Quixotices de uma dama

Quantos cavaleiros errantes ainda bateriam à porta de sua taberna,
Dissimulando fome e sede, com olhar lânguido dos carentes,
Desejando os montes de sua vida…
Montes ressequidos, despedaçados venezianos,
E, por cima dela, derramar seu vinho de sabor acre,
Enxugando-se nas antigas toalhas de sua estalagem?

Percebera que este hóspede não possuía a barba por fazer, ou as unhas compridas.
Lá fora, uivos do lobisomem. Este chegava sempre embriagado,
Querendo também atenção, olhando de soslaio, desconfiava.
Desconfiava do visitante forasteiro que rosnava, remarcando o território.
Ah, os animais eram mesmo assim – pensava a prosternada dama –,
Criaturas soturnas. Noturnas, viviam a vida sem jamais amar o amor decente.

Os cavaleiros farejaram o seu jantar. Detectaram mel nas coxas dela.
Entreolharam-se, como a perguntar de quem seria o privilégio:
Do mais antigo da taberna, o que sempre bebera com ela,
Ou do novo cavaleiro de terras estranhas, que havia sedento da bela?…

Na dúvida atroz, ambos a convidaram a dançar…
Seu vestido estava apertado, a dama engordara, mas ainda cheirava a adolescente.
O busto farto, sempre mostrara um arfar de cobiça e sexo.
As pernas, de pele morena e lisa, roçavam-se. Por debaixo das saias ela vibrava!…
A boca da estalageira era vermelha, e a língua passeava pelos dentes mordentes.
Insinuava-se nua depois do vinho, e, por fim, aceitara dançar com os dois querentes…
Porque entendia que depois estaria sozinha como sempre fora. – A dama mal amada!

Os cavaleiros, então, jogaram um jogo tenso. Vigiados pela mulher que escrevia,
Disputavam-na no pôquer da vida eterna… Quem roubaria mais dela:
O antigo amante, que conhecia bem suas vontades,
Que sabia a hora certa de excitá-la e governá-la num sexo bucal,
O que mentira por toda a vida, iludindo-a com caros presentes…
Ou o jovem cavaleiro extenuado do trabalho, da lida, da vida,
Mas que se mostrava mais gentil e cheio de vontade nela?

Recostada no balcão da própria alma, sorriu um risinho nervoso,
Algo contido, acompanhado de tosse – estava frio lá fora!
Enrolou-se em cachecol cozido por suas mãos sedosas de escritora também.
Tirou parte do negro e liso cabelo que tapava um dos olhos profundos.
Chegou bem perto do novo cavaleiro:
Ansiava sentir seu cheiro. Excitou-se, contraindo-se em si mesma.
Notou que um desejo a molhava por dentro e fora – chovia muito!

O cheiro e a voz dele a enlouqueciam, mas ela disfarçava tímida:
O lobisomem a consumira por tantos anos, e o tempo passara
Sem que a dama romântica se desse conta.
Contudo, já não amava o homem de barbas, nem seu jeito de fazer amor com ela.
Percebera, agora, que não tinha mais aflição se ele saísse pela noite
Atrás de sangue novo… Ah, os vampiros eram medonhos, entendeu,
Como nos sonhos da santinha,
Da menina que se iludira, esperando o belo príncipe que jamais chegara.

A moça da estalagem estava embriagada do jovem errante, fogo no olhar!
Discretamente tocava, ela mesma, os seus mamilos,
Esperava as horas passarem, até que o velho lobo dormisse entre roncos e tremores.

Então, perscrutou as escadarias que a levavam ao terraço da estalagem,
Subiu de vagar, antegozando os momentos que teria com o belo rapaz…
Ai! Suspirou, louca de desejo!…
Gemia, enquanto apalpava o vulcão. Gemia de amor e dor.
Ela o queria mais do que tudo… Queria sufocá-lo com seus cálidos beijos,
Queria sentir o gosto dele na própria boca, queria um êxtase há muito esquecido…

Subiu as escadarias com dificuldade – A dor aumentava a cada degrau.
Pressentira sofrimento.
Experiente, a dona da taberna tinha ciência de que os hóspedes se despediam sempre – eram efêmeros.

Entretanto, no jogo da vida dela, perder era uma constante… Acostumara-se à dor.
Quantas noites dormira entre soluço sem saber exatamente do que sentia falta…

Olhou o céu. Ocorrera-lhe que jamais poderia contar tantas estrelas!
Então, delirou, para que se preocupar com a sua dor, tão pequena ante o Universo?
Mais valeria, concluíra ela, um momento com o jovem cavaleiro errante,
E guardar seu gosto nas entranhas e no monte incandescente de Vênus,
Do que voltar à antiga estalagem e se entregar ao roto lobisomem.

Ficar sozinha era uma possibilidade de ser feliz, em suma.
Porque, no fim das contas, no Juízo, toda dama seria mesmo triste, tal qual todo poeta.
Portanto, depois de amar o belo e nobre rapaz, o novo hóspede de seu coração,
Ela procuraria, nos porões de sua vida, algumas folhas de papel em branco e… “Perdão!” – pediria.
Voltaria a escrever sobre a dor de sempre ter sido só. Lágrimas rolaram…
Lágrimas quentes escorreram pelos exuberantes seios da solitária dama.

Mas lá no céu, enquanto se deleitava com o forasteiro, tivera a impressão
De que uma estrela lhe piscara de forma especial… Sentiu súbito calor.
Fechou os olhos. Adormeceu como menina, um sorrisinho no canto da boca,
E, resignada, acomodou-se nos braços fortes e seguros… Do velho amor.

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2 comentários em “Quixotices de uma dama

  1. “porém, em forma d declamação d poesia, julgo perfeita”
    Isso me é suficiente, Jeff.
    A adaptação para teatro seria a estória de um casal de atores decorando ‘este’ texto e discutindo sua relação ao mesmo tempo… investigando os personagens do poema.
    Muito obrigada mesmo, caro amigo!

  2. eu particularmente acho difícil converter prosa poética em peça teatral sem perder a essência. isso pq mto da subjetividade (ou seria a poesia mesmo) do texto q fica em aberto na leitura precisa ter foco no teatro. a maior parte da recitação em diálogos precisa ser objetiva, sob pena do público perder-se. já no conto ñ existe essa necessidade. escreve-se e cada leitor interprete do seu jeito. ponto a favor.

    porém, em forma d declamação d poesia, julgo perfeita. mas acho q ñ era esse o seu objetivo.

Sua opinião me interessa ;)

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