Paixão pelo erro – Henri N. Levinspuhl

Um Roteiro no Oceano das Ideias - Fragmentos do novo livro do autor Henri N. Levinspuhl

Paixão pelo erro

O engano abre portas para quem milita por ele, sobretudo ao alastrar-se sobre a terra, ao trazer a selva para a civilização até acabar com ela, quando é novamente o violento e o astuto que prevalecem em suas respectivas injustiças. A vocação do engano é aprofundar essa situação intolerável até a escravidão, penetrar as instituições e ludibriar sistematicamente o povo, da criancinha ao ancião, tornando-se currículo escolar, cultura e ciência; se bem que, sendo só a aparência de tudo isso, o engano, onde quer que prepondere, faz mirrar a educação, a cultura e o conhecimento, substituindo-os por ele mesmo em diferentes máscaras. Não é de admirar se suas vítimas veem tudo torcido e às avessas, que estejam prontas para acreditar em mentiras e desconfiar da verdade, para eleger o pior e vociferar contra o que o supera; não é de espantar que se imaginem justíssimas benfeitoras inclusive quando inimigas da justiça. Bem lhes faria a admissão de sua cegueira, mas, antes, querem guiar os homens. Se ao invés de deturpar o que não compreendem, a ironia as freasse; se essa gente se reconhecesse ignorante em face da divindade, abrindo-se para um conhecimento mais alto… Mas isso não é nada fácil quando a presunção na alma humana aborrece, resiste e luta contra esse reconhecimento, com o que o intelecto natural tende à sofística.

Os sofistas, direi assim, não esculpiam seus discursos do mármore maciço da verdade, e por isso, sempre que Sócrates os examinava, talhando-os com sua usual destreza de ourives, logo saltava aos olhos que, sob a vaidade aplaudida, nada muito mais havia que uma ignorância convencida. Agora, se sob o sol destes novos dias não há novidade maior que a veste a cobrir os mesmos fenômenos, a densidade do memorial socrático não pode ser uma letra morta. Para mim, esse memorial tem uma validade transcendente, e mesmo se a interpretação de Hamann não valesse para Sócrates, não deixaria de significar muitíssimo. Hamann, a propósito, interpretou a ignorância socrática com uma chave apostólica: Sócrates sabia como se não o soubesse, e é assim que um homem deve conhecer. Como quando um justo se encolhe na modéstia mais sincera, porque não pode, diante de Deus, proclamar bondade ou convencer-se da excelência de suas intenções – porque é Deus, e não ele, que sabe tudo e o conhece de fato –, assim Sócrates não arrogava coisa alguma, menos ainda qualquer sabedoria. Dele se disse, é certo, que, entre os gregos, fora seu maior justo, coisa a que Sócrates não se aferrava, embora, isto sim, se mostrasse afeiçoado da virtude. O erro, porém, primeiro brota como cardos na lavoura dos círculos intelectuais mais arrojadamente psicológicos contra a moral, e depois o povo é arrastado. Não foram multidões que conceberam o erro em sentido intelectual – são, antes, suas vítimas fáceis, em seguida levadas por um excesso de petulância. Como uma cabeça vazia que se persuade da correção de sua extraordinária pessoa; como um jovem arrogante que, sem ter dado um passo para além da diversão irreverente, imagina-se mais sábio que os pais, todos os sábios juntos e Deus com eles. A imaturidade e a ignorância prepotente são difíceis de suportar, porém ainda pior é a chatice extraviada dos novos estetas. Sim, que o leitor examine suas novas dissertações – caso tenha disposição para uma coisa dessas. Porque os estetas de hoje pensam de sua estética o que os sofistas de outrora imaginavam de seu conhecimento, que lhes parecia genuíno. Só que a ilusão agora é tão gritante que nem é preciso peneirar e acrisolar. Basta ler a produção estética dos movimentos sociais, sociopolíticos, socioeconômicos, psíquico-sociais, filosófico-sociais, sociológicos e artístico-sociais. Eu me sinto encantado! E é curioso que o mundo inteiro não esteja gritando para que, parando de escrever teses e artigos acadêmicos, comecem a plantar árvores; pois, quem sabe, com menos páginas digitadas, se descobriria que por essas terras passaram indivíduos que sabiam escrever. Infelizmente, os novos estetas têm coisas importantíssimas para dizer, essas que, sem que percebam, já há muito se achavam anotadas na agenda sociopolítica dos tempos. Disso segue a constatação óbvia de que a humildade sempre faz bem; ela estampa a verdade na alma assim bem dotada de ouvidos para a verdade. Sem humildade, reage-se quando cabia acolher, rejeita-se quando importava admitir, revolta-se contra quem cabia agradecer, e por aí vai até que a coisa toda vire uma paixão, e ninguém quer fazer nada sem paixão hoje em dia, nem mesmo tolices. A paixão é, na falta da arte (antigamente recorrida por essa sorte de pensamento sofístico), o resgate da honra da terra. Tudo vale a pena, até a alma pequena, mas apaixonada pelo que, audaciosamente indo muito abaixo da mediocridade, é validado pela paixão para converter-se em presunção. Oh, como esses tempos são melhores que todos os que passaram! Oh, como se avançou nas causas sexo-sociais! Porém, dá-me, ó Deus, sem ser preciso, a peneira e o crisol.

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Sobre Day

As pessoas que consideram que a coisa mais importante da vida é o conhecimento lembram-me a borboleta que voa para a chama da vela, e, ao fazê-lo, queima-se e extingue a luz. (Tolstoi)
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