Qual mulher?

Qual mulher, não se importando se feia ou bela
Não quer, toda manhã, nua, abrir sua janela
E, como Quintana, ver a mesma paisagem
Mas numa nova tela, nova página, um novo homem…

A beleza não está no rosto zoom, nas pernas cruzadas
Mas no momento dos ‘ais’ sem fingimento, sem pudor.
O amor nasceu para mim e para você
Eros, éramos tão bem felizes, mas e agora?
Sentada na cadeira, a tarde inteira vira noite de terror,
Ama a madrugada e eu sozinha porque não vens.

Não vem um homem, não vem um corvo!
Desde quando é pecado falar de carne, de querências?
Sem rosto não posso ficar, sem corpo tu não me amas
Close, close em meu coração
Se tiro o roupão, para que banho a sós?

Se viesses, com bebida e Hilda de presente
Jantaríamos lagosta ou ovos fritos, afinal quem comeria?
Oh, meu querido, não vê que já cai a noite e estrelas hoje não!
Chove e berra o trovão – Não! Tu não virás.

Habite meu rosto, close das tristes, beleza não há
Se nada há que beijar, rosto para quê?
A não ser o espelho que envelhece comigo
Ninguém mais tem me querido.

E mesmo se houvesse, é a ti que amo,
E, ainda assim, anoitece e tu não vens
Matar meu desejo e desejar não é pecado
E se for, afasto-me de Deus por alguns momentos
E oro sobre teu dorso…
Mas tu não virás – Tu não virás!…

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Reino Acabado

Ela estava cansada de ceder a todos. Ouvir seu nome adulterado prostituído, e mal afamado em toda parte.
Mas é melhor que ela mesma conte sua estória.

Meu nome era falado nos botecos, padarias, cemitérios, na casa do pobre. Na mansão dos ricos.

Um dia, eu resolvi ter com o chefe da empresa e fui direto ao assunto.

Disse:
_ Não quero mais trabalhar neste cargo.

O chefe me olhou e respondeu, com sua voz grossa e concentrada, enquanto roçava a mão na barba.
_ Não existe uma substituta. Eu a treinei. Eu a fiz nesta empresa.

Eu, com as faces rubras e quase irada, respondi, enfrentando-o pela primeira vez.
_ Eu virei uma espécie de religião. Em todo assunto sou citada para resolver as falhas dos outros. Peço demissão.

Meu chefe se levantou da cadeira confortável, acolchoada. Era difícil vê-lo perder o controle. Porém, neste dia, sua mão enorme socou a mesa.
_ Você não está pedindo demissão, mas querendo começar uma rebelião!

A partir daqui eu continuo.

A funcionária foi demitida por justa causa. A empresa não poderia se sustentar sem ela. Ficou tudo de pernas pro ar.

Hoje, aquilo lá é uma zona, balbúrdia. Todo mundo enfurecido, já não se acredita em nada. Aumento de salário, promoção. Em nada!

O Reino da Ilusão, hoje, vive triste porque o Rei adoeceu e não houve quem o curasse, afinal ela se fora. Estava apodrecendo nos porões do castelo. E, irresoluta, mantinha sua palavra. Não era prostituta. Presa, esqueceram-se dela.

E foi assim que o Reino da Ilusão ficou sem Esperança, a única funcionária que tinha credibilidade naquelas paragens.

