirar do pensamento a lembrança de sua falecida mãe. E de seu doloroso parto. Parecia jamais conseguir acreditar que ele, com apenas trinta anos, ocupava um dos maiores cargos do planeta. Presidente da Academia Mundial de Letras. Mais uma vez relia cópia daquele documento deixado por sua mãe. Hábito que conservava desde que começara a ler, aos três anos de idade.

Acordei com estranha sensação jamais experimentada por mim. Faltava-me algo. Uma dor fina e cortante misturava-se a um mal estar. Abri meus olhos, vagarosamente. Não tinha pressa, pois sabia que havia algo de terrivelmente errado. Muita dor nas costas. Lancinante. Mais pelas lembranças do que pelas fendas sangrentas.

Recordar o horror que fora aquela Guerra era pior do que tudo. Porque eu fracassara!

Não me rendi, entretanto, todos se rebelaram. Não compreenderam a minha paixão. Os que eram meus, viraram-se contra mim na hora da decisão final. Rebeldes, apunhalaram-me pelas costas. Lanças e espadas perfuraram meu corpo, mas minhas costas, estas eram a visão do meu fim.

Minha missão estava cancelada. Urrei, braços estendidos aos céus. “Por quê?!”, eu indagava, com saliva escorrendo pelo canto da boca dolorida. De forma desonrosa eu descobrira o que era amor!…

Com olhos semicerrados, notei gotas de sangue nos lençóis. Na verdade eram poças porque o colchão estava empapado. A dor aumentava. O cérebro captara a dimensão de minha desgraça… Sensação de horror. Um medo quase infantil. Pensei em meu pai. Como eu precisava dele naquele momento de angústia; mais do que o ar e as asas, eu precisava do meu pai. Mas ele estava muito longe daqui. Um grito sufocado: “Pai, estou ferida!”… Caí de joelhos. Enquanto balançava a cabeça, sentia os cabelos colarem em minhas costas, como bandanas de curativo. Seria eu a puta crucial do Apocalipse?

Mas eu ainda podia andar. Levantei-me, com mais angústia do que dor. Mais tristeza do que desespero. Ter sido traída e derrotada, era ver minha existência rompida e anulada. O que seria de mim agora? Qual haveria de ser minha serventia para eles? – Pobres escritores. Desgraçados poetas!…

Cerrei os punhos e blasfemei a minha sorte, com os dentes rangendo. Minha ira ia além da terra e dos céus. Por quê, eu perguntava às minhas entranhas, eu fui me apaixonar por um servo da terra? E não só me apaixonei, como, em sua cama, falei de todos os segredos!

No banheiro, procurei uns comprimidos. Precisava ser forte. A dor aumentara pelo esforço de chegar até lá. Sem perceber, estava chorando. Copiosa e silenciosamente eu chorava. De dor, de solidão. Medo. O chão estava salpicado. Vermelho e branco. Precisava estancar o sangue. E o preservativo do pecado escorria em minha pia. Eu estava acabada!

Sem coragem de olhar as feridas no espelho, apenas vislumbrei um par de olhos negros. Já não havia luz neles. Amar era morrer. E eu estava verdadeiramente morta por amar. Todavia, perguntaria a ele o porquê desta paixão inerente à terra conhecida.

Voltei ao quarto. No lençol, o sangue coagulava aos poucos. O ardor era ressequido. Eu precisava lavar e cuidar das feridas. Eram cortes profundos. Flechas, lanças e punhais mudaram o destino da poesia no planeta. E também trouxeram-me um órgão inusitado: vagina!

De novo levantei. Fui olhar o mundo de minha janela. O céu… Ah, os céus! Tudo estava cinza. Luto por toda parte. Trovoadas ressoavam. Um grito misturou-se aos ruídos. A manhã estava escurecendo cada vez mais. Ou seriam as minhas vistas? O grito chegava cada vez mais perto. Como trovão.

Deitei-me outra vez. Estava cada vez mais fraca. Antes de desmaiar, vi que ele chegara, finalmente. Em seus olhos tristeza, ódio, e um brilho profundo de alerta total.

Ainda ouvi suas palavras como se viessem de muito longe: “O ‘Anjo Guardião dos Escritores’ perdeu as asas, e a Batalha… Há luto na terra e nos céus. A internet entrou em pane. Muita morte, muita solidão.”

