Um livro sem público – Henri N. Levinspuhl

Um livro sem público – Prefácio do novo empreendimento do autor, Henri Levinspuhl, clássico entre os duvidosos, quase solitário nessa jornada onde prefere manter a boa escrita intacta e livre dos vírus virtuais pós-modernos.

A degenerescência pública é um dos fenômenos mais sigilosos entre os que apreciam falar corretamente consoante certo sentido político bastante ardiloso. A educação que essa forma de falar – ou seria melhor dizer calar? – promove, o silêncio de qualquer verdade que não convenha à referida política, é um obscurantismo hoje sumamente honrado entre os que, consciente e inconscientemente, ajudam a promover aquela degeneração secretíssima. Mas quem conhece um pouco a natureza humana sabe que sublevar o mundo em busca de algo melhor costuma piorá-lo, como pior já se tornou sem que os sublevadores fizessem mea-culpa. Como admitir a degeneração pública sem expressá-la? E por que não se pode admiti-la, então? Não será porque uma verdade assim tão clara deixe de avalizar a política que quer fazer do silêncio sobre seus extravios a correção do discurso? Bem, esse público, então, deve ser uma massa notável, bajulada com honra de populista, e uma fonte de poder estupenda em favor da impotência da mesma massa. Por que um autor o procuraria? Quando cansados da mais mínima interferência dos mecenas, da corte e da igreja, e sonhando vender sua arte ao público, os artistas o procuraram em seu desejo de emancipação, quem os convenceu de que a arte não acabaria sujeitada ainda mais opressivamente? Pois logo o público pouco ou nada saberia dela, logo seria massa amoldável para os objetivos maquiavélicos da injustiça do novo príncipe. Quando penso, então, nos livros a ler ou escrever ainda, e nos leitores que procuro – bem, existem livros que levam leitores a pior, e leitores que levam qualquer livro a pior. Existem livros que mereciam ser lidos, mas quase não são; pois cobram uma habilidade a mais de leitores que já não se esforçam por remar entre suas ideias, e de modo que são elas agora ilhas desertas, a despeito de um mundo tão mais populoso. Sim, um mundo no qual os livros que mereciam ser lidos mal podem competir com outros tantos que não deveriam ter sido escritos. Enquanto leitor, eu olho para o oceano sob o céu imenso, e o mar é generoso receptáculo de minha fardelagem, os livros para os quais eu já não poderei dar as horas de minha vida restante. E como autor, bem, eu não tenho o sucesso em tão alta estima a ponto de amoldar meus livros ao gosto do respeitável público. Eu busco apenas aqueles poucos que melhor me compreendam. Se o público pode endinheirar um autor, se a tiragem aumenta, vá lá; mas para ele, a erudição clássica rescende à velhice – e mais que nunca quando todo refinamento soa retrógrado, porque, no dizer de Hamann, o público vê apenas bolor, mas o público hoje bem pode incluir… a classe letrada!

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2 comentários em “Um livro sem público – Henri N. Levinspuhl

  1. Eu entendo que é justamente disso que o Henri está falando: Ninguém mais quer os clássicos por acaharem cansativos. Acho que a discussão proposta será esta, Marcello.
    Obrigada por sua opinião. Abraço. 🙂

  2. Um conselho ao autor, se vc tem uma ideia, se vc tem algo a dizer, seja claro, enquanto que malabarismo de gramatica e narrativa sao bons exercícios para se aprender a escrever e dominar a palavra, o uso constante dos mesmos e chato e pedante, e acaba sempre por obscurecer a obra e a mensagem da mesma.

    abs

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