Reino Acabado

Ela estava cansada de ceder a todos. Ouvir seu nome adulterado prostituído, e mal afamado em toda parte.
Mas é melhor que ela mesma conte sua estória.

Meu nome era falado nos botecos, padarias, cemitérios, na casa do pobre. Na mansão dos ricos.

Um dia, eu resolvi ter com o chefe da empresa e fui direto ao assunto.

Disse:
_ Não quero mais trabalhar neste cargo.

O chefe me olhou e respondeu, com sua voz grossa e concentrada, enquanto roçava a mão na barba.
_ Não existe uma substituta. Eu a treinei. Eu a fiz nesta empresa.

Eu, com as faces rubras e quase irada, respondi, enfrentando-o pela primeira vez.
_ Eu virei uma espécie de religião. Em todo assunto sou citada para resolver as falhas dos outros. Peço demissão.

Meu chefe se levantou da cadeira confortável, acolchoada. Era difícil vê-lo perder o controle. Porém, neste dia, sua mão enorme socou a mesa.
_ Você não está pedindo demissão, mas querendo começar uma rebelião!

A partir daqui eu continuo.

A funcionária foi demitida por justa causa. A empresa não poderia se sustentar sem ela. Ficou tudo de pernas pro ar.

Hoje, aquilo lá é uma zona, balbúrdia. Todo mundo enfurecido, já não se acredita em nada. Aumento de salário, promoção. Em nada!

O Reino da Ilusão, hoje, vive triste porque o Rei adoeceu e não houve quem o curasse, afinal ela se fora. Estava apodrecendo nos porões do castelo. E, irresoluta, mantinha sua palavra. Não era prostituta. Presa, esqueceram-se dela.

E foi assim que o Reino da Ilusão ficou sem Esperança, a única funcionária que tinha credibilidade naquelas paragens.

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Terra

Há muito barulho e mesmo assim eu grito mais alto do meu apartamento, calem-se e eu não posso escrever e nem ficar a sós. Bailes e algazarras, carros, buzinas na alma, drogas na esquina, e onde está a paz, onde a vergonha do Estado, procuro por respostas e nada vem, então só escuto silêncio, murmúrios de capetas, políticos articulando-se, e uma presidenta de saias-calças que não convence, a máquina é brutal, não temos mais heróis, vamos sonhar, videogames, nos transportar para outra dimensão, orar, berrar, ou silenciar. Faça-se algo pela África de cada um de nós, cada um de nós temos fome de algo, sede de alguma coisa, um líquido antídoto que nos leve ao nirvana do apocalipse, que nos traga a uma nova era, uma florida terra. Os urubus estão de plantão, milhões escorregando, saindo do país, ilhas exóticas, ilhas desnudas, mulheres despidas, ônus da transação, filme ou ficção, Hollywood das nações, Europa e bombas, cadáveres ao mar, petróleo – o dono do mundo. E minha poesia morre nos jornais, em cada desses bacanais, ela não sustenta a globalização, bioquímica, biodegradável, biocombustível, Bio. Minha vida indo aos poucos morar em outro lugar, e eu vou te levar, poesia, dentro de mim, escondida no aeroporto os cães não a farejarão. Estarás segura em meus intestinos, minhas entranhas. Paradoxo, ó deus, miséria contemporânea, dormir na estação de marte, sonho de milionário, sem José rico. Sertão e veredas, onde estão meus poetas? Entre as teclas do computador, gritando mais alto que o cristo redentor. Silêncio, eu te faço agora. A dor aumentou, analgésico. Não votarei.