Da vergonha de Cristo

Nas Palavras de Jesus Cristo, consta que Ele se envergonharia, um dia, daqueles se evergonhassem d’Ele.

Eu não me envergonho do Cristo, mas dos homens que denegriram Sua imagem, das pessoas que atribuiram a Ele, toda sorte de maldade e tirania; as que disseram e ameaçaram-nos aos fogos do Inferno, alcunhado-me anticristo, materializando o que, possivelmente, não passa de uma metáfora. Mas eles disseram que queimaríamos – literalmente – e eternamente nas chamas que não se apagam jamais.

O Inferno pode ser a ausência de paz, da presença de Deus; inferno pode ser conviver com pessoas más, que, sem caráter e amor, maltratam e matam seres indefesos. Inferno pode ser viver em um lugar sem água fresca e potável, pode ser a fome assolando nossas casas, ou um Império onde o líder se interesse apenas na exploração do povo.

Não me envergonho de Cristo, entretanto, também não me sinto à vontade num igreja onde sou testada, apontada, e traída. Num igreja onde as indulgências da época medieval hoje são disfarçadas em ‘campanhas de prosperidade’ e mais outras tantas, como se pagando pudéssemos melhorar de vida, seja nas finanças, no âmbito familiar, na saúde.

Sinto-me não só envergonhada, como constrangida em ver crentes se expressando sem o menor embasamnento, apenas repetindo, como papagaios pragmáticos o que seus pastores falam em seus sermões. E quando um membro me nega um beijo, esquecendo-se dos santos ósculos com os quais os primeiros cristãos se cumprimentavam.

Não sinto vergonha de Jesus Cristo, e muito menos de Suas Palavras, mas da hipocrisia com que os santos se vestem, escondendo debaixo das suas roupas uma libido que somente um deus poderia desmascarar. Vergonha senti e sinto quando homens vão para a televisão anunciar a cura, a vitória e a salvação como show men, quando a realidade é outra. Afinal, o homem só cresce quando sofre.

Vergonha de lembrar-me de Tolstoi, Lutero, ah, o Lutero que lutou contra a mentira, mas a mentira está de volta nas bocas ensandecidas dos que fazem culto, segundo eles, a deus. Que deus é esse que nega comida e agasalho a uma pessoa necessitada? Que deus é esse que perscruta o bolso dos membros, impondo os dízimos, quando nada me convence de que Jesus o tenha instituído como lei ou obrigação.

Definitivamente não tenho vergonha de Cristo, mas dos papas, dos pastores equivocados e manipuladores, das beatas, dos padres, das canções falsificadas de louvores que só induzem a uma ilusão de emoções. Vergonha de ver tantos analfabetos em frente ao orador, aceitando o que não contesta. VERGONHA de ver tribunais na terra condenando o homossexual, a prostituta, quando o próprio Cristo com eles foi ter.

Posso ser pródiga, mas não blasfemo, apenas registro a minha verdadeira vergonha. Que é a do meu semelhante. Do meu próximo que está cada vez mais afastado de mim, por conta de seus dogmas, seu egoísmo; e de sua incrível capacidade de reinventar o Cristo.

Essencial seria aprendermos o real significado do Amor ao Próximo.

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