Necessitas

Certamente vivemos tempos difíceis. Há crises por toda parte, a fome se alastra; a globalização tem nos massificado com toneladas de informações que, em determinado ponto, não sabemos o que fazer com elas. Cinema caótico, telenovelas, poetas nos botequins achando-se contemporâneos. E assassinos. Muitos assassinos em série. Em minissérie de televisão. Rock, funk, bregas melodias que saíram do Interior para as grandes cidades. Dá medo, fobia. É como entrar e ficar preso num elevador com celular multimídia. Ao mesmo tempo sufocado e livre.

Joan acabou de escrever seu artigo e clicou enter. Olhou para o maço de cigarros, mas não se animou a acender um. Estava exausto. Precisava repor as energias. Noites seguidas de pouco sono. Escrevendo seu livro de ficção, cuidando dos sites, blogs, e de tantos amigos virtuais do facebook. Não fazia sexo há semanas, a namorada se fora para Londres, morar com amigo modelo. Ele continuava em São Paulo. Ele continuava insano.

Precisava assistir a estréia de um filme porque era também crítico, mas seu corpo precisava relaxar. Precisava fazer sexo. Dar uma, nem que fosse com uma putinha qualquer pescada na internet. Trinta anos. Não, peraí, quase trinta e cinco. Ouvira falar que nesta idade o homem começava a declinar sexualmente. Seria isso?

Balançou a cabeça. Impossível. Ele era um touro. Daqueles. Foi para o banheiro. Tirou a roupa e se olhou no grande espelho. Era bonitão, gato. Forte. Os olhos azuis contrastavam com a pele morena. Mistura brava de sangues cruzados. Era bonito. No entanto estava vazio. Olhou os dentes. Tudo em ordem, exceto pela obturação velha no canino. Quem tem obturação no canino? Olhou seu pênis. Ele estava lá. Estava tudo bem. Precisava transar. Sexo. Sexo. Sexo.

Depois do banho desceu do apê e entrou naquele bar antigo onde seu pai bebia e jogava sueca com os amigos.

_ Olá, Joan! – a mulher do dono do bar – Nossa, você está a cara do seu pai! Está até com entrada no cabelo. – a mulher se divertia, sem noção da gafe.

Joan dedicou-lhe um sorriso de escárnio.

_ Está me achando velho?

_ De jeito nenhum! Tu és um gato! – sussurra: _ Ainda dá muito caldo.

O rapaz atendeu o celular. Depois o rádio. O celular de novo. Ir ao cinema, transar ou terminar o artigo do outro site? Lembrou da faculdade de jornalismo e em como sonhara ser repórter de televisão. Bebeu o uísque nacional de um só gole. Por fim dirigiu-se ao cinema. Precisava assistir ao filme. O tal filme.

Era de ação e discutia conspiração da CIA contra os muçulmanos. Nem tinha mulher bonita na película, mas ele estava excitado. Ainda. Sexo. Precisava se desligar de tudo e relaxar.

Na volta do cinema, estava odiando os americanos tanto quanto os muçulmanos. Ele nada tinha a ver com eles. E nenhuma gostosa no filme. Entrou de novo no bar da esquina, antes de ir para casa.

Pediu tequila, depois cerveja. A mulher do dono – Judite, lembrou – sentou-se em sua mesa e disse, convencida de que tinham intimidade:

_ Você parece cansado, Joan. Trabalhando muito?

Acordou com preguiça. Sentia-se relaxado. Até que Judite ainda dava caldo, sorriu.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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6 respostas para Necessitas

  1. Sugel disse:

    Virou, olhou para o meu carro estacionado e saiu em direção dele com a graciosidade de uma gazela, Não contei tempo, acionei o controle remoto para destravar a porta , ela decididamente abriu e entrou. – Essa mulher tem pedigree, – Eu pensei. – Vê se não faz bobagens agora cara! Porque o tesouro está na sua mão – Falei baixinho comigo mesmo.

  2. Daisy disse:

    Marcello, vc é novo por aqui. “Necessitas” é ‘necessidade’ em latim. O texto busca antigas raízes na solidão do homem. Mistura o que já era esperado há tempos. O homem está cada vez mais solitário, mas não pode prescindir de contato humano. Teu livro é prova da pancada virtual que recebemos, e embora já estivesse escrito que a ciência se multiplicaria e que o mundo se comunicaria sem fronteiras, existe uma casta (uau), que defende o direito de termos contato humano, caso contrário, a informatização dos valores seria unânime, mas, eu e muitos por aí, iremos discutir o direito de desligarmos nosso computador e sermos humanos de verdade. O personagem está só, em frente ao computador. Mas não quer estar só. Ele tem sua individualidade, mas se dá ao direito de fazer sexo, pessoalmente.

  3. Muito bem escrito, so q não sei bem pra onde esta indo, ou qual a mensagem.

    abs

  4. Daisy disse:

    Manuel, é tbém uma crítica ao universo virtual. Tem um livro de uma psicóloga barsileira onde ela afirma que dentro de alguns anos até casaremos pela internet, nos amaremos e nos divorciaremos, tudo de forma virtual. Será? hehe

  5. Daisy disse:

    Será, Manuel? 🙂 (obrigada por suas visitas)

  6. “Deus inventou o sexo, nós inventámos o amor. Ele tinha razão.”

    Beijo meu.

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