Invisíveis inquietações

Era uma família unida e feliz. Amaliah amava muito seu esposo, Hanan,
que estava chegando aos sessenta. A mulher, mais nova, tinha ainda o viço, no alto de seus cinqüenta e poucos. Tinham dois filhos. Jonathan, o primogênito alegre, com vinte e um. E Alexandre, o submisso e trabalhador filho caçula, dezenove.

Na verdade, todos trabalhavam muito. Moravam no Sul. Numa província quase divisa com a Argentina. Viviam do cultivo de arroz. Negócios da família. Exportação. Não eram ricos, mas viviam com decência.

Certo dia, reunidos à mesa de jantar da casa antiga, mas confortável, o patriarca anunciou: “Partiremos para o Norte!”

O impacto foi grande, entretanto, ninguém falou nada, esperando que a explicação viesse. Ela veio lacônica. “Sam, que é nosso primo e dono dos negócios, nos quer lá, para tomarmos conta dos depósitos…”

Partiram em uma semana. Os jovens, algo tristes porque deixavam namoradas e amigos. Do Sul para o Norte. Mudança total. Amaliah, ao contrário, resignava-se. A família unida era o que importava.

Um ano se passara. Os jovens estavam casados. Felizes com suas esposas de terra estranha à sua. Porém o destino era implacável em suas metas. Amaliah perdeu o marido. Hanan morreu de um enfarto fulminante. Resignada, aceita sua sorte. Pensa que ainda tinha os filhos e as noras. Os netos certamente viriam.

“Se o leitor visitasse esta família cinco anos depois, ficaria estarrecido com Amaliah. Seu rosto era muito velho e sua coluna envergada. Nos olhos, um brilho fosco. O andar ainda era resignado, mas os olhos demonstravam uma profunda tristeza.”

Ver mortos os dois filhos de uma única vez, fora demais para a sábia senhora.

Fogo no paiol. Ambos estavam embriagados de vinho, depois de um bom negócio fechado. Comemoravam a promoção. A vida. As esposas.

Amaliah, sempre com a fala mansa, reuniu as noras. “Meus filhos estão mortos. E não terei mais filhos para as desposarem, portanto, volto para o Sul e vocês sigam suas vidas.

Susan e Helena entreolharam-se. Susan aceitou de pronto e se foi, depois de abraçar a sogra. Helena, fitando a velha mulher, disse: “Ficarei com minha sogra. Sua dor é minha dor, seu Sul é o meu Sul. Sua sabedoria é a minha sabedoria.”

Partiram numa manhã cálida de primavera. Ambas resignadas. Cada qual guardando sua dor intimamente.

Quando chegaram às terras frias do Sul, Amaliah conduziu Helena até à antiga casa.

Chegando lá, a porta estava entreaberta pelo tempo: Pela fresta, a mulher sábia notou o sofá coberto de poeira. A mesa de jantar rústica estava com apenas duas cadeiras; ss cortinas rasgadas. Esta visão causou inquietude em Amaliah. Entretanto, a nora a conduziu amorosamente para dentro da casa e começou, imediatamente, a limpar tudo.

Estavam pobres. Viviam das sobras do arroz que o primo e ex-patrão de Hanan permitira que pegassem nos depósitos. Ensacavam e vendiam na feira.

Amaliah, enquanto sorvia chá preto, resolveu falar com a nora:

_ Em nossa família, há uma tradição antiga demais. – Helena prestava atenção, como sempre. _ Quando uma mulher fica viúva, o parente, que não seja de primeiro grau a desposa. Como estou velha demais, calculei se você não poderia se casar com Sam, nosso primo e dono dos depósitos.

Helena enrubescera. Como a sogra sabia de seus flertes? E como saberia que Sam, várias vezes deixava o melhor arroz para ela levar para casa, intencionalmente?

Com vinte e seis anos, tinha ainda muita paixão no corpo. Era discreta, mas amava Sam. Respondeu, tímida, olhos no chão:

_ É um bom homem. Digno e honesto. Solteiro… Boa idade para casar, pois notei que já tem seus quarenta… Entretanto, amada sogra, não sei como poderia eu, enclausurada em minha timidez, declarar-lhe o meu amor. _ Suas faces ficaram mais rosadas ainda.

Amaliah, pacientemente, explicou:

_ Há uma forma de mostrar seus anseios. Outra tradição que temos, é que, quando uma moça deseja se casar, deita-se aos pés do homem, na hora de sua sesta. Sam tira seu cochilo sempre debaixo daquele carvalho, aquele sobreiro ao norte do depósito.

_ Sim, Amaliah. Muitas vezes lá o vi, a descansar. Farei o que me aconselha.

Amaliah assentiu, aliviada.

Quando Sam despertou de seu sono, lá estava Helena, deitada a seus pés. Sorriu com o coração palpitante. Ele a amara desde que a vira no depósito. Por ser nora de sua prima, não se aproximara, pois desconhecia o estado do coração da jovem viúva.