Terra

Há muito barulho e mesmo assim eu grito mais alto do meu apartamento, calem-se e eu não posso escrever e nem ficar a sós. Bailes e algazarras, carros, buzinas na alma, drogas na esquina, e onde está a paz, onde a vergonha do Estado, procuro por respostas e nada vem, então só escuto silêncio, murmúrios de capetas, políticos articulando-se, e uma presidenta de saias-calças que não convence, a máquina é brutal, não temos mais heróis, vamos sonhar, videogames, nos transportar para outra dimensão, orar, berrar, ou silenciar. Faça-se algo pela África de cada um de nós, cada um de nós temos fome de algo, sede de alguma coisa, um líquido antídoto que nos leve ao nirvana do apocalipse, que nos traga a uma nova era, uma florida terra. Os urubus estão de plantão, milhões escorregando, saindo do país, ilhas exóticas, ilhas desnudas, mulheres despidas, ônus da transação, filme ou ficção, Hollywood das nações, Europa e bombas, cadáveres ao mar, petróleo – o dono do mundo. E minha poesia morre nos jornais, em cada desses bacanais, ela não sustenta a globalização, bioquímica, biodegradável, biocombustível, Bio. Minha vida indo aos poucos morar em outro lugar, e eu vou te levar, poesia, dentro de mim, escondida no aeroporto os cães não a farejarão. Estarás segura em meus intestinos, minhas entranhas. Paradoxo, ó deus, miséria contemporânea, dormir na estação de marte, sonho de milionário, sem José rico. Sertão e veredas, onde estão meus poetas? Entre as teclas do computador, gritando mais alto que o cristo redentor. Silêncio, eu te faço agora. A dor aumentou, analgésico. Não votarei.

Os Hóspedes

Eu vinha caminhando com meus lentos passos, jamais tinha pressa, nenhum motivo para chegar em casa, e não mais sentia fome. Já estava acostumado a chegar no maldito cortiço, ler o jornal da semana passada que o vizinho jogava no lixo, desembrulhar o pão dormido do amigo da padaria e me deleitar com as notícias que já havia escutado no metrô.

Minha vida era uma repetição de coisas sem graça e sem sentido, uma monotonia absurda, uma existência vazia de um homem ignóbil que toma conta de cachorros num abrigo pobre, mal cheiroso, que nem se sustentava. Uma rotina desgraçada, sem cor, sem sombra, uma vivência silenciosa, funesta.

Era uma sexta- feira e com um pouco de sorte eu teria mais de um jornal, já que a empregada do vizinho costumava deixar para o fim de semana a faxina. Não deu outra, lá estava aquela bonita pilha de jornais que, além de informar o que eu já sabia, servia também para esquentar a velha cama.

Entro em casa, a porta fica sempre aberta. Percebo que tenho visitas. Não saberia exprimir minha sensação naquele momento. Era bom desfrutar de companhia mas a comida era pouca.

Olhei para o meu amigo e reparei discretamente que não estava sozinho. Trouxera mulher e filhos. Óbvio que estava sem ter onde ficar, principalmente nestas noites frias de São Paulo. Sorri meio sem jeito, olhei para aquela família tão desgraçada quanto eu e apertei o pão na mão, amaldiçoando minha miséria.

Como dizer que eu estava mais acabado que ele… ao menos meu amigo era casado e tinha suas crianças. Já éramos companheiros de longa data mas confesso que embora soubesse que ele não era sozinho no mundo, não esperava que aparecesse com mulher e filhos. Todos com inconfundível olhar de fome.

Sempre nos comunicamos pelo olhar, era uma regra básica: para que falar se sabíamos ambos que não há assuntos para os famintos…

Voltei à padaria com passos apressados e atordoados; ainda deu tempo de pedir mais pão com o coração agoniando de vergonha. Por isso às vezes era mais fácil roubar, meu camarada, era preferível roubar a ter que suportar o olhar de misericórdia e desprezo do homem gordo, cheio de bigodes, era cabelo que não cabia mais na cara…

Voltei para casa emocionado por poder oferecer alimento ao meu amigo e sua família. Senti-me repentinamente forte, leal, um vencedor…

Jantamos em silêncio, cada qual mastigando timidamente sua dor. Disfarcei e reparei melhor nas crianças: eram magrinhas, mas possuiam os olhos espertos do pai. Tinham energia apesar da magreza.

Logo que acabaram seu jantar, puseram-se a correr pelo cômodo minúsculo do meu assombro. Parece que crianças não percebem a miséria, isso era bom porque eu, parceiro, era uma ilha de pobreza, cercada de azar por todos os lados, um agonizante morador da rua da perdição, um escravo do poder capitalista. Um pouco letrado de tanto ler os jornais, mas um João Ninguém…

Forrei umas cobertas rasgadas no chão, bem perto da porta para que ninguém abrisse e assustasse meus hóspedes. Ao meu amigo, ofereci-lhe minha surrada cama, afinal eram uma família e eu apreciava muito um família unida.