E não ouvi mais nada…

Acordei com uma caixa de absorvente higiênico. Eu estava menstruada. Um sangue que não tinha noção da existência.

Augrurus apareceu, como sempre do nada. Minha cara era envergonhada. Pela Batalha perdida. Jamais pelo amor que me fora oferecido na terra.

Ele me olhou, com sua altivez de quem jamais fizera sexo.

_ Foi bom, Anjo dos Poetas, fornicar com essa espécie inferior? Valeu à pena trepar num botequim, ou como ele diria: Sujar-se em espermas passageiros? Estamos todos unidos, com nojo de ti!

Com muita dor, ainda tive coragem de falar para o incestuoso Anjo Investigador:

_ Ao menos não trepei com as pedras, como vacas solitárias. Fiz amor com um homem. Ser humano. Por mais que esteja condenada, eu experimentei uma sensação que vale toda minha existência! Eu amei um poeta!

Augrurus, com a face vermelha, expelindo raios de ira, precipitou-se em minha direção e disse, introduzindo o dedo anular em minha mais profunda ferida:

_ Anjo imbecil e vil: Estás grávida!

Mais uma vez, como tantas outras, Lúcio rasgou o documento, sem conseguir ir até o final. Enxugou as lágrimas e atendeu ao telefonema de Steve Jobs.

Tolices

Quando entra a madrugada e estou sentada, em frente a uma tela de computador, muitas vezes me pego pensando se sou louca, afinal, lá fora estão as pessoas, os animais, as ruas, restaurantes, bares, gente, muita gente! No entanto, estar em casa, olhando o mundo pela ótica digital, causa-me certo alívio, já que a violência não me alcança. Por outro lado, sinto falta de fumaça, carros buzinando.

Meu condomínio é silencioso, salvo pelos latidos estridentes dos meus três vira-latas, que insistem em latir para as mesmas pessoas todos os dias, como se cobrassem impostos pela passagem em nossa calçada.

Paro um pouco de escrever e vou ao quintal, quem sabe seja por um outro motivo. Mas que nada, são os néscios latidos, ao léu muitas vezes. Acho-os estúpidos, mas me rendo à sua inocência e acabo brincando com eles, esquecida do meu site (que estou montando), das leituras, e afins. Quem é o tolo, então?

Olho para os gatos e sinto solidão. São tão silenciosos. Extremamente meticulosos, esses sim, me lembram a responsabilidade. Afinal, revisar o livro do Marcelo Schweitzer, entrar na viagem e tal, é mais interessante do que ficar observando a vida tão igual dos meu bichos.

Peraí. Não os estou a desprezar, entretanto, há tanto para se pensar. Meia-noite-e- quarenta-e-sete e eu não consigo dormir. Tava pensando em escrever algo bem legal. Política, ou um conto daqueles que só faço de tempos em tempos, quando uma musa vem me visitar, lá de longe, da Grécia. Mas não. É falta de inspiração. Agora até os cachorros emudeceram. E o poema – daqueles – não vem.

Isso me leva a pensar que recebemos espíritos, sei lá. Não é só sentar e escrever. É preciso um pouco mais. Uma dose de alma a mais. Uma experiência, ainda que inventada, enfim.

De qualquer forma, é tão bom estarmos vivos. Sabendo que quando acordarmos, a vida vai estar lá, os animais estarão lá, néscios a latir. O sol (ou chuva), tudo se renova a cada manhã. Isso me basta. Boa noite, estrelas!

Mártir, a yorkshire

Os mártires não são necessariamente homens. Recentemente uma cadelinha frágil, inocente e pura, da raça yorkshire, foi torturada e assassinada por um monstro humano. A vizinha gravou e denunciou a maldade.
Confesso que precisei ser forte para assistir.

Ontem, fiquei sabendo pela TV que a polícia chegou – um dia depois da denúncia – na hora em que o monstrengo atirava a cachorrinha na grama, onde ela se debateu e deu o último suspiro.

A mulher foi multada em três mil reias pelo IBAMA, e será indiciada. Poderá também perder a guarda da filha de três anos.

Que a justiça seja feita. Quanto a nós, o que podemos fazer é exatamente o que as vizinhas fizeram. DENUNCIAR!

De minha parte fiz um poeminha para a yorkshire, entre lágrimas e soluços, triste com minha própria raça.

Dor de au-au

Dois segundos
E eu sobreviveria.
Minha pata quebrou-se
Mas eu aguentaria.

