Manhã amputada

Agradecimentos a Jefferson.

Manhã amputada

Lúcio Cesar estava perdido em seus pensamentos. Com o queixo apoiado em uma das mãos, olhava pela vidraçaria do Museu Nacional da Magna Grécia. Não sabia por que, mas desde que acordara, não conseguia tirar do pensamento a lembrança de sua falecida mãe. E de seu doloroso parto. Parecia jamais conseguir acreditar que ele, com apenas trinta anos, ocupava um dos maiores cargos do planeta. Presidente da Academia Mundial de Letras. Mais uma vez relia cópia daquele documento deixado por sua mãe. Hábito que conservava desde que começara a ler, aos três anos de idade.

Acordei com estranha sensação jamais experimentada por mim. Faltava-me algo. Uma dor fina e cortante misturava-se a um mal estar. Abri meus olhos, vagarosamente. Não tinha pressa, pois sabia que havia algo de terrivelmente errado. Muita dor nas costas. Lancinante. Mais pelas lembranças do que pelas fendas sangrentas.

Recordar o horror que fora aquela Guerra era pior do que tudo. Porque eu fracassara!

Não me rendi, entretanto, todos se rebelaram. Não compreenderam a minha paixão. Os que eram meus, viraram-se contra mim na hora da decisão final. Rebeldes, apunhalaram-me pelas costas. Lanças e espadas perfuraram meu corpo, mas minhas costas, estas eram a visão do meu fim.

Minha missão estava cancelada. Urrei, braços estendidos aos céus. “Por quê?!”, eu indagava, com saliva escorrendo pelo canto da boca dolorida. De forma desonrosa eu descobrira o que era amor!…

Com olhos semicerrados, notei gotas de sangue nos lençóis. Na verdade eram poças porque o colchão estava empapado. A dor aumentava. O cérebro captara a dimensão de minha desgraça… Sensação de horror. Um medo quase infantil. Pensei em meu pai. Como eu precisava dele naquele momento de angústia; mais do que o ar e as asas, eu precisava do meu pai. Mas ele estava muito longe daqui. Um grito sufocado: “Pai, estou ferida!”… Caí de joelhos. Enquanto balançava a cabeça, sentia os cabelos colarem em minhas costas, como bandanas de curativo. Seria eu a puta crucial do Apocalipse?

Mas eu ainda podia andar. Levantei-me, com mais angústia do que dor. Mais tristeza do que desespero. Ter sido traída e derrotada, era ver minha existência rompida e anulada. O que seria de mim agora? Qual haveria de ser minha serventia para eles? – Pobres escritores. Desgraçados poetas!…

Cerrei os punhos e blasfemei a minha sorte, com os dentes rangendo. Minha ira ia além da terra e dos céus. Por quê, eu perguntava às minhas entranhas, eu fui me apaixonar por um servo da terra? E não só me apaixonei, como, em sua cama, falei de todos os segredos!

No banheiro, procurei uns comprimidos. Precisava ser forte. A dor aumentara pelo esforço de chegar até lá. Sem perceber, estava chorando. Copiosa e silenciosamente eu chorava. De dor, de solidão. Medo. O chão estava salpicado. Vermelho e branco. Precisava estancar o sangue. E o preservativo do pecado escorria em minha pia. Eu estava acabada!

Sem coragem de olhar as feridas no espelho, apenas vislumbrei um par de olhos negros. Já não havia luz neles. Amar era morrer. E eu estava verdadeiramente morta por amar. Todavia, perguntaria a ele o porquê desta paixão inerente à terra conhecida.

Voltei ao quarto. No lençol, o sangue coagulava aos poucos. O ardor era ressequido. Eu precisava lavar e cuidar das feridas. Eram cortes profundos. Flechas, lanças e punhais mudaram o destino da poesia no planeta. E também trouxeram-me um órgão inusitado: vagina!

De novo levantei. Fui olhar o mundo de minha janela. O céu… Ah, os céus! Tudo estava cinza. Luto por toda parte. Trovoadas ressoavam. Um grito misturou-se aos ruídos. A manhã estava escurecendo cada vez mais. Ou seriam as minhas vistas? O grito chegava cada vez mais perto. Como trovão.

Deitei-me outra vez. Estava cada vez mais fraca. Antes de desmaiar, vi que ele chegara, finalmente. Em seus olhos tristeza, ódio, e um brilho profundo de alerta total.

Ainda ouvi suas palavras como se viessem de muito longe: “O ‘Anjo Guardião dos Escritores’ perdeu as asas, e a Batalha… Há luto na terra e nos céus. A internet entrou em pane. Muita morte, muita solidão.”

E não ouvi mais nada…

Acordei com uma caixa de absorvente higiênico. Eu estava menstruada. Um sangue que não tinha noção da existência.

Augrurus apareceu, como sempre do nada. Minha cara era envergonhada. Pela Batalha perdida. Jamais pelo amor que me fora oferecido na terra.

Ele me olhou, com sua altivez de quem jamais fizera sexo.

_ Foi bom, Anjo dos Poetas, fornicar com essa espécie inferior? Valeu à pena trepar num botequim, ou como ele diria: Sujar-se em espermas passageiros? Estamos todos unidos, com nojo de ti!

Com muita dor, ainda tive coragem de falar para o incestuoso Anjo Investigador:

_ Ao menos não trepei com as pedras, como vacas solitárias. Fiz amor com um homem. Ser humano. Por mais que esteja condenada, eu experimentei uma sensação que vale toda minha existência! Eu amei um poeta!

Augrurus, com a face vermelha, expelindo raios de ira, precipitou-se em minha direção e disse, introduzindo o dedo anular em minha mais profunda ferida:

_ Anjo imbecil e vil: Estás grávida!

Mais uma vez, como tantas outras, Lúcio rasgou o documento, sem conseguir ir até o final. Enxugou as lágrimas e atendeu ao telefonema de Steve Jobs.

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8 comentários em “Manhã amputada

  1. Oi, Alexandre 🙂
    Pois é, acho que terá continuidade sim – a idéia é essa – mas não sei se serei eu a escrevê-la, pois já havia convidado um amigo para uma parceria.
    Puxa, valeu pela visita!

  2. Ah, os agradecimentos ao Jeff não foram por revisão 😛
    Foi pq ele, quando leu a idéia, disse: Você pode mais!
    Valeu, gente!!!
    Com licença, ando metida com o Reino de Caltos, um lugar bom para morarmos, desde que tenhamos garra!! 😛

  3. Nossa, senti ate um calafrio enquanto lia, que descrição linda de dor, de longe, de muito longe, e a melhor coisa sua que li ate agora, amei, superbo em vários níveis.

    E ainda concordo e aprecio a filosofia por tras da estoria, onde e melhor sentir com os vivos, que compartilhar a indiferença e soberba dos mortos.

    Sensacional Dai.

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