Medo

A freira dobrou a esquina e deparou-se com um estranho homem. Barba por fazer e mal vestido, uns quarenta anos, tinha aço no olhar. Estremeceu. Olhou para todos os lados. A rua estava deserta. O homem avançou em sua direção, de forma ameaçadora. Ela deu meia volta e correu. Correu com dificuldade. As saias farfalhando e o véu voando na velocidade de seu medo. Quem visse aquela figura, acharia que era cena de algum filme de comédia, pois a mulher lutava para correr, com tanta roupa.

Por outro caminho, chegou à casa de um parente e entrou. Estava indo visitá-lo. Depois de acalmar-se, fez as rezas, tomou chá, comeu bolo, mas a imagem sinistra daquele homem não lhe saía da cabeça. Sem dar atenção ao primo doente, chegou até a janela. Um calafrio percorreu seu corpo. Ele estava lá, encostado ao muro, em frente à casa do primo! Com a mão suja, acenou-lhe, com um sorriso cruel. Era o sorriso de um psicopata, ela tinha certeza.

Uma hora depois, pigarreou e despediu-se do parente. Já estava escurecendo e não podia mais se demorar. Olhou de novo e não o viu mais. Suspirando aliviada, beijou o crucifixo de prata e se foi aparvalhada, chegando a derrubar a chaleira e o bolo, ao roçar a toalha de mesa.

Chegou à rua. Apressando os passos, foi tentada a olhar para trás. Tinha a impressão de que estava sendo seguida. E só poderia ser pelo homem mal encarado. Aquele marginal. Poderia ser até um estuprador. Ora, se havia até quem fizesse mal às velhinhas, pensou, por que não um estuprador de freiras?

E ela, apesar do véu e de tanta saia, era bonita e jovem.

Finalmente olhou para trás. Não! Ele estava a alguns metros dela. Seus passos eram pesados. O sobretudo velho e puído a assustaram mais ainda. Agarrou o crucifixo. Pediu forças a Deus. Apressou os passos. O homem também. Mas não correria. De jeito nenhum! Já havia ofendido a Deus quando correra na primeira vez. Tinha fé. Não correria.

Todavia, atravessou a rua com sinal aberto. Quase foi atropelada por uma moto. E então, aproveitou esta vantagem e pegou um táxi. Alívio. Escapara. Despistara o homem mau.

Chegou à igreja ao anoitecer. Respirou aliviada. Benzeu-se e foi para seus aposentos. A igreja estava vazia. As irmãs haviam viajado. Uma convenção de freiras carmelitas. Ela ficara para tomar conta do lugar. Havia pivetes na vizinhança. Futuros estupradores e ladrões, pensava, sempre que os via.

Entrou em seu catre. Devagar e contemplativa, foi se despindo aliviada, recordando aqueles momentos pavorosos que vivera. Aquele homem. Aquele indivíduo poderia ser até mesmo um assassino. Um ladrão.

Teve um sobressalto ao ouvir barulho no andar de baixo. Pareciam os castiçais. Santo Deus! Esquecera de trancar a porta! Seriam os pivetes?

De camiseta e anáguas, desceu vagarosamente as escadas. Desde criança ela possuía este tipo de reação diante do medo. Partia para cima. Certa vez, quase morrera afogada na praia por enfrentar uma enorme onda, ao invés de correr.

Sem nenhum ruído, foi descendo. Pé ante pé. A cada degrau, seu coração batia mais forte. Outro ruído, dessa vez mais forte. Algo pesado caíra no chão. Na curva da escada, esticou o pescoço para tentar ver alguma coisa.

Lá estava ele! Ela sabia. Era o homem do sobretudo!

Sufocou um grito e voltou, subindo apressadamente as escadas. Trancou-se no quarto. Ouviu os passos dele se aproximando. Chegou até a porta do aposento.

Toc-toc-toc!

Estremeceu de tal forma, que pensou que fosse ter uma convulsão. Medo! Pavor! A fechadura sendo forçada. A porta era de madeira frágil. A fechadura era simbólica, diziam sempre. Maldição, ela sempre achara estranho essa falta de segurança. Agora estava ali, a mercê de uma maldita fechadura simbólica!

Um estalo, e a porta cedeu. Antes de olhar para o intruso, ela desmaiou.

Acordou. Estava deitada em sua cama. No umbral da porta o homem a encarava, taciturno. Ela tentou dizer algo, mas nenhum som saíra.

Ele deu alguns passos em direção à sua cama. A freira só pensava em escapar com vida daquela funesta aventura. Pensava em seus vinte e sete anos. Deveria mesmo ser freira? Poderia estar casada, com filhos. Teria um marido a defendê-la. Teria amor de um homem. Era virgem! Seria estuprada? Morta? Degolada? Tentou gritar, mas o homem a impediu com um gesto.

O mendigo retirou a mão esquerda do bolso e estendeu-lhe algo que ela compreendera, finalmente, ser sua bolsinha, onde guardava seu dinheiro. Pestanejando pegou o objeto. Já havia dado conta da perda quando fora pagar o táxi, precisando pegar dinheiro da caixinha.

O homem a despertou de seus pensamentos, dizendo, antes de ir embora:

_ Desculpe arrombar a porta do seu quarto. Se não fizesse isso, você não abriria e ficaria a noite toda aí, tremendo, achando que tinha um estuprador ou ladrão aqui. Sua bolsa caiu e eu só queria devolver. Os castiçais, se é o que está pensando, eu os peguei nas mãos, pois jamais toquei em um desses. Mas não sou ladrão.

_ O-obrigada, senhor!

O homem sorriu um sorriso amarelado, com alguns dentes estragados e se foi. Ela o seguiu, insegura, para trancar a porta debaixo. Ele se foi, finalmente.

A freira ajoelhou-se diante do altar e rezou, pedindo perdão por sua covardia e falta de fé. E então foi dormir, apagando todas as luzes. Silêncio total.

Entretanto, lá pela meia noite, toda a vizinhança ouviu um grito horripilante de mulher, vindo da direção da igrejinha.

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8 comentários em “Medo

  1. Oi, Marcela. Fica o final suspenso. Ela pode ter se assustado com alguma coisa. Os pivetes e o homem serem do bem. Pode ter sido o homem quem voltou. A base é filosófica, logo, quem garante que ela não esteja enlouquecendo? 😉

  2. Oi, querido LU,
    Se causou essa sensação, então é muito bom pra mim. Quando vc vem aqui é sempre uma surpresa agradabilíssima. Beijo

  3. Querida Maria Isabel, não resisti e copiei teu comentário do face e trouxe pra cá. Espero que me perdoe hehe. É porque sua análise foi muito boa mesmo. Obrigada poe seu apoio.

  4. “…qto ao conto muito bom,mas eu penso que uma freira ingênua teria medo como qualquer outra pessoa do que poderia acontecer ao deparar com o desconhecido.o medo é capaz de criar coisa que não existe.o medo pode ser bom ,qdo sinal de alerta ,pode ser mal qdo sinal de desconfiança.mas voltando a freiras talvez o maior medo que ela pudera sentir foi um desejo latente pronto pa ser vivido ,mas sem coragwem em reconhecê-lo. a sexualidade reprimida potencializando o desconforto.alivio e arrependimeento diante de como equivocou,mas tb foi uma ilusão que se desfez”

Sua opinião me interessa ;)

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