Doís dias, mas eu queria viver,
Ter um novo dono
E de novo ser feliz
E seu rosto poder lamber.

Um dia antes eu aguentaria
Mas a polícia veio tarde
Era tarde demais, meus olhos
Se fecharam, com dor e medo…

Agora, eu sou só uma energia
E uma lembrança
De quem fui um dia:
Uma cadelinha yorkshire
Tímida, ingênua e frágil,

Que morreu com dor e medo
Nas mãos de uma moça nervosa
Que não gostava de mim.

Só fico triste
Porque todos deveriam gostar de mim
E no entanto me vou
Sem uma carícia sequer.

Apenas levando na lembrança
As mãos carrascas
Daquela estranha mulher…

Humana

Não é pela chuva que desaba em minha janela;
Menos ainda pelo fato de saber que a noite será longa.
Não é porque meu estado seja de um vaziismo absoluto.
Nada, nada vezes nada eu sinto agora.

Se a chuva fosse sol em plena meia noite, ainda assim eu não perceberia.
Bafejos na janela. Estômago cheio – rabanadas,
Sensação de essência desnudada. Não tenho segredos!

Quero ter pecados, quero errar, aparecer aos vidros da janela,
Desligar o ar condicionado e parar de beber água, lodo, vinho…
Espancar minha criatura velha, renascer mais de novo Fênix. Inventar palavras,
Lupicinta em cena à vontade no telhado da minha dor.

Não é pela chuva, mas o ruído..
Não é pelo ruído, mas a solidão,
Não é pela solidão, mas o cara…

Coisas passam, desfazem-se. Saudades de certo gozo de vida
Que era morte entre as vidraças – E a chuva está lá:
Escorre pela minha garganta, inunda a antiga alma.
Mas ainda assim, não é pela chuva. Faz até calor.

É que a chuva são lágrimas derramadas pelo céu,
Mas não é pelo céu, as estrelas não estão lá.
E não é por nada, é por mim vazia, olhando a chuva sem ouví-la.

Invisíveis inquietações

Era uma família unida e feliz. Amaliah amava muito seu esposo, Hanan,
que estava chegando aos sessenta. A mulher, mais nova, tinha ainda o viço, no alto de seus cinqüenta e poucos. Tinham dois filhos. Jonathan, o primogênito alegre, com vinte e um. E Alexandre, o submisso e trabalhador filho caçula, dezenove.

Na verdade, todos trabalhavam muito. Moravam no Sul. Numa província quase divisa com a Argentina. Viviam do cultivo de arroz. Negócios da família. Exportação. Não eram ricos, mas viviam com decência.

Certo dia, reunidos à mesa de jantar da casa antiga, mas confortável, o patriarca anunciou: “Partiremos para o Norte!”

O impacto foi grande, entretanto, ninguém falou nada, esperando que a explicação viesse. Ela veio lacônica. “Sam, que é nosso primo e dono dos negócios, nos quer lá, para tomarmos conta dos depósitos…”

Partiram em uma semana. Os jovens, algo tristes porque deixavam namoradas e amigos. Do Sul para o Norte. Mudança total. Amaliah, ao contrário, resignava-se. A família unida era o que importava.

Um ano se passara. Os jovens estavam casados. Felizes com suas esposas de terra estranha à sua. Porém o destino era implacável em suas metas. Amaliah perdeu o marido. Hanan morreu de um enfarto fulminante. Resignada, aceita sua sorte. Pensa que ainda tinha os filhos e as noras. Os netos certamente viriam.

“Se o leitor visitasse esta família cinco anos depois, ficaria estarrecido com Amaliah. Seu rosto era muito velho e sua coluna envergada. Nos olhos, um brilho fosco. O andar ainda era resignado, mas os olhos demonstravam uma profunda tristeza.”

Ver mortos os dois filhos de uma única vez, fora demais para a sábia senhora.

Fogo no paiol. Ambos estavam embriagados de vinho, depois de um bom negócio fechado. Comemoravam a promoção. A vida. As esposas.

Amaliah, sempre com a fala mansa, reuniu as noras. “Meus filhos estão mortos. E não terei mais filhos para as desposarem, portanto, volto para o Sul e vocês sigam suas vidas.

