Temporada de Exposição de Contos e Poesias Daisy Carvalho

CIDADE FANTASMA


Joe Sturmmer – Clash

Cada passo que dava, era uma poça de água que fazia com que ela se refrescasse do calor das últimas horas.

Seu coração gritava dentro do peito. A mão direita estava suada, e com algumas gotas de sangue. Insistia em lavar-se na lama daquela poça. Queria voar, morrer, jogar-se na frente do trem.

O vestido curto e as longas botas, destoavam da paisagem cinza. Ela nunca ouvira falar de um lugar assim. Apenas entrara no trem, obcecada pela novidade. Como se fosse um chamado.

Há alguns minutos, desembarcara naquela cidade fantasma. Só chuva, frio e uma mão rasgada pela maçaneta do trem.

Olhou de novo o papel molhado com o endereço. Não entendia a língua local. Era um dialeto jamais ouvido. Se não fosse o maquinista e uma senhora que embarcara com ela, nem saberia dizer qual idioma eles falavam ali. E ainda não sabia. Parecia russo, tcheco, ou algo assim.

Pensava que, um dia antes, estava num país tropical, lendo Simone de Beauvoir e ouvindo Clash. Mas agora tudo era um mistério total.

Depois de desligar o som, fora dormir. Lembrava-se de que se deitara só de calcinha e sutiã. Seu gato, peludo e preguiçoso, aninhou-se entre suas pernas. Daí para frente, não lembrava de mais nada.

Dois homens apareceram. Elegantemente vestidos com terno, calça social, e sapatos de verniz. Ofereceram-se para ajudá-la com suas malas e bolsas. O chão era de areia. Era uma praia, e, apesar da escuridão, ela sabia que não era uma praia conhecida.

Os homens eram altos, de pele extremamente branca. Ambos possuíam doçura no olhar.

_ Nós a levaremos. Fique tranquila.

Os pés dela afundavam pesadamente na areia, dificultando sua caminhada. Por vezes, caía e se levantava. Mas depois que os dois homens se prontificaram a ajudá-la, caminhou com mais facilidade.

Em determinado ponto, contudo, numa bifurcação, eles desapareceram. E agora, ela estava ali, naquele lugar deserto. Uma cidade sem gente. O céu enegrecido, mais a chuva, a deixavam tensa.

Foi quando percebeu dois homens encostados no umbral do que parecia um hotel. Uma estalagem. Entretanto, quanto mais se aproximava, mais percebia que as feições deles iam se transformando em rostos de corvos. E o que pareciam sobretudos, eram, na verdade, as asas dos homens-rapina.

Tremores percorreram seu corpo. Eles sorriram, com lábios em forma de bicos. Notou que pareciam-se com os belos homens da praia. O olhar ainda era gentil. Todavia, lá no fundo, ela notava um brilho cruel. Mortal.

Desmaiada, foi levada pelo ar até a um quarto com uma grande cama, de ferro antigo e retorcido. As paredes eram craqueladas. No canto uma cômoda, com o retrato do seu gato. Mas ele estava morto! Mesmo desacordada, ela via tudo o que acontecia. Pensou no marido. Mas não tinha marido. No filho. Mas não tinha filho.

Num sobressalto, pulou da cama e tentou fugir pelas janelas. Mas elas haviam sumido. Olhou para a porta e um grito horripilante saiu de sua garganta.

Eles! Os dois homens da praia. Só que agora, desfigurados. A verdadeira identidade era diabólica. As maçãs do rosto eram salientes e a pele esburacada. Já não era alva, mas de um cinza medonho. Pareciam excitados ao olhá-la, nua em pêlo.

Enquanto a moça tentava se esconder em um lençol negro, sentiu uma pata peluda tocar em seu rosto. Poderia ser seu gato… Mas ele estava morto!

Finalmente perdeu as forças. Rendeu-se ao terror e pensou que iria morrer. Ou que já estivesse morta.

Não obstante, veio-lhe um desejo de fazer amor. Um desejo real. Estava úmida e com os lábios entreabertos, prontos para beijar. Um dos homens se aproximou. Pousou a enorme mão em um de seus seios. Ela, horrorizada, percebeu que se excitava.

Chorando, quis sair dali, mas o desejo só crescia. Cada vez mais.

Entregava-se, aos poucos, às carícias daquela mão. Foi quando ele disse, sussurrando:

_ Querida, vamos fazer amor?… Adoro pela manhã.

Foi então que abriu os olhos, com certa dificuldade, e descobriu que estivera sonhando aquele pesadelo. Era seu namorado, abraçando-a por trás. Querendo-a.

Sorriu e disse “sim, querido, eu também quero…”

Porém, não conseguia se desvencilhar da lembrança daquele homem que tocou em seu seio. E, lá no fundo, foi com ele que ela fez amor naquela manhã chuvosa.

Arfando, virou para o canto e, antes de voltar a dormir, afagou seu gato peludo.

FIM

Nota – Porque eu também sou filha de Deus hehe.

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Temporada de Exposição de Contos e Poesias Carmen Cardin

ANGÚSTIA

Minh’alma geme: está sangrando;

Meus sonhos gritam: estão morrendo!

Secou a fonte cristalina

Que iluminava os meus olhos.

Minhas puras lágrimas de menina

Tornaram-se amargos abrolhos.

Que os meus olhos vão rasgando

E a minha visão vão distorcendo…

Minh’alma geme: está sangrando;

Meus sonhos gritam: estão morrendo!

Não me sangra só o coração,

A ferida é além da alma…

Ah! O Amor é refrigério

Mas, também, doença que corrói.

De que modo eu me manteria

Serena e calma

Se, no fundo do meu peito,

Há uma chaga que dói?

Minh’alma geme: está sangrando;

Meus sonhos gritam: estão morrendo!

E a tua ausência, me atormentando;

A saudade de ti, me corroendo…

Minh’alma geme: está sangrando;

Meus sonhos gritam: estão morrendo!

FIM

O mistério envolve esta poetisa. Tanto, que ela não mandou o link dos livros publicados. Significa que ela voltará (em vídeos). Para mim é um delicioso mistério!
Com vocês, Carmen Cardin!