Dov, o primo mais velho, negociante de jóias e diamantes, mas terrivelmente avarento, resolvera reivindicar a mulher. Porque era a tradição. O direito à viúva era sempre do solteiro mais velho.

Assim, os homens marcaram um encontro em casa de Sam. Dov chegou atrasado, como de costume, o que causava mais ansiedade em Sam, completamente apaixonado por Helena.

O industrial do arroz estava olhando pela janela e assim permaneceu, mesmo quando o primo entrou em sua sala. A lareira estalava, como o coração de Sam. Dov falou, entre irônico e frio:

_ Bom, primo Sam, vim aqui para resolvermos definitivamente nossa questão. Já estou com quarenta e oito. Jamais me casei, mas acho que chegou minha hora.

Então Sam virou-se. Fitando o homem com olhar duro e penetrante, disse:

_ Ainda bem que o primo está bem de vida. As despesas serão grandes.

_ Despesas? Grandes? – Balbuciou Dov.

_ Sim, quem casar com Helena levará também Amaliah. Terás que comprar uma casa bem maior, quartos para a velha prima. Filhos…

Um pânico percorreu todo o ser de Dov. “Despesa” era palavra repudiada por ele. Depois de alguns instantes, resolveu:

_ Está certo! Fique com a moça, e Amaliah e… quem mais vier. Adeus, meu astuto primo.

_ Obrigado, querido primo, o sábio!

No dia do casamento todos estavam muito alegres. Os noivos vibravam, dançando sem parar.

Discretamente me retirei da festa. Caminhando, entrei na viela onde Amaliah – que não fora à festa – morava. Passaria diante de sua janela.

Olhei pela fresta. A velha e sábia mulher movia os lábios, à meia luz, como se falasse com alguém. Detive-me a observá-la por alguns instantes, até que prossegui meu caminho. Ela falava com alguém. Invisível, mas ela falava.

Uma ave de rapina me observou com seus olhos enormes. Parei um pouco e a observei igualmente. Então, de novo, prossegui meu caminho.

Dei uns três passos. O animal me seguiu com aquela típica virada rápida de cabeça. Cento e oitenta graus. Sorri divertido pelo espanto da coruja que já não podia me ver…

Baseado no Livro de Ruth.

BOAS FESTAS E FELIZ ANO NOVO A TODOS!

Anúncios

11 comentários em “Invisíveis inquietações

  1. Ops, Kito! Eu pensei de madrugada e fui logo escrevendo de manhãzinha. Impossível dar muito certo. Concordo com vcs sim. Mas é o caso: estou sempre na fase ‘treinamento’, preciso crescer e aplicar melhor as regras de escrever. Em todo caso, achei que o narrador pudesse ser Deus, afinal a Ele é dado o crédito das estórias bíblicas.
    Muito obrigada por sua opinião. Sempre ajuda muito, assim como a do Marcelo. Estou montando um site e espero amadurecer. 😉

    ps – estou gostando muito do livro. Envolvente. Sincero. Logo logo publico a resenha.

    Beijo, amigão!

  2. Oi, Daisynha!

    Olha, para mim que conheço a história de Ruth, diria que se o seu objetivo é dramatizar contemporaneamente o que está na bíblia, vc conseguiu. Não há como ler (quem conhece a história de Ruth) e não associar.

    O que o Marcelo falou, procede. A narrativa e muito boa e clara, a estoria flui com leveza e graça. Contudo, tudo é muito rápido e ficam faltando alguns detalhes que podem amarrar melhor a história.

    Como primeiro tratamento, está bom, mas necessita de outros tratamentos. Não gostei do final, acho que pode ser melhor trabalhado se vc quer dar a intenção de ter participado de tudo. Faltou esta informação no início e no meio, ou algo que sugerisse que vc conhecia a família. Talvez vc pudesse ser a melhor amiga de Helena e ela poderia ter te contado sobre o passado, mas parece apenas que vc é uma penetra e que passou pela casa de Amaliah e observou como observam os curiosos. Se for só isso falta saber como vc conseguiu tanta informação sobre essa família.

    Bjão.

  3. “Sorbo acordou afogando-se nos mares de sua cama.”

    O começo faz com que prossigamos… independente da nossa opinião. Eu gosto muito… e vou divulgar. Por acaso o gênero me atrai. Sempre quis saber como seria o mundo, se fosse dos animais ‘irracionais’.

    Se Sorbo morreu, a cabeça de seu filho foi eternizada por um taxidermista, e eu preciso saber de tudo. Acho que migrarei meus bichos para lá, República de Caltos. Eu também gostaria de ir para lá, embora talvez fosse apenas uma escrava. Amém. Pertenceria ao reino de Sorbo!

  4. Vc tem talento sim. Quando sua mente age, isso é talento. Afinal, de onde sairia aquele conto? Ando pensando muito em Sorbo… (É esse o nome?)

  5. O conflito é a submissão de uma mulher (Amaliah) diante da vda. A estória passa rápido, admito. Geralmente, quando isso acontece, é porque o narrador quer falar com o leitor sobre algo importante, e, neste caso, a pressa dele é estar com você, o leitor. É misterioso. Na verdade, tem um final mais ou menos feliz, a menos que Helena fosse a continuação de Amaliah. E, eis que de repente, descubro, graças às suas ingdagações, o personagem principal. Não é, definitivamente, Deus. Quanto a eu priorizar o casamento e a mulher, creio que não. Pois elas ficam viúvas. Três de uma vez. Se o texto busca indagações, Marcelo, significa que há algo a se descobrir. Eu vejo como metáfora da rapidez de todas as coisas. E, como Amaliah lida bem com a morte, sabendo que á algo absolutamente necessário. Ou obrigatório. O que eu acho bacana, é que ela, Amaliah, não se desespera, vendo sempre além do horizonte. Jamais desistindo. Happy end. De certa forma , às custas de muita dor. Não escrevo tanto assim por instinto. Tive que pesquisar de forma autodidata, mas olho de perto as regras, ainda que seja para trangredi-las. A meu ver o conteúdo é bom. E o fim, justifica os meios. Onde está o Wally? 🙂

  6. Olha, meu estilo de escrita e muito particular, muito ditado por regras e métodos. O motivo para isso e que eu não tenho talento, na verdade acho q tenho um certo anti-dom para escrever, contudo como sou teimoso, eu me obriguei a fazer, e com o tempo, depois de muitas surras, criei um método. (quando eu digo criei eu me refiro ler os conselhos dos outros)

    Olha, eu nao sei se funciona dizer como eu faria, todo mundo tem o seu estilo, e vc escreve por talento, então e complicado colocar rédeas nisso, tendo dito isso e sempre bom ver outro ponto de vista, entao aqui vao meus dois centavos.

    Premissa, Personagem e conclusão. Essa e a base de todas as estorias…

    A premissa e a ideia por tras, no seu caso seria perda? seria o casamento por necesside? seria a viagem? Oq eu quero dizer com isso, e que tem uma ideia q tem q ser a predominante, essa e a sua premissa, e o pilar da sua estoria.

    O personagem e o veiculo pelo qual o leitor entra na estoria, e a dor dele q sentimos, a fome dele q sentimos e ele q somos, por isso recomendam que cada capitulo tenha um personagem principal, que e o foco e o ponto de vista da narrativa, e através dos olhos dele q o leitor vai ver seu mundo.

    A conclusão e como vc resolve sua estoria, um exemplo, nos 3 porquinhos, a premissa e melhor se precaver que brincar, o personagem principal e o porco que constrói a casa de tijolos, a conclusão e o lobo morrendo.

    Então vamos a sua estoria, nossa como eu enrolo, acho q sua estoria se reescrita por um ponto de vista, o que vc no fundo gosta mais, acho q seria o casamento e a mulher, vc pode cortar tudo q nao acrescenta a sua premissa, e tambem pode elaborar em coisas para dar mais força e ela, como mostrar como o protagonista sentiu suas perdas, vc fala sobre perdas, porem eu nao posso sentir a perda quando ela e apenas narrada, nao me diga que o personagem esta com fome, me mostre ele pegando um pao no lixo. Ambos nos mostram a mesma ideia, porem um com um impacto maior q o outro.

    Em todo caso, uma opinião nao e importante, todo autor tem uma estoria pra contar, um estilo de contar, acredite na sua voz, nao tem jeito certo de fazer, tem apenas o jeito certo pra cada um.

    Muitos abraços e esta sendo muito agradável participar do seu blog, amo falar sobre estorias.

  7. O que você mudaria, Marcelo, se fosse Deus? Ou melhor, se fosse o Narrador? Fique à vontade hehe.

  8. “A narrativa e muito boa e clara, a estoria flui com leveza e graça. Contudo tudo e muito rápido, em um capitulo, temos anos q se passam, personagens q morrem, quem e o protagonista? Qual e a estoria? Sao suas coisas que ao meu ver não ficam muito claras.

    Em todo caso e uma leitura muito agradável. Parabéns.”

    Passa rápido porque o fim é o que interessa. E não poderemos ter capítulos, é conto, Marcelo. E, sendo na net precisamos condensar, embora eu acredite que contei bem a estória. O protagonista? Hum… É o mistério, eu ainda não sei quem é tbm. E, não ficarem claras as coisas, é o que faz com que a arte seja reticente e interpretativa. Ou seja: Você tem a oportunidade de escolher o seu protagonista, morrer com um dos personagens, e até se inspirar e fazer com que algum tenha continuação. Tudo é possível.

    Beijo, querido.

  9. A narrativa e muito boa e clara, a estoria flui com leveza e graça. Contudo tudo e muito rápido, em um capitulo, temos anos q se passam, personagens q morrem, quem e o protagonista? Qual e a estoria? Sao suas coisas que ao meu ver não ficam muito claras.

    Em todo caso e uma leitura muito agradável. Parabéns.

Sua opinião me interessa ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s