Susan e Helena entreolharam-se. Susan aceitou de pronto e se foi, depois de abraçar a sogra. Helena, fitando a velha mulher, disse: “Ficarei com minha sogra. Sua dor é minha dor, seu Sul é o meu Sul. Sua sabedoria é a minha sabedoria.”

Partiram numa manhã cálida de primavera. Ambas resignadas. Cada qual guardando sua dor intimamente.

Quando chegaram às terras frias do Sul, Amaliah conduziu Helena até à antiga casa.

Chegando lá, a porta estava entreaberta pelo tempo: Pela fresta, a mulher sábia notou o sofá coberto de poeira. A mesa de jantar rústica estava com apenas duas cadeiras; ss cortinas rasgadas. Esta visão causou inquietude em Amaliah. Entretanto, a nora a conduziu amorosamente para dentro da casa e começou, imediatamente, a limpar tudo.

Estavam pobres. Viviam das sobras do arroz que o primo e ex-patrão de Hanan permitira que pegassem nos depósitos. Ensacavam e vendiam na feira.

Amaliah, enquanto sorvia chá preto, resolveu falar com a nora:

_ Em nossa família, há uma tradição antiga demais. – Helena prestava atenção, como sempre. _ Quando uma mulher fica viúva, o parente, que não seja de primeiro grau a desposa. Como estou velha demais, calculei se você não poderia se casar com Sam, nosso primo e dono dos depósitos.

Helena enrubescera. Como a sogra sabia de seus flertes? E como saberia que Sam, várias vezes deixava o melhor arroz para ela levar para casa, intencionalmente?

Com vinte e seis anos, tinha ainda muita paixão no corpo. Era discreta, mas amava Sam. Respondeu, tímida, olhos no chão:

_ É um bom homem. Digno e honesto. Solteiro… Boa idade para casar, pois notei que já tem seus quarenta… Entretanto, amada sogra, não sei como poderia eu, enclausurada em minha timidez, declarar-lhe o meu amor. _ Suas faces ficaram mais rosadas ainda.

Amaliah, pacientemente, explicou:

_ Há uma forma de mostrar seus anseios. Outra tradição que temos, é que, quando uma moça deseja se casar, deita-se aos pés do homem, na hora de sua sesta. Sam tira seu cochilo sempre debaixo daquele carvalho, aquele sobreiro ao norte do depósito.

_ Sim, Amaliah. Muitas vezes lá o vi, a descansar. Farei o que me aconselha.

Amaliah assentiu, aliviada.

Quando Sam despertou de seu sono, lá estava Helena, deitada a seus pés. Sorriu com o coração palpitante. Ele a amara desde que a vira no depósito. Por ser nora de sua prima, não se aproximara, pois desconhecia o estado do coração da jovem viúva.

Dov, o primo mais velho, negociante de jóias e diamantes, mas terrivelmente avarento, resolvera reivindicar a mulher. Porque era a tradição. O direito à viúva era sempre do solteiro mais velho.

Assim, os homens marcaram um encontro em casa de Sam. Dov chegou atrasado, como de costume, o que causava mais ansiedade em Sam, completamente apaixonado por Helena.

O industrial do arroz estava olhando pela janela e assim permaneceu, mesmo quando o primo entrou em sua sala. A lareira estalava, como o coração de Sam. Dov falou, entre irônico e frio:

_ Bom, primo Sam, vim aqui para resolvermos definitivamente nossa questão. Já estou com quarenta e oito. Jamais me casei, mas acho que chegou minha hora.

Então Sam virou-se. Fitando o homem com olhar duro e penetrante, disse:

_ Ainda bem que o primo está bem de vida. As despesas serão grandes.

_ Despesas? Grandes? – Balbuciou Dov.

_ Sim, quem casar com Helena levará também Amaliah. Terás que comprar uma casa bem maior, quartos para a velha prima. Filhos…

Um pânico percorreu todo o ser de Dov. “Despesa” era palavra repudiada por ele. Depois de alguns instantes, resolveu:

_ Está certo! Fique com a moça, e Amaliah e… quem mais vier. Adeus, meu astuto primo.

_ Obrigado, querido primo, o sábio!

No dia do casamento todos estavam muito alegres. Os noivos vibravam, dançando sem parar.

Discretamente me retirei da festa. Caminhando, entrei na viela onde Amaliah – que não fora à festa – morava. Passaria diante de sua janela.

Olhei pela fresta. A velha e sábia mulher movia os lábios, à meia luz, como se falasse com alguém. Detive-me a observá-la por alguns instantes, até que prossegui meu caminho. Ela falava com alguém. Invisível, mas ela falava.

Uma ave de rapina me observou com seus olhos enormes. Parei um pouco e a observei igualmente. Então, de novo, prossegui meu caminho.

Dei uns três passos. O animal me seguiu com aquela típica virada rápida de cabeça. Cento e oitenta graus. Sorri divertido pelo espanto da coruja que já não podia me ver…

Baseado no Livro de Ruth.

BOAS FESTAS E FELIZ ANO NOVO A TODOS!

O que é Índole? Livro – Kito Mello

Índole é um livro muito especial. E único. Talvez eu nunca tenha falado do meu fetiche. A saber, sempre gostei de ter livros de bons autores cariocas, mas com a significância de tê-los como amigos. Os autores. Companheiros.

Com o passar do tempo, esta prática foi sendo substituída por outras paixões. Teatro, atores, artistas plásticos, e até gente comum eu colecionei, entendendo que gente é legal. Sempre há um não-sei-quê de deslumbrante.

Todavia, amigos leitores, a minha maior paixão é literatura. E, em sendo assim, eis que me deparo com minha maior paixão. Conhecer escritores. Ter seus livros autografados. Amá-los de forma incondicional.

Kito Mello, além de ser uma pessoa ímpar, busca leveza na humanidade. É homem justo no sentido mais profundo da palavra Justiça.

Judeu ortodoxo (mudou, não sei, escritores mudam sempre), com uma trajetória de vida inusitada. Não por ser um homem que viajou pelo mundo, ou porque ficou afastado do pai praticamente toda a sua vida. Mas por ter índole e caráter de saber exatamente o que quer. A isso eu chamo nobreza.

Sensível e fraterno, tem os olhos azuis mais sinceros que já vi. Olhos que demonstram amor. Amor, aquele sentimento que vai além de poesias, ou hipocrisias. Amor pelo ser humano. Buscador de causas humanitárias, como entender o mundo das favelas, sendo ele mesmo um lord burguês, formado em três faculdades. Educação física, Administração, Autor Roteirista, Pós-graduação em Cinema. Passou de três.

Não basta, a meu ver, ser um escritor, ou seja lá qual for a profissão do homem. O importante é ser gente humana. Ser um homem que acrescenta à humanidade. Esta é a resenha de Kito Mello.

Por que eu estou falando do livro sem tê-lo lido ainda? Porque é apenas uma prévia de uma leitora que teve o privilégio de ler as primeiras páginas do manuscrito.

Agradeço a Deus pela minha sorte.

Nescit vox missa reverti – Velho Horácio

nescit vox missa reverti

A expressão latina significa ‘o que não pode voltar’. Horácio, aqui, refere-se à palavra escrita, aconselhando os escritores a revirem seus escritos antes de os publicar. Mas, filosoficamente, aplica-se também à palavra falada – ‘Pense antes de falar.’

Normalmente, com a velocidade da net, dificilmente temos tempo para pensar como sugere o filósofo Horácio. Menos ainda pensamos tanto para falar. Escrever em blogs, por exemplo, nem pensar que a gente fica meditando, esperando conceber idéias geniais vindas do Olimpo, ou dos deuses escribas.

Vivemos numa tal velocidade, que as pessoas estão até se afastando de ler um bom livro, daqueles pesados, seiscentas e tantas páginas (eu tem tempo que não leio um desses).

Fico pensando em como o tempo muda as coisas. Se o velho Horácio estivesse aqui hoje, como reagiria nos vendo assim, fragmentados pelas internets da vida? Acho que ele perguntaria: “Mas vocês ainda leem livros?!”

Engraçado, mas sutilmente assustador. Certamente, em tempos antigos, o homem era mais sábio porque pensava antes de escrever e falar. Outros tempos, afinal, não havia televisão (ô vício), não tinha cinema, shoppings, telefone, in-ter-net!

Sim, Horácio, estamos partidos, multifacetados. Somos escombros de uma nova era. Camafeus sem brilho próprio. Internautas enlouquecidos.

Bom é que temos o Google, onde eu encontrei a sua citação. Daí, pensei em escrever este post em sua homenagem.

Vós que escreveis, escolhei um assunto correspondente às vossas forças. (Quinto Horácio Flaco)