Temporada de Exposição de Contos e Poesias Robert Vinicios

O DINOSSAURO NÃO DORME

Estava naquele bar já havia algumas horas. Tal o estava que não sabia quantas exatamente.

Tomei outro gole. Bati o copo vazio na mesa, como que pedindo mais uma garrafa. Ouvi o arrastar de pés, como se alguém se aproximasse. Cabisbaixo, vi um vulto que parecia ser pernas; permaneci na minha absorção, quase que escondendo o rosto.

A bebida era como um alienígena dos filmes americanos: me abduzia, fazia-me inconsciente, me usava como quisesse e apagava todas as lembranças a respeito do que tivesse acontecido. Seja lá o que fosse, eu não poderia saber nada, só supor.

As pernas do vulto ao meu lado se viraram e foram embora. Não consigo determinar se a pessoa estava em forma de vulto porque o bar era escuro ou por causa de toda a bebida que eu tomava… mas não passava de um vulto!

Quando ergui os olhos procurando o copo, ele estava cheio. O vulto deve ter provido. De vagar peguei o copo e o fui levando à boca, mas os alienígenas me devem ter tirado pedaços do cérebro – eu não conseguia dominar nada de mim. Preferi devolver o copo à mesa.

Comecei a fitá-lo de modo a interrogar por que o seu conteúdo me deixava naquele estado. Ele não disse nada. Mantive os olhos – eram a única coisa que ainda controlava e para compensar eles não definiam nada do que viam e só tive certeza de que aquele era o copo quando ele me piscou um brilho de reflexo. Não achava ele mau, nem bom, mas me inspirava uma curiosidade… um mistério… o poder que ele tinha de fazer a um homem aquela façanha, de o anular quase completamente, e às vezes completamente! Gostei dessa ideia e pensei que devia tomar cuidado.

Não senti quanto tempo se passou até que o mesmo vulto com aqueles pés – eu reconhecia pelo compasso – se aproximou. Não para abastecer o copo vazio, mas para me evacuar do seu estabelecimento. Ia fechar o bar eu devia ir embora. Falou mais algumas coisas que eu não ouvi e saiu. Voltou, falou mais – quase lhe disse que não precisava se desperdiçar, pois eu não estava ouvindo, mas deixei falar, o bar era dele. E agora me ajudava a levantar – na verdade fez a maior parte do trabalho de levantamento, quem ajudou fui eu.

Enquanto ia deixando a cadeira, virei-me e vi o copo. Oscilei por sobre meus pés, pendi para a direção da mesa e tombei sobre ela. Peguei o copo e virei… Aventurei-me a pensar no fenômeno que se passava comigo: as pernas… a cabeça… o corpo… ai, a cabeça… Quando dei por mim já estava lá fora, na rua, a porta do bar baixando, tinha um poste atrás de mim, me assustei, mas quando soltei dele fui para o chão.

Caminhando, estava pesado, inteiramente imerso dentro de mim, mas sem nada distinguir. Minha mente só sentia o meu corpo, as sensações físicas, o ar que eu inspirava, o chão em que eu pisava, uma brisa que me tocava os braços ou o rosto, o ar que eu expirava, o sangue latejando nas têmporas, a garganta…

A esta altura, já estava distante do bar. Minhas pernas faziam um bom trabalho, eu nem notava o trajeto. Pisei em algo e uma sensação me subiu pelo pé, pela coxa, a barriga, o peito, o pescoço, a nuca, até a pele da cabeça… Mirei para ver o que era. Uma poça d’água! A água fez-me de fato aquelas sensações. Custei a acreditar no seu poder. Lembrei do copo poderoso na mesa.

Agora estava em frente à minha casa. Bati a testa na porta, o procurando aconchego que tem a própria casa.

Aborreci-me com a tarefa de destrancar a porta… Quando entrei, logo em frente vi o sofá e, no meio desse ato, meu corpo passou a pesar o dobro. Meu sofá nunca pareceu tão agradável. Deitei.

Nesse momento minha cognição passou a funcionar. A noite entrava pela janela lateral; pensei nas suas estrelas… na sua atmosfera… no seu silêncio… no seu conforto… Meu espírito se aliviava. Ele queria sentir a tranquilidade que finalmente se fizera a minha volta.

O alívio foi tal, que comecei a lembrar d…

Procurei esquecer!

Os pensamentos corriam, se empurravam, se pisavam, se escalavam uns nos outros, disputando a minha cabeça… Foi isso a noite toda.

FIM

Robert Vinicios é ator, escritor e proprietário do Blog O Dinossauro não Dorme

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9 comentários em “Temporada de Exposição de Contos e Poesias Robert Vinicios

  1. Sem dúvidas, Vinicius. A virtualidade separa o homem de si mesmo. Mas ainda bem que algumas pessoas se mantém vivas e humanas. Sim, como nós aqui da temporada. Beijo 🙂 (mais uma vez obrigada, meu querido)

  2. Ah, ótimo q vc gostou…
    (ah, é Vinicius – com “u”)
    O vídeo>
    Além dessa comparação (incomparável) entre as relações reais e as relações virtuais…
    tem ainda a questão dos números. Eles estão importando mais do q o significado.(está melhor ter 500 ”amigos” no facebook do q ter 5 realmente consideráveis).
    A gente pode trazer essa relação p/ os números da Temporada de Contos, não é…?

  3. Puta que merda mais inteligente é essa que não ouço há tempos! ZIGMIUNT BAUMAN desconstruiu a minha alma ameba entre facebooks e aleatórias posições online! Vinícios, SHOW! Agradeeço por me tirar do ostracismo pós-moderno. Estou a te dever, camarada, for ever. BEIJO

  4. Daisy, agradeço seu reconhecimento… muito… Estou até orgulhoso de ler uma coisa dessas aqui, e lembrar que fui eu mesmo que escrevi esse conto!
    Tá rolando uma mentalidade que eu ñ entendo e ñ sei o que os seus seguidores (da mentalidade) têm na cabeça no que se refere aos valores como ser humano, esta espécie tão potente e capaz a que pertencem.
    Quero deixar um vídeo… veja o trecho [17min15s – 20min05s].
    E até maiss… bjx

  5. Uma coisa q aprendi na blogosfera, é que nem tudo que é bom, é comentado 😉 Eu amo esse conto, até porque o autor é humilde, como todo escritor sensível tem de ser…

  6. Com uma descrição dessas, podemos olhar os bêbados da cidade com um outro olhar. Bem escrito e poético. O homem dentro dele mesmo. O álcool foi só um coadjuvante.
    Beijo, dinossauro 🙂

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