Temporada de Exposição de Contos e Poesias Jorge Desgranges

O ANEL E A NARRATIVA

Dizem que o prazer gosta de repetição, mas para tudo há limite. O mesmo restaurante sempre, penso que é exagero. Concordo que a comida é saborosa e sofisticada, mas a mesma mesa e pior, o mesmo garçom, é demais. Troco o vestido e maquiagem, mas a sensação é de estar vendo sempre o mesmo filme. Até os seus atrasos fazem parte da rotina. O garçom chega com aquele olhar lânguido e já me traz o drinque sem que tenha necessidade de pedir. Romeu chega, pede desculpas pelo atraso, explica que na sexta-feira a ponte aérea sempre fica congestionada e torna a dizer que é mais sensato nos encontrarmos direto no restaurante, a meio caminho entre minha casa e o aeroporto, a ter que enfrentar o trânsito e nos sobrar menos tempo. Eu sempre acreditei. Mas esta noite foi diferente. Eu cheguei na hora marcada e surpresa: ele já estava lá. Achei um bom sinal – o que certamente me reprovaria num eventual vestibular para bruxa – e o tal garçom me trouxe uma bebida diferente.

– É cortesia da casa – disse fixando seus olhos nos meus. Retribui com um sorriso generoso e uma sensual cruzada de pernas, permitindo que um palmo acima de meus joelhos ficassem desnudados. Sabia que ele sentia ciúmes do garçom e isto me servia de termômetro para aferir o seu amor. Havia algo com o garçom que o incomodava. Eu tinha uma certa antipatia pelo garçom, mas adorava provocar ciúmes no meu noivo. O garçom me era útil. Senti pela irritação boba de Romeu. Imagina! Eu me apaixonar por um garçom?

Nos beijamos e trocamos as perguntas de sempre. Mas algo em Romeu não era usual. Seu olhar, suas palavras vacilantes, não sei bem o que, mas comecei a me sentir insegura. Segurei suas mãos e elas estavam úmidas. Ao acariciá-las notei a ausência da aliança e estranhei.

– Precisamos conversar – ele disse, para complementar, de forma seca, no instante seguinte – Eu tenho um novo amor – e sentir meu mundo ruir. Acho que não precisava ter dito mais nada, até porque eu já não ouvia. Duvidava se conseguiria sorrir novamente sem ele ao meu lado. E os nossos projetos de vida? As juras de amor? E pensava também, que vergonha, na calcinha que tinha comprado para usar nesta noite. Tive vontade de me jogar aos seus pés e implorar para que ficasse comigo, mas o que me restou de dignidade não permitiu. Apenas tirei minha aliança do dedo anular e a depositei dramaticamente dentro da taça de vinho branco que ele bebia.

– Seja feliz com seu novo bem – foi o que ela me falou enquanto eu retirava o anel de dentro do copo e a via bater em retirada. A última cena foi ver Julieta entrando no táxi sem olhar para trás.

Sempre tentei desamarrar ao invés de cortar. Corte sangra e deixa cicatriz. Mas dessa vez não teve jeito. Mas como lutar contra um sentimento avassalador como o amor. Reinos já foram destruídos, assassinatos são praticados diariamente em nome do mais nobre dos sentimentos. Ora, eu apenas terminei um noivado. E o fiz de forma sincera, contando-lhe a verdade, ou a parte que julguei essencial. Acho que com o tempo Julieta irá entender que a paixão é avassaladora e na verdade, talvez eu seja apenas vítima de minha história. Como alguém pode não ser o protagonista de sua própria saga? Devaneio enquanto brinco com a aliança, abandonada por ela, na palma de minha mão.

O garçom se aproxima e completa a minha taça com vinho.
– Este anel era o dela? – pergunta. Respondo que sim com a cabeça e confesso:
– Sabia que eu sentia ciúme de você com ela?
– Já tinha percebido e ela também. As insinuações eram só na sua presença, para te provocar. Quando você não estava, ela me tratava até com um certo desdém.
– Você ouviu a nossa conversa? – quis saber.
– Um garçom sabe de tudo que se passa no restaurante, nada nos escapa. Mas você agiu com muita hombridade. A verdade sempre nos absolve – ele respondeu. Era o que eu precisava ouvir, para em seguida vê-lo, sem pedir licença, virar as costas e ir atender o chamado de outra mesa.

Fiquei olhando para a aquela aliança em minhas mãos, pensando no que fazer com ela. Devolver? Atirar no mar? Enquanto resolvia, tentei colocá-la em meu dedo mínimo e ela entrou apertada. Para tirar foi um custo, a articulação da primeira falange, mais larga, me obrigou a usar mais força e quando consegui, com a pressão, como a rolha de um champanhe, o anel me escapou e rolou pelo carpete estampado.

Romeu procurou pela aliança. Não encontrando, pediu a conta. Respondi, sem me mover:
– Hoje é por conta da casa.
Ele levantou e saiu sem dizer uma única palavra. Antes, porém, me deixou um olhar misto de cumplicidade e compaixão pela própria sorte, tinha sido uma noite e tanto; ele precisava descansar. Levantei o pé e peguei o anel que repousava sob a sola do meu sapato. Não era um furto. Na verdade ele tinha ficado aliviado por se livrar involuntariamente de um símbolo incômodo do passado. Dizem que a vida corrige sua própria rota e aquele anel em minhas mãos era a prova disto. A aliança agora estava no lugar certo. Eu iria dizer isto a Romeu hoje à noite, deitado em nossa cama.

FIM

Jorge Desgranges é escritor de livros; autor roteirista de televisão formado pela Faculdade Estácio de Sá.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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7 respostas para Temporada de Exposição de Contos e Poesias Jorge Desgranges

  1. michelle gabiatti disse:

    # fiquei inspirada, marcelo… sds de vc tb! =)

  2. M M Schweitzer disse:

    Nossa Michele, muito lindo oq vc escreveu. Saudades 😦

  3. michelle gabiatti disse:

    obrigada =) parabéns pelo blog! sucesso pra todos!

  4. Daisy disse:

    Uma análise belíssima e profundamente perspicaz. Bem vinda!

  5. michelle gabiatti disse:

    # a vida só existe quando o amor é o protagonista… que desvia de um reto caminho (ou labirinto) a pessoa amada… uma paixão avassaladora… sentimento irresistível… rendição… que anula convenções sociais… não podemos subestimar o amor… nem permitir um querer escravo… o amor quer ser modificado… violado… gosto do estilo sutil do autor… o estabelecimento de um apurado jogo entre personagens… através do anel (elo) ocorre a construção de um artifício verbal… instaurando-se com tamanho poder… como inspiração para concluir o conto com um discurso de sedução… adorei! #

  6. Daisy disse:

    Realmente este tipo de narrativa não é muito comum. Lembro que há muito tempo li um romance de uma autora que exerceu esta narrativa. É interessante porque entramos no íntimo de cada personagem, cada um se defente, mostra seu interior em primeira pessoa. Também gosto muito desse conto. Parabéns, Jorge. Você é muito bem vindo a este tão despretensioso espaço.
    Beijo, amigo. 🙂

  7. Nossa Jorge, ja tinha lido (na verdade ouvido) esse conto no curso, so q naquela época eu não tinha o menor interesse em literatura. Eu tinha gostado muito, porem hoje eu vejo, que quem ler isso e falar q gostou muito e por q nao entendeu. As sutilezas, a sabedoria, e acima de tudo, o domínio sobre a narrativa.

    Meu amigo esta genial.

    Pra mim q sempre encontro erro em tudo, seja no q eu escreva, seja no q os outros escrevam, nao existe nada mais liberador que ler algo assim, imaculado, limpo, perfeito.

    Parabéns. Vc faz parecer tao fácil.

    Um conselho a todos (inclusive ao autor), sigam sempre este conselho abaixo na forma de uma pergunta.

    ¨Como alguém pode não ser o protagonista de sua própria saga?¨

    Genial.

Sua opinião me interessa ;)

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