Dormiram todos confortavelmente enquanto eu tentava conciliar o medo, um inferno atordoando minha cabeça, maltratando meu sono com uma só pergunta: o que oferecer aos hóspedes para o desjejum? Virei pro canto e dormi com uma refrescante lágrima no meu rosto curtido de rua…

No dia seguinte, acordei antes de todos e resolvi que não iria pro abrigo de cães, eu precisava conseguir comida, não passaria essa vergonha, não eu, um farrapo de homem, mas com dignidade suficiente para entender que hóspedes devem ser bem tratados, ainda mais esse meu amigo, um verdadeiro companheiro de solidão e medo.

Cheguei à padaria no exato momento de muito movimento e roubei um pedaço de queijo branco, eu sabia que crianças gostavam. Empurrei para dentro das calças. Depois um salame médio que escondi no paletó surrado, enfiei no bolso que não era rasgado…

Na saída o bigodes fartos me chama e eu tremo como jamais tremi. Já roubara outras vezes, mas alí, logo na padaria do homem que matava minha fome, seria meu fim se fosse descoberto.

Porém ele se aproxima e estende mais pães da sobra de ontem. Olho para cima, fingindo agradecer à um Deus que jamais vi e nem acreditei. Corro para casa, com um sentimento parecido com felicidade, seria uma honra ver meu amigo, sua esposa e as crianças tomando um farto café da manhã!

Mas qual não foi minha surpresa ao chegar em casa e vir a porta demasiadamente aberta. Olho em volta apavorado, meu coração sem nobreza sacode e tenho ânsias de vômito.

De certa forma eu já adivinhava a tragédia, eu sentia em cada gota do meu sangue pobre o que se passara. Apertei as compras em minhas mãos calejadas e chorei, parceiro…

Chorei como jamais havia chorado, nem pelos cachorros mortos e aleijados do abrigo. Nem por nada neste mundo. Senti uma tal dor aguda no pescoço. Pensei que fosse sofrer um enfarto ou coisa parecida.

Neste momento, o mundo passou a ser, para mim, uma cruel avenida de gente que vai e que vem, sem olhar para um pobre homem sem sorte. Quando dei por mim, estava atirando a comida com tanta fúria que nem o cão da vizinha conseguiu alcançá-la, e a vida tornou-se finalmente um poço sem fundo e eu iria desistir de tudo. Me atiraria e de lá jamais quereria ver de novo a luz do dia…

Enxuguei os olhos com a manga surrada do casaco, enquanto a vizinha, orgulhosa, me mostrava em suas gordas mãos, pendurados pelos rabos finos, dois camundongos mortos. Os filhotes de meu amigo…

Eu nem precisei adivinhar que ele, mais esperto, fugiu com sua esposa para bem longe daquele lugar onde não encontrou acolhida e não foi tratado com respeito, como todo hóspede deveria ser…

