Confissões de uma desvairada


FOTO – HELMUT NEWTON

Acordei sem saber por onde começar. Se pedindo perdão pela ausência, ou se confessando minha traição. Não sei bem qual seria sua reação, mas nosso amor sempre fora tão digno, maduro. Entretanto, há coisas na vida que não esperamos que aconteça e, quando vemos, estamos encrencados, apaixonados, desvairados, a trair um grande amor.

Ele é mais jovem. E como todo jovem, veio cheio de alegria, me tirando o sono. Inteligente, mil novidades saindo de seus lábios, praticamente não resisti, logo me entreguei a esta nova paixão.

Sedutor e menino, me apresentou a vários amigos, e me apresentou como sendo sua nova dona, sua amante. Esses jovens são intempestivos, contumazes. Nada tem a temer; sabem que toda mulher mais velha se encanta com eles, porque os mais velhos tendem a se encantar pela disponibilidade de vida que o jovem traz. É uma armadilha bem feita, e eu caí feito uma patinha.

Quando dei por mim, já estava me comunicando com ele, às seis e meia da manhã. Ou indo dormir depois da meia noite: “desliga você, amor… não, desliga você”. E as horas passavam, e quando via, já era madrugada e eu ali, sem conseguir dormir, de tanta paixão. Meu Deus! Aonde isso iria dar, eu perguntava a mim, pensando no meu velho amor, com angústia e sentimento de culpa.

Hoje, porém, resolvi procurar o antigo e lhe contar tudo. Arriscaria não vê-lo mais. Esse pensamento me matava por dentro. Mas eu lhe contaria tudo. E ele sempre deixou claro que sem mim morreria para sempre. Que nunca mais ninguém ouviria falar dele. E que nossas lembranças sucumbiriam com ele – morto!

Medo. Sentia medo nesta manhã de revelações. Pois não queria perdê-lo. Íntimos, tantas coisas passamos juntos. Anos aprendendo em dupla, anos errando, mas sempre juntos. A fidelidade sempre fora nossa marca registrada. E agora, cá estava eu, viciada num jovem. Apaixonada por esse louco e falador rapaz que me tirava o sossego, mas que me satisfazia, me realizava e me rejuvenescia a cada dia.

O que passava era drama real. Podia sentir cheiro de tragédia no ar.

Escrevo da casa dele, velhinho saudoso. Estou bem aqui, praticamente dentro dele, escrevendo essas linhas de confissão. Já não poderia mais mentir. Como explicar que, apesar de tudo, do outro, ainda o amava? Que, por mais que essa nova paixão me queimasse a alma, eu sempre seria dele?

Já não tenho como esconder. Ele agora sabe de tudo! Acho que sofre. Calado, apenas acompanha minhas mãos enquanto escrevo. Aliás, nós sempre nos comunicamos assim: através de meus escritos. Como ele me ama! Quanta coisa me ensinou. Como me corrigiu em minha carreira de escritora…

Agora que meu Blog já sabe do Facebook, ele se cala, mas me surpreende dizendo:

“Eu não me importo. Sempre que precisar de mim, estarei bem aqui, a te esperar, com o mesmo amor com que te amei desde a primeira vez.”

Ah!, meu velho Blog, choro. Como eu te amo. E serás meu para sempre também.

E ainda o ouvi dizendo: “E, querida, você esqueceu do acento diferencial no verbo ter, terceira pessoa do plural.”

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Medo

A freira dobrou a esquina e deparou-se com um estranho homem. Barba por fazer e mal vestido, uns quarenta anos, tinha aço no olhar. Estremeceu. Olhou para todos os lados. A rua estava deserta. O homem avançou em sua direção, de forma ameaçadora. Ela deu meia volta e correu. Correu com dificuldade. As saias farfalhando e o véu voando na velocidade de seu medo. Quem visse aquela figura, acharia que era cena de algum filme de comédia, pois a mulher lutava para correr, com tanta roupa.

Por outro caminho, chegou à casa de um parente e entrou. Estava indo visitá-lo. Depois de acalmar-se, fez as rezas, tomou chá, comeu bolo, mas a imagem sinistra daquele homem não lhe saía da cabeça. Sem dar atenção ao primo doente, chegou até a janela. Um calafrio percorreu seu corpo. Ele estava lá, encostado ao muro, em frente à casa do primo! Com a mão suja, acenou-lhe, com um sorriso cruel. Era o sorriso de um psicopata, ela tinha certeza.

Uma hora depois, pigarreou e despediu-se do parente. Já estava escurecendo e não podia mais se demorar. Olhou de novo e não o viu mais. Suspirando aliviada, beijou o crucifixo de prata e se foi aparvalhada, chegando a derrubar a chaleira e o bolo, ao roçar a toalha de mesa.

Chegou à rua. Apressando os passos, foi tentada a olhar para trás. Tinha a impressão de que estava sendo seguida. E só poderia ser pelo homem mal encarado. Aquele marginal. Poderia ser até um estuprador. Ora, se havia até quem fizesse mal às velhinhas, pensou, por que não um estuprador de freiras?

E ela, apesar do véu e de tanta saia, era bonita e jovem.

Finalmente olhou para trás. Não! Ele estava a alguns metros dela. Seus passos eram pesados. O sobretudo velho e puído a assustaram mais ainda. Agarrou o crucifixo. Pediu forças a Deus. Apressou os passos. O homem também. Mas não correria. De jeito nenhum! Já havia ofendido a Deus quando correra na primeira vez. Tinha fé. Não correria.

Todavia, atravessou a rua com sinal aberto. Quase foi atropelada por uma moto. E então, aproveitou esta vantagem e pegou um táxi. Alívio. Escapara. Despistara o homem mau.

Chegou à igreja ao anoitecer. Respirou aliviada. Benzeu-se e foi para seus aposentos. A igreja estava vazia. As irmãs haviam viajado. Uma convenção de freiras carmelitas. Ela ficara para tomar conta do lugar. Havia pivetes na vizinhança. Futuros estupradores e ladrões, pensava, sempre que os via.

Entrou em seu catre. Devagar e contemplativa, foi se despindo aliviada, recordando aqueles momentos pavorosos que vivera. Aquele homem. Aquele indivíduo poderia ser até mesmo um assassino. Um ladrão.

Teve um sobressalto ao ouvir barulho no andar de baixo. Pareciam os castiçais. Santo Deus! Esquecera de trancar a porta! Seriam os pivetes?

De camiseta e anáguas, desceu vagarosamente as escadas. Desde criança ela possuía este tipo de reação diante do medo. Partia para cima. Certa vez, quase morrera afogada na praia por enfrentar uma enorme onda, ao invés de correr.

Sem nenhum ruído, foi descendo. Pé ante pé. A cada degrau, seu coração batia mais forte. Outro ruído, dessa vez mais forte. Algo pesado caíra no chão. Na curva da escada, esticou o pescoço para tentar ver alguma coisa.

Lá estava ele! Ela sabia. Era o homem do sobretudo!

Sufocou um grito e voltou, subindo apressadamente as escadas. Trancou-se no quarto. Ouviu os passos dele se aproximando. Chegou até a porta do aposento.

Toc-toc-toc!

Estremeceu de tal forma, que pensou que fosse ter uma convulsão. Medo! Pavor! A fechadura sendo forçada. A porta era de madeira frágil. A fechadura era simbólica, diziam sempre. Maldição, ela sempre achara estranho essa falta de segurança. Agora estava ali, a mercê de uma maldita fechadura simbólica!

Um estalo, e a porta cedeu. Antes de olhar para o intruso, ela desmaiou.

Acordou. Estava deitada em sua cama. No umbral da porta o homem a encarava, taciturno. Ela tentou dizer algo, mas nenhum som saíra.

Ele deu alguns passos em direção à sua cama. A freira só pensava em escapar com vida daquela funesta aventura. Pensava em seus vinte e sete anos. Deveria mesmo ser freira? Poderia estar casada, com filhos. Teria um marido a defendê-la. Teria amor de um homem. Era virgem! Seria estuprada? Morta? Degolada? Tentou gritar, mas o homem a impediu com um gesto.

O mendigo retirou a mão esquerda do bolso e estendeu-lhe algo que ela compreendera, finalmente, ser sua bolsinha, onde guardava seu dinheiro. Pestanejando pegou o objeto. Já havia dado conta da perda quando fora pagar o táxi, precisando pegar dinheiro da caixinha.

O homem a despertou de seus pensamentos, dizendo, antes de ir embora:

_ Desculpe arrombar a porta do seu quarto. Se não fizesse isso, você não abriria e ficaria a noite toda aí, tremendo, achando que tinha um estuprador ou ladrão aqui. Sua bolsa caiu e eu só queria devolver. Os castiçais, se é o que está pensando, eu os peguei nas mãos, pois jamais toquei em um desses. Mas não sou ladrão.

_ O-obrigada, senhor!

O homem sorriu um sorriso amarelado, com alguns dentes estragados e se foi. Ela o seguiu, insegura, para trancar a porta debaixo. Ele se foi, finalmente.

A freira ajoelhou-se diante do altar e rezou, pedindo perdão por sua covardia e falta de fé. E então foi dormir, apagando todas as luzes. Silêncio total.

Entretanto, lá pela meia noite, toda a vizinhança ouviu um grito horripilante de mulher, vindo da direção da igrejinha.

Conexões com Verdi

Onde está minha cabeça neste imenso universo?
Descansando é que não está.
Está na velocidade de todas as coisas. Captando novidades, ouvindo música electrônica como se fosse valsa de Verdi.
Compondo imagens, fazendo colagens, multiplicando ações, gritando na manhã depois da madrugada sem dormir. Upload de lágrimas e de dor.
Meu pensamento desdobra-se às coisas novas e às velhas também; tudo arquivado na memória humanizada pela vontade de escrever.
Minha cabeça está onde o espírito vaga inocente, rezando e dançando aquela valsa.
Estamos todos conectados, fase de mutação, criando outro homem.
Transformação na alma, no coração, nas embalagens dos leds, na fila do banco, celulares a tocar.
Wagner música de fundo, elétrico momento, eletrônico tônico que faz crescer o novo homem, a nova criatura, repensando milênios, rebuscando formas de vida, censurando o velho, querendo tecnomanias, abusando das velhas poesias, esquecendo-se Castro Alves, baixando mp3, suspirando em inglês.
Globaliza-te, ó alma, conecte-se espírito de deus, avante portais modernos, desligue a geladeira, engula pílulas de alimentação, tenha seu avatar e dance eletrônica, sorria eletrônica.
Onde está minha cabeça, sua cabeça, a cabeça dos bebês?
Onde estão as cabeças dos loucos, dos compositores, dos doutores?
Conecte-se a mim, faça amor virtual, chore sem lágrimas, exista em seu tempo.
Vamos dançar aquela valsa? Mixada com electrônicas, desmaiada no tempo que corre, que voa, que deixa para trás a bolinha de gude, o papagaio, as estrelas.
Conecte-se a mim, e estaremos ligados pela chuva de poeira cósmica, mas estaremos felizes, conectados à morte da viola, da cantata, e do violão.
Não importa, a serenata é sarau eletrônico, a noitada é de dia, é rave, é raiva, é uivo!
Onde está sua cabeça?
Conecte-se a mim, baby. Vamos dançar!

Cara Pálida – Música

Me transformei num cara pálida
E desliguei minha tv

Passei a andar nu pela floresta

Oh! Eu não sei se eram os antigos
Índios que diziam assim:

Arco e flexa, índios que diziam assim
Cara pálida, índios que diziam assim
Cara pálida
As florestas estão vazias

Sonhos de índios agora não existem mais
Viraram homens
Não são mais animais.

(Mauí Araújo – in memorian)