Eternamente princesa

Conheceram-se aos dezoito anos, mais ou menos. Ou melhor, ela teria seus dezesseis. Estudava para ser professora. Vocação. Ele, queria ser militar. Músico. Clássico e bonito, Hugo ganhara o coração de Josephine, a princesinha professora. Ou princesa professorinha.

Casaram-se. Dois lindos filhos. A cor morena do rei, com a alva pele de Josephine resultaram em filhos de cor âmbar.

Todavia, como em toda família real, os inimigos do rei mancomunavam diabólicos planos para invadir castelos e atravessar as pontes da harmonia familiar.

O rei – agora lembro o primeiro nome, Victório – que, decididamente, não tratava a esposa como rainha, mas como sua eterna princesa, fizera de tudo para protegê-la em redomas de mimos, fazendo todas as suas vontades. Todas mesmo: jóias vindas da Tailândia, batons vermelhos, e vestidos encantadores.

Não raro, cozinhava para a pedagoga, enquanto esta se recostava em almofadas bordadas à mão, sorvendo longos goles de cerveja gelada. Afinal, o país era o Brasil, apesar das descendências de ambos.

Entretanto, apesar daquele grande amor, o monarca tinha um fraco (seu maior inimigo), não podia ver um rabo de saia, fossem as camareiras, vizinhas, princesinhas filhas dos amigos, mucamas, seviçais, amigas. Pobre rei! Sofria quase que esquizofrenicamente com tanta libido. Mas… se Salomão tivera mil mulheres e concubinas, pensava o rei, uma ou outra garfada nas tenras carnes de outra mulher, não faria dele um pecador.

Aliás, sua religião estava longe, bem longe de Israel. No sangue real continha índio, branco e africano. Mediterrâneo? Um rei brasileiro e pacífico, certamente. Frango com cerveja a la D. João VI.

O casamento era perfeito, não era aparência. Isso não. Viviam realmente felizes. A princesa, que não queria ser rainha, ignorava os pulinhos do rei, por puro amor incondicional. E cada dia ficava mais linda. Virtude ser assim, tão longânima? Ao que parece, para ela fazia bem à pele.

Por mais que fossem a realeza, o rei, com seu sangue de músico percussionista, oficial de banda militar, começara a envelhercer. Com alguma tristeza, se olhava no espelho. E quando se comparava à princesa, sentia uma ponta de ciúmes. Ela continuava linda e jovem!

Cabisbaixo, pensou que morreria antes da mulher. E ela, casaria-se de novo?! A fidelidade da amada era nobre. Tudo nela era soberbo e simples. Seu andar, sua discrição. A forma como olhava, de longe, as fugidinhas do rei.

Era eterna, pensara o monarca, enquanto andava pelo pátio do palácio, com o ritmo lento dos lascivos.

Lembrou-se subtamente de Oscar Wilde, e aquela estória do Dorian Gray. Ela… ela não envelheceria, então? Triste, já velho e sem amantes, dedicava-se totalmente a ela.

Porém, numa de suas viagens à casa de campo, apaixonou-se por uma plebéia de dezoito anos. Desesperado, consultou o médico da família e este lhe receitara pílulas de revigoramento sexual. Voilá! De novo o velho rei se debatia entre o prazer e a culpa, com a gazela dos campos.

Certo dia, admirando os jardins da antiga e sóbria casa, lá para os lados das Minas Gerais, olhando o rio que passava submisso nos fundos da mansão, escutou um gritinho. Arrepiou-se, teve um pressentimento. Cansado da vida, das mentiras, das pernas, não conseguira correr. Velho demais, suspirou, caminhando entre assustado e curioso.

Ao chegar nos aposentos do casal, sua jovem princesa, de quase setenta anos (que não aparentavam de jeito nenhum), agonizava. Lágrimas nos olhos. Somente desta vez, o velho músico percebera uma certa agonia em seu olhar. Só agora o monarca percebia a real tristeza da esposa. Só assim, antes de morrer em seus braços, ela dissera, elegante e sem palavras. Por que, meu rei?

E este foi, talvez, o pior entardecer de um velho rei.

Baseado em estória real. Para Maria José (in memorian).

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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