Fãs

Ele era cantor de reggae, muito popular, o Jim.
A lista de fãs era interminável. Muitas dormiam à porta do seu prédio, outras mandavam objetos os mais esquisitos, como roupas íntimas, fotomontagens da fã com o músico – nus.
Enfim, a vida do astro não era exatamente um mar de rosas.
Porém, de todas elas, havia uma que o perseguia, já passava dos cinco anos.
Ele já havia feito de tudo para se livrar da moça que, entre lágrimas, prometia se matar, toda vez que o astro a desprezava, ordenando a seus seguranças que a afastassem dele, pelo menos uns dez metros.
Certa feita, ao término de um show, ao entrar em seu carro importado, não percebera, nem ele e tampouco os seguranças, que a menina havia aberto a mala do carro. Arrombado, para ser mais preciso.
Eu sabia de tudo, de todos os seus planos, pois éramos amigos desde criança. Eu me sentia na obrigação de acompanhar Mirian em suas sandices de fã.
Entretanto, neste dia da mala do carro, eu somente a ajudei a arrombá-la porque eu tinha prova de vestibular no dia seguinte e teria que acordar bem cedo.
Mirian sempre fora estranha, quer dizer, meio passional, ainda que lúcida e inteligente.
Na escola era a melhor em todas as matérias. Talvez por isso eu não compreendia essa sua loucura desenfreada por um cantor de reggae, todavia, eu era seu Sancho e a ajudava nas mais variadas loucuras. Até infiltrá-la no camarim do Jim eu ajudei, certa vez, levando uns sopapos dos seguranças que mais pareciam orangotangos de terno.
Bem, no dia seguinte, ao chegar das provas vestibulandas, encontrei minha mãe assustada, com aquele olhar tipo: “Não sabe o que aconteceu!”
Eu me sentei para escutar. Alguma tia morrera, um cão fora atropelado, ou meu pai saíra de casa para, finalmente, assumir a garota da padaria.
Mas qual não foi minha surpresa quando ela balbuciou: “A M…Mirian…”
Ai meu Deus! O que essa garota aprontara desta vez, indaguei com meus botões da jaqueta de couro.
Minha mãe pousou a mão no meu ombro como para consolar-me. “O que aconteceu com a Mirian, mãe? Desembucha logo!”
O carro do músico capotara. Ele morrera na hora, mas Mirian nada sofrera.
“Então, por que o suspense?”
Minha mãe senta-se ao meu lado:
“Ao ver que o tal Jim estava morto, Mirian se jogou na frente de um ônibus. Morreu na hora.”
A única coisa que me veio à cabeça: “Fãs…”

O Masoquista

Como sempre, era quase de manhã.

Palmira se levantou daquele sofá, onde seu corpo descansava. Andou alguns metros, subiu as escadas, até chegar ao banheiro. Banho. Só assim se sentia limpa de tanta sujeira.

Depois da morte da irmã, praticamente não vivera mais. Como que num consenso invisível e inaudível, ela desposara seu triste cunhado.

Muriel, sua finada irmã, vivera em conflito com o marido. O doce Manuel. Homem bom, de bons modos. Trabalhador e muito atencioso.

Viviam os três naquela sombria casa. Sem crianças, sem risos ou jantares alegres. Comiam em silêncio. Depois, cada qual seguia para seus aposentos.

Até que Muriel, nova, aos trinta e sete anos, sofrera um enfarto fulminante. Quase ninguém no enterro. Apenas Palmira, a irmã chorosa, o esposo Manuel, e alguns poucos vizinhos.

Depois do fúnebre cerimonial, seguiram, Manuel e Palmira para a casa que ficara mais triste e vazia, depois do ocorrido.

Durante a madrugada, ela sentia os suspiros do cunhado, podia ouvir até mesmo seu corpo robusto virando de um lado para o outro na cama. Sentia vontade de bater na porta, perguntar se ele queria alguma coisa – um chá, um copo com água. Porém, nunca conseguira reunir coragem para fazê-lo.

Entretanto, de forma natural, acabaram se entendendo, em silêncio. Consenso.

Até que, numa noite de temporal, Palmira estava sentada no pesado sofá da sala em penumbra. Deveria ser umas vinte e duas horas. O vento uivava. A mulher estremecia com o horrendo ruído das folhas das árvores. E as folhas de zinco da casa ao lado.

De repente escutou passos na escada, pois os quartos ficavam no segundo andar da casa herdada por ela e a falecida irmã.

Manuel descera devagar. Sentara-se em sua frente. Anunciou, sem rodeios:

_ Não podemos mais ficar nesta situação, traindo sua irmã.

Palmira pestanejou. Só então notou um brilho de loucura nos olhos do ex-cunhado.

Imaginou o que poderia falar. Já estavam dormindo juntos há três meses. Ela o amava e achava que fosse correspondida, entretanto, naquele momento, sentira o mundo desabar sobre sua cabeça.

Uma dor tomou conta de seu corpo. Sussurrou, com o coração em chamas:

_ Então, não me quer mais?

Ele a olhou com o olhar distante.

_ Eu amo Muriel.- revela, como quem anuncia algo comum.

_ Mas ela nem o amava assim. Até o tratava com frieza. – se debate Palmira.

_ Mas no amor, só ela sabia me satisfazer.

Palmira estremece outra vez. Que diabos a irmã fazia com aquele homem que não o deixava esquecê-la? Ela fazia de tudo: era carinhosa, o beijava, entregava-se totalmente com paixão.

Reunindo todo seu esforço, perguntou:

_ O que minha irmã fazia que eu não faço?

Ele demorou a responder, mas finalmente esclareceu:

_ Ela me desprezava. Quanto mais eu a amava, mais ela me excluía de seu coração. Isso me mantinha vivo.

No dia seguinte, Palmira vê seu amado saindo pela porta. Olha o retrato da irmã no bufê e o quebra, maldizendo sua sorte.

No dia seguinte põe anúncio no jornal, alugando quartos só para rapazes. A casa possuía seis quartos. Todos com banheiro.

Meses depois, a mansão era conhecida como o “Hotel das Libidinagens”. E ninguém entendia por que aquela mulher, antes tão reservada e virtuosa, tornara-se a mais popular das meretrizes daquelas paragens.

E em seu quarto, sempre que fazia amor com algum hóspede, olhava com vingança para Manuel que, depois de voltar para casa, sofria e a amava cada vez mais, sem jamais tocar em seu corpo.

Advento – Day

Enquanto os homens se debatem e debatem por qualquer motivo, achando que defendem suas posições, esquecendo-se de que há algo de misterioso nos céus, um inimigo ataca, e vai minando nossos pensamentos, inventando mentiras, subtraindo de nós a liberdade que jamais tivemos acesso por conta de sua maldade.

O inferno assiste de camarote os irmãos brigando, odiando-se, discriminando-se entre si; ele reinventa seitas, argumentos para, no fim das contas, conseguir o que quis desde o princípio: a desunião e a condenação dos homens.

O anjo que caiu do céu, já não é mais anjo. Ninguém gosta de falar dele, mas todo mal que se vê em volta, não se enganem, ele está por trás.

Fala-se em ecumenismo, ateísmo, e tantos ismos, indicando claramente que, aparentemente, as coisas estão ficando fora de controle. Apesar de Lutero, Tolstoi ou Calvino, apesar da História, o que se vê é descrença por toda parte.

Mas não seria esse o cenário propício para o cumprimento da Profecia? O amor morno, a distração, quando todos estão dando festas, divertindo-se de forma libidinosa? Vangloriando-se em uma permissividade onde, certamente, até mesmo um temporal de uma semana os pegaria de surpresa?

“Não me peça para crer em seu Deus”, dizem alguns. Ou: “Já tenho meus deuses!”, ou ainda: “Eu nego a Deus, sou ateu.”

Panteísmo a parte, é sabido que fazemos parte de uma cadeia universal, onde um alimenta o outro. Entretanto, quem nos alimenta a todos?

Que as distrações contemporâneas encontrem o amor e misericórdia do Criador, naquele dia.

Paixão pelo erro – Henri N. Levinspuhl

Um Roteiro no Oceano das Ideias - Fragmentos do novo livro do autor Henri N. Levinspuhl

Paixão pelo erro

O engano abre portas para quem milita por ele, sobretudo ao alastrar-se sobre a terra, ao trazer a selva para a civilização até acabar com ela, quando é novamente o violento e o astuto que prevalecem em suas respectivas injustiças. A vocação do engano é aprofundar essa situação intolerável até a escravidão, penetrar as instituições e ludibriar sistematicamente o povo, da criancinha ao ancião, tornando-se currículo escolar, cultura e ciência; se bem que, sendo só a aparência de tudo isso, o engano, onde quer que prepondere, faz mirrar a educação, a cultura e o conhecimento, substituindo-os por ele mesmo em diferentes máscaras. Não é de admirar se suas vítimas veem tudo torcido e às avessas, que estejam prontas para acreditar em mentiras e desconfiar da verdade, para eleger o pior e vociferar contra o que o supera; não é de espantar que se imaginem justíssimas benfeitoras inclusive quando inimigas da justiça. Bem lhes faria a admissão de sua cegueira, mas, antes, querem guiar os homens. Se ao invés de deturpar o que não compreendem, a ironia as freasse; se essa gente se reconhecesse ignorante em face da divindade, abrindo-se para um conhecimento mais alto… Mas isso não é nada fácil quando a presunção na alma humana aborrece, resiste e luta contra esse reconhecimento, com o que o intelecto natural tende à sofística.

Os sofistas, direi assim, não esculpiam seus discursos do mármore maciço da verdade, e por isso, sempre que Sócrates os examinava, talhando-os com sua usual destreza de ourives, logo saltava aos olhos que, sob a vaidade aplaudida, nada muito mais havia que uma ignorância convencida. Agora, se sob o sol destes novos dias não há novidade maior que a veste a cobrir os mesmos fenômenos, a densidade do memorial socrático não pode ser uma letra morta. Para mim, esse memorial tem uma validade transcendente, e mesmo se a interpretação de Hamann não valesse para Sócrates, não deixaria de significar muitíssimo. Hamann, a propósito, interpretou a ignorância socrática com uma chave apostólica: Sócrates sabia como se não o soubesse, e é assim que um homem deve conhecer. Como quando um justo se encolhe na modéstia mais sincera, porque não pode, diante de Deus, proclamar bondade ou convencer-se da excelência de suas intenções – porque é Deus, e não ele, que sabe tudo e o conhece de fato –, assim Sócrates não arrogava coisa alguma, menos ainda qualquer sabedoria. Dele se disse, é certo, que, entre os gregos, fora seu maior justo, coisa a que Sócrates não se aferrava, embora, isto sim, se mostrasse afeiçoado da virtude. O erro, porém, primeiro brota como cardos na lavoura dos círculos intelectuais mais arrojadamente psicológicos contra a moral, e depois o povo é arrastado. Não foram multidões que conceberam o erro em sentido intelectual – são, antes, suas vítimas fáceis, em seguida levadas por um excesso de petulância. Como uma cabeça vazia que se persuade da correção de sua extraordinária pessoa; como um jovem arrogante que, sem ter dado um passo para além da diversão irreverente, imagina-se mais sábio que os pais, todos os sábios juntos e Deus com eles. A imaturidade e a ignorância prepotente são difíceis de suportar, porém ainda pior é a chatice extraviada dos novos estetas. Sim, que o leitor examine suas novas dissertações – caso tenha disposição para uma coisa dessas. Porque os estetas de hoje pensam de sua estética o que os sofistas de outrora imaginavam de seu conhecimento, que lhes parecia genuíno. Só que a ilusão agora é tão gritante que nem é preciso peneirar e acrisolar. Basta ler a produção estética dos movimentos sociais, sociopolíticos, socioeconômicos, psíquico-sociais, filosófico-sociais, sociológicos e artístico-sociais. Eu me sinto encantado! E é curioso que o mundo inteiro não esteja gritando para que, parando de escrever teses e artigos acadêmicos, comecem a plantar árvores; pois, quem sabe, com menos páginas digitadas, se descobriria que por essas terras passaram indivíduos que sabiam escrever. Infelizmente, os novos estetas têm coisas importantíssimas para dizer, essas que, sem que percebam, já há muito se achavam anotadas na agenda sociopolítica dos tempos. Disso segue a constatação óbvia de que a humildade sempre faz bem; ela estampa a verdade na alma assim bem dotada de ouvidos para a verdade. Sem humildade, reage-se quando cabia acolher, rejeita-se quando importava admitir, revolta-se contra quem cabia agradecer, e por aí vai até que a coisa toda vire uma paixão, e ninguém quer fazer nada sem paixão hoje em dia, nem mesmo tolices. A paixão é, na falta da arte (antigamente recorrida por essa sorte de pensamento sofístico), o resgate da honra da terra. Tudo vale a pena, até a alma pequena, mas apaixonada pelo que, audaciosamente indo muito abaixo da mediocridade, é validado pela paixão para converter-se em presunção. Oh, como esses tempos são melhores que todos os que passaram! Oh, como se avançou nas causas sexo-sociais! Porém, dá-me, ó Deus, sem ser preciso, a peneira e